Elisa Gudin homenageia Elton Medeiros em ‘O Melhor Carinho’

Filha do músico e compositor paulistano Eduardo Gudin, Elisa lança seu primeiro EP

Por: Kathleen Hoepers Comunicar erro

Com uma bagagem pessoal que a credencia como representante da nova geração do samba, a paulistana Elisa Gudin interpreta composições do grande Elton Medeiros em seu EP de estreia intitulado “O Melhor Carinho”.

Filha do músico e compositor paulistano Eduardo Gudin, Elisa, ainda criança, acompanhava-o em shows, ensaios e gravações e assim teve o primeiro contato não apenas com a música de Elton, mas também com o próprio artista, parceiro e amigo de seu pai. “Ele sempre me chamava a atenção ao aparecer com aquela mágica caixinha de fósforo, chapéu e forma tão diferente de cantar”, diz Elisa em entrevista concedida ao Samba em Rede.

José de Holanda
Crédito: Foto: José de Holanda | Capa: Joana Gudin
José de Holanda
Crédito: José de Holanda
José de Holanda
Crédito: José de Holanda

Com repertório extraído do cancioneiro do compositor carioca Elton Medeiros, que completou 89 anos de vida em julho deste ano, Elisa abre o EP com a contagiante beleza da canção “Estrela” (1989), assinada também por Roberto Riberti e Eduardo Gudin. Bem à vontade, a cantora interpreta com leveza tanto canções menos conhecidas de Elton, caso do samba “O Melhor Carinho” (1986), parceria com seu pai e que intitula o recente trabalho, quanto as clássicas “Sofreguidão” (1966) e “Sorri” (1965), fruto de parcerias com Cartola e Zé Keti, respectivamente.

Gravado em São Paulo no estúdio 185 Apodi e mixado por Beto Mendonça, o EP contou com a participação de Eduardo Gudin e de músicos da nova geração do samba e do choro como Gian Correa (violão de sete cordas), Enrique Menezes (flauta), Rafael Toledo (percussão), Henrique Araújo (cavaquinho) e Allan Abadia (trombone).

Escute o EP “O Melhor Carinho” no Spotify:

Além do lançamento de seu primeiro EP, a cantora, que atualmente divide-se entre Rio de Janeiro e São Paulo, faz shows interpretando o repertório de seu pai ao lado do cantor carioca Ronaldo Gonçalves e também se apresenta em formato Duo com Rafael Schimidt, um projeto de voz e violão de sete cordas que explora clássicos do samba.

Veja também Elisa Gudin interpretando “Sofreguidão”, canção de Elton Medeiros e Cartola: 

Na entrevista, a jovem cantora ainda compartilha impressões sobre sua vivência musical em São Paulo e no Rio de Janeiro, recorda o momento em que decidiu investir na carreira de cantora e também reflete sobre a luta em prol do protagonismo feminino no meio artístico.

“Estou tendo um retorno muito bonito da importância que é se ter um trabalho que cante Elton Medeiros, figura tão importante para nossa música, e que muitas vezes não é lembrado da forma que deveria”, diz Elisa quando perguntada sobre suas expectativas para o lançamento do EP.

Confira a entrevista completa abaixo: 

Você está lançando o seu primeiro EP e escolheu homenagear o mestre Elton Medeiros. Como se deu o processo de escolha do repertório para as regravações?

O processo de escolha do repertório se deu de forma natural. O EP foi ganhando vida sozinho, as músicas escolhidas acabaram por expressar, também, o momento de vida pelo qual eu passava ao longo de sua realização.

Sempre tive vontade de fazer um projeto sobre Elton, mas não necessariamente ao escolher as músicas estava pensando em fazer esse disco. Pensei, na verdade, em fazer duas gravações para ter algum material gravado sobre Elton, já que o projeto sobre ele existia há tempos na minha cabeça e estava estudando formas de viabilizá-lo mais pra frente.

Primeiramente vieram duas canções: “Sofreguidão”, que sempre escutei no clássico LP de Elton e Paulinho da Viola “Samba na Madrugada”, cuja letra e melodia sempre me emocionaram demais. Após isso, numa conversa com Gian Correa (arranjador nesse trabalho de “Sofreguidão” e “Sorri”) sobre qual música seria bacana de cantar dentre algumas menos conhecidas e pouco gravadas, veio a ideia de gravar a música “Sorri”, parceria com outro grande compositor que não podia deixar de fora, Zé Keti, e registrada por Teresa Cristina e Grupo Semente no disco “A Vida Me Fez Assim”,  música que é forte, doce e triste, e que casaria legal com minha voz, com meu jeito de cantar.

No caso de “Estrela”, parceria de Elton com meu meu pai e Roberto Riberti, nem precisei pensar: é uma música que sempre escutei ao acompanhar meu pai em seus shows e que sempre me emocionou muito. E acho que, por ser uma composição que para mim já existia de qualquer jeito, já estava ali dentro do projeto desde da primeira vez em que pensei em fazer algo sobre Elton.

Após a escolha dessas três músicas, a ideia do EP já tinha surgido, mas faltava uma. Sem pressa, deixei para ir pensando com calma e aí ela apareceu pra mim. O querido Vidal Assis, grande amigo de Elton, me lembrou em um encontro de “O Melhor Carinho”, letra de meu pai com melodia de Elton. E pronto, foi isso. Ao recordar, escutar sua letra e tudo o que dizia, achei a música que faltava. Ela coube tão perfeitamente no repertório que acabou dando nome ao EP.

Para mim, o processo de escolha de repertório do disco, ao mesmo tempo que foi pensado com carinho e cuidado, foi sendo realizado aos poucos e tomando forma ao longo de um período grande de transformação que eu estava vivendo. Foi lindo e assustador perceber que as músicas que escolhi no início desse percurso, sem saber o que estava por vir, também sinalizavam e me acompanhavam nesse processo pessoal que estava vivendo. Cada música que gravei sem querer conversava com o que eu vivia, o que foi muito difícil, mas especial. Cada música representa muito para mim.

Como é a sua relação com o Elton Medeiros? E como você reconhece a influência dele em sua música?

Minha relação com Elton de fato foi somente quando pequena mesmo, ao acompanhar meu pai em seus shows e, ali nos palcos e camarins, que eram minha segunda casa, a relação natural foi surgindo. Era mais uma relação de vivência do que estava rolando ali, não necessariamente com ele. Na minha cabeça, era mais um amigo de meu pai que fazia shows com ele, uma coisa meio natural, sem entender o que ele representava, mas que sempre me chamava atenção ao aparecer com aquela mágica caixinha de fósforo,chapéu e forma tão diferente de cantar.

Ao ir crescendo, continuando a acompanhar e entendendo o que Elton é, fui entendendo a importância que aquela figura tem dentro de nossa música. O último show em que o vi foi numa homenagem para ele que meu pai idealizou no Sesc em 2013. O show juntou gente de peso como Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho, Carlos Lyra, Fabiana Cozza, Adriana Moreira, e ali começou a brotar a vontade de continuar a homenageá-lo de alguma forma. Conversei um pouquinho com ele e levei comigo aquela sensação.

Então, a influência que Elton exerce em minha música é a tentativa de continuar sua verdade, sua simplicidade, sua elegância. Tento o máximo possível trazer isso para o que faço. Um trabalho verdadeiro, que para mim é isso que Elton me passa com sua música: verdade.

Filha de um dos grandes compositores de São Paulo, Eduardo Gudin, você deve ter sido exposta ao samba e a grandes nomes da música popular desde muito cedo. Quando é que você decidiu investir na carreira de cantora? Consegue recordar algum momento que te marcou de maneira especial?

Olha, essa é uma das perguntas mais difíceis para responder. Acho que fui investindo nisso aos poucos sem nem perceber. Fiz faculdade de Dança na UFRJ e acho que dentro de mim era uma forma de não me distanciar desse lado da arte, mas ainda não tinha em mente que queria ser cantora. Fui fazer outra faculdade, dessa vez de publicidade em São Paulo.

De fato, decidi investir mesmo em 2017, quando passei a entender que o canto seria meu trabalho. Já havia feito coros, gravações, aulas, mas nunca colocado o canto em primeiro lugar. E faltava isso: mudar esse olhar e encarar que iria ser difícil, dolorido e que iria mexer em muitos lugares dentro de mim, mas que para trazer isso tudo à tona, era preciso inverter as coisas de vez.

Uma data que me marcou muito, e que logo após isso larguei tudo, foi um show que fiz coro para meu pai e Gisa Nogueira em 2016. Ali ,ao cantar junto a eles “Recado ao Poeta”, música que me emociona demais de meu pai e Paulo César Pinheiro que João Nogueira gravou, senti uma emoção que não coube em mim, tive que cantar olhando para o lado oposto de meu pai e Gisa pra não chorar. Entendi o tipo de emoção que queria pro meu caminho.

Você é filha de um paulistano e de uma carioca, viveu e transitou entre as duas cidades durante toda a vida. O que você experimentou de diferente nesses dois espaços – em termos de samba – que pode ter influenciado o seu jeito de encarar a profissão?

Bom, não gosto nunca de afirmar que o samba em um lugar é assim e em outro é de outro jeito. Mas, na verdade, o que aconteceu comigo é que não foi por conta da cidade em si que vivenciei diferentes “jeitos” de samba, e sim pela vivência que tenho com minha mãe e a vivência que tenho com meu pai: o samba chega para mim de duas formas, uma sem anular a outra, e sim somando.

Minha mãe sempre foi do dia, da rua, o que no Rio de Janeiro é muito forte e, ao crescer com ela no Rio, sempre convivi com essa cultura de rua, onde o samba permanece firme e forte. Moramos muito tempo ao lado da quadra do Salgueiro; minha mãe, avó e família carioca é toda Salgueirense: lá eu e meus primos ficávamos brincando nos brinquedos durante o samba e aquela vivência natural, que havia em casa também nos almoços, foi me dando um olhar da rua, do jeito, da forma de cantar, do que levar de aprendizado, da troca cultural entre as pessoas, da empatia existente nesses espaços, troca humana que é tão importante para a música e a vida.

São Paulo me traz uma vivência em outro sentido, talvez por muita influência do meu pai, um outro olhar sobre o samba; um olhar mais profissional e criterioso do que quero fazer com todas essas experiências, que se mesclam também, com o jeitão do que as duas cidades têm para oferecer na minha busca.

A presença feminina sempre foi fundamental para o desenvolvimento e perpetuação do samba mas a luta em prol do protagonismo feminino está longe de acabar. Com isso em mente, de que modo você e sua música se transformaram ao longo desses anos? 

Sim, a presença feminina sempre foi fundamental para o desenvolvimento do samba, porém o meio musical formado em sua maioria por homens dentro do samba colocou diversas vezes a figura feminina como somente um meio de passar suas músicas adiante e não necessariamente como protagonistas de sua música, de seu trabalho.

O que mudou na verdade na minha música foi a forma de construção dentro dela, sendo uma desconstrução do meu lugar dentro disso.

A música sempre foi um meio muito masculino, onde, no geral, convivi com muitos compositores e músicos homens, trazendo o lado feminino em sua maioria na parte do canto. Sempre acompanhei de perto como essas cantoras se construíam e se colocavam dentro  desse espaço. Como se colocar num espaço em que sua voz tenha força no sentido de levar seu trabalho da forma como nós queremos. Como tomar isso pelas rédeas, que caminhos temos que percorrer e entender para conseguir com que nosso trabalho tenha legitimidade, respeito e entendimento de qualidade dentro desse mundo que é tão masculino e nos coloca em outro lugar.

Assim, por ter crescido nesse meio de músicos muito importantes, acabei sem querer criando uma forma viciada de sempre relativizar o que eu queria ou sentia, talvez até uma capa de proteção. Por conta do espaço social criado pela sociedade para a mulher, somado a questões internas, a minha crítica pessoal virou algo um pouco difícil de lidar, dificultando às vezes o processo todo.

O que foi se transformando para mim foi a construção de como conseguir me posicionar e acreditar nos mecanismos que fui adquirindo ao longo das vivências dentro da música: como construir o que quero, pegar isso pela mão e colocar de forma com que o mundo masculino não desqualifique o que digo, mas sim some, entenda e caminhe junto.

Obviamente, temos que quebrar muitas barreiras para isso acontecer, nos impor, nos forçar a não desistir e acreditar. É cansativo, mas sinto que cada vez estamos mais fortes nesse caminho, mostrando que muitas vezes não estamos em algum espaço não por falta de vontade, e sim, por conta da estrutura de vida machista em que temos que conciliar muitas coisas e abrir mão de muitas outras para conseguir chegar ali.

É quebrar muros o tempo todo, então quando digo em acreditar nas ferramentas que temos, sejam elas vindas de quaisquer vivências, é entender o que você possui e não ter medo de colocar isso dentro do seu trabalho.

Como tem sido a resposta do público desde o pré-lançamento do EP? E você já está pensando em novos projetos? 

A resposta do público em relação ao projeto tem sido muito bacana e especial. Estou tendo um retorno muito bonito da importância que é se ter um trabalho que cante Elton Medeiros, figura tão importante para nossa música, e que muitas vezes não é lembrado da forma que deveria.

Sinto que a mensagem está sendo transmitida de forma bonita e orgânica, onde muita gente me diz que é um projeto bonito, verdadeiro e feito de forma simples, sem muita coisa. Isso é exatamente o queria passar ao público. Então a resposta para mim é mais que linda!

Possuo mais dois projetos em andamento: um projeto que estreou em junho aqui no Rio, onde canto músicas de meu pai com uma turma muito bacana: Ronaldo Gonçalves na voz, Fernando Leitzke no piano, Marcus Thadeu na bateria e João Rafael no baixo. Agora busco mais espaços para fazê-lo por aqui aqui e em São Paulo. Também possuo o Duo com Rafael Schimidt, voz e violão de sete cordas, onde cantamos um repertório variado de compositores da nossa música.

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