Festival Path: palestra debate como os assexuais lidam com o sexo

Tem gente que não sente a necessidade ou vontade de transar. E tudo bem! O assunto não é tabu, e sim uma reflexão para a sociedade hiperssexualizada

Por: Publi | Comunicar erro

“Você está pensando no que eu estou pensando?”. Se a pergunta carregada de segundas intenções for disparada para uma pessoa assexual, a resposta provavelmente será um sonoro “não, obrigadx”. Depois de boas doses de tabu, frustrações por não pensar “naquilo” e um montão de aspas, os assexuais saem cada vez mais da toca para falar sobre como lidam com o sexo. Ou a falta dele. Sem filtros, o assunto marca presença na programação do Festival Path 2019, que acontece nos dias 1 e 2 de junho em São Paulo.

Falar sobre sexo sempre foi um tanto complicado. O tema anda de mãos dadas com a timidez, a comédia, o drama, o marketing e a prepotência, afinal, todos os mortais que habitam essa Terra já tiveram de ouvir mil e uma histórias de quem pratica muito, não vive sem, é bom de cama e etc. Ah, tá bom. Mas, para os assexuais, sexo também flerta com a enorme falta de identificação social, visto que, até então, ficar sem ou se desinteressar por tal relação era tido como trauma, desvio comportamental, infantilidade, problema de saúde, etc.

A orientação sexual de cada indivíduo é hoje dividida em pelo menos três categorias: os alossexuais, que sentem vontade de transar; os assexuais, que de maneira geral têm um nível de tesão muito baixo ou inexistente; e os demissexuais, considerados na “área cinza” da sexualidade, pois estão entre ambos, já que pode existir a vontade de ter relação sexual em situações de envolvimento romântico ou afetivo bem acentuados. É algo condicional.

A ausência de atração sexual é tema constante de estudos e pesquisas, ganhando também um olhar mais atencioso da mídia. No Brasil, o Programa de Estudos da Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (ProSex-IPq) divulgou, lá em meados de 2008 (ou seja, mais de uma década atrás), que pelo menos 7,7% das mulheres e 2,5% dos homens, entre 18 e 80 anos, são assexuais. Mas o número tende a aumentar a medida em que o assunto for discutido e as pessoas forem se assumindo, como propõe o Festival Path 2019 para esta edição.

Na curadoria de sexualidade dentro da grade do evento, Priscilla Bertucci, do coletivo [SSEX BBOX], afirmou que implantar a sigla extendida LGBTQIA+, que contempla pessoas queers, interssexuais e assexuais, é importante para que a inclusão aconteça. “Falar sobre assexualidade, mesmo dentro do movimento LGBT, ainda é um grande tabu. Vivemos numa sociedade cis hétero normativa, mas também em uma sociedade sexo normativa, o que leva ao pensamento de que uma pessoa que não se interessa por sexo é uma pessoa doente”.

Virando a chave, ela justificou a escolha do tema. “Partiu de uma crença nossa. Se o que não é falado é tratado como inexistente, então é preciso incluir essa pauta da maioria da comunidade LGBT+ no Brasil, pensando em todas as possibilidades de existências.”

No momento em que a ausência de desejo e a falta de sexo são tratados como algum tipo de distúrbio se desumaniza as pessoas assexuais, que vivem plenas sem tal necessidade, mas se sentem completamente desconfortáveis, reprimidas e perdidas até a descoberta de sua autoidentificação.

“Temos experimentado mudanças importantes sobre como viver a sexualidade, incluindo uma diversidade de modos de satisfação e prazer deslocados do sexo em si”, argumentou a psicanalista Cristina Rocha. “Estar bem com a escolha de não praticar sexo me parece que diz respeito também ao que cada um sustenta para si mesmo, fora dos códigos que pretendem ser ‘universais’, do controle dos corpos, e dos inúmeros slogans, incluindo o da ‘vida saudável’.”

Foi apenas na maturidade que a designer de joias Cris Varkulja se identificou como assexual, depois de dois casamentos e vários relacionamentos amorosos ou casuais, que dificilmente passavam dos seis meses de duração. “Buscava me relacionar, inconscientemente, para me autoafirmar dentro da nossa sociedade, que impõe que, para ser uma mulher aceita e respeitada, você deva estar em um relacionamento afetivo. Tudo gira no encontro da sua ‘alma gêmea’”, contou ela.

Crédito: Arquivo pessoal - CrisCris Varkulja, palestrante do Festival Path 2019

Atualmente, aos 48 anos de idade, se enxerga como assexual fluída. Gosta de sexo e de pessoas, mas vive tão bem em sua solitude, que chega a se incomodar com a relação e o convívio diário de uma parceria mais duradoura. “Já fiquei sem transar por meses e até mesmo anos. Em alguns momentos desejo e em outros não desejo estar em uma relação afetivo romântica ou fazer sexo”.

A questão ainda é uma descoberta em andamento, mas Cris garante que a assexualidade só veio para acrescentar na vida. “Hoje, tenho mais atenção e respeito à mim e às pessoas com quem vou me relacionar. Também não me sinto obrigada a estar ou transar com alguém”. No ano passado, ela criou o Coletivo AbrAce para trazer visibilidade e conscientização sobre a assexualidade.

Como cada indivíduo é único, cabe a cada assexual vivenciar sua sexualidade da forma que lhe convém. Há quem se masturbe, especialmente para aliviar o estresse e não exatamente para atingir algum nirvana orgásmico, e também há aqueles que nem chegam a ter ereção ou sentir um calor na vagina. O termômetro sexual é algo único, pessoal e intransferível. Este é apenas um pedaço do bolo que compõe a comunidade chamada mundo.

A pauta ajuda a romper ideias ultrapassadas. Sexo não é e nem deve ser obrigação social. Sentir prazer tampouco precisa estar ligado à transa. E assim amor sem sexo, assim como os assexuais sempre existiram, apenas não tinham voz. Por que não falar sobre isso, dentro ou fora da cama?

O debate “Sexo nem sempre é vida: os afetos e os desejos de pessoas assexuais” acontecerá no Festival Path 2019, que nesta edição transformará a Avenida Paulista num palco de criatividade, shows, workshops e muitos insights inspiradores.

Não fique de fora dessa! Os ingressos do 2º lote já estão a venda no site oficial do evento. Para não perder nada sobre o festival, fique ligad@ na Catraca Livre.

Serviço:

Palestra: “Sexo nem sempre é vida: os afetos e os desejos de pessoas assexuais”

Quando: Sábado 01/06 das 15h45 às 16h45

Onde: Hotel Tivoli Mofarrej, Sala Ipiranga

Endereço: Alameda Santos, 1437 — Jardim Paulista, São Paulo — SP, Brasil

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