Na Bahia, jovens eternizam cultura local em dicionário que resgata termos utilizados por moradores

Por: Mayara Penina Comunicar erro

Do Criativos da Escola

Foi durante uma aula de Português, na qual conversavam sobre a norma culta e a norma padrão, que os alunos do Colégio Estadual de Correntina começaram a se recordar de situações onde pessoas eram ridicularizadas pela sua maneira de falar. Nos relatos compartilhados, alguns colegas comentaram casos de idosos que eram discriminados e acusados de serem arcaicos e “ultrapassados”, por utilizarem palavras pouco usadas nos dias de hoje.

Sensibilizados com as histórias, os estudantes decidiram fazer um grande levantamento de expressões usadas pelos moradores mais antigos do município de Correntina (BA), onde a escola se encontra.

crédito: arquivo pessoal
Pequeno grande dicionário.

Dividiram-se em equipes que se responsabilizaram por diferentes áreas da cidade, incluindo as comunidades rurais, e fizeram um grande mutirão de entrevistas com idosos. Durante as entrevistas, os jovens escutaram as declarações com atenção e cada vez que um entrevistado dizia uma palavra ou expressão que desconheciam, perguntavam seu significado e o anotavam em seus cadernos. Depois das conversas, os grupos se reuniram e montaram uma grande lista com as suas descobertas.

Com o objetivo de romper com o preconceito, decidiram então criar um dicionário. Mais de trinta alunos do primeiro ano do ensino médio se envolveram na iniciativa e, juntos, produziram a primeira versão da publicação, com capa feita à mão de recortes e colagens.

A professora Aparecida Amaral Silva, coordenadora do projeto, comenta orgulhosa que o maior impacto do projeto foi a possibilidade dos estudantes e dos moradores mais velhos se relacionarem: “O convívio com jovens foi muito impactante e enriquecedor para os idosos, que se sentiram valorizados e reinseridos na vida social da cidade”.

Os alunos apresentaram o dicionário na Feira de Ciências do Município e ficaram muito surpresos com o grande interesse do público. Fizeram 100 cópias para distribuição, que rapidamente se esgotaram. Alguns visitantes disseram que levariam a publicação para seus pais e avós, pois estavam certos de que eles ficariam felizes.

No final de 2015, os alunos prepararam uma nova impressão do dicionário em gráfica profissional e se apresentaram na FECIBA (Feira de Ciências da Bahia). O material fez tanto sucesso que os jovens decidiram ampliar o projeto, que foi batizado de “Pequeno Grande Dicionário”.

Danilo Viana, 16 anos, membro do grupo, contou um pouco sobre a experiência de participar da elaboração do projeto:

Por que vocês decidiram trabalhar a questão da discriminação da linguagem?
Danilo: Porque em uma temática trabalhada na sala, sobre diversidades linguísticas, comentamos que presenciamos diariamente os idosos sofrerem preconceito por usarem termos que nós não utilizamos atualmente, não só eles, mas também as pessoas que não tiveram muito acesso à educação.

Como vocês fizeram o levantamento dessas expressões?
Danilo: Fizemos através de entrevistas com idosos e pessoas da zona rural, elaboramos perguntas principalmente sobre a educação, e eles começaram a nos contar, que muitas vezes, até os seus próprios netos riem quando falam alguma palavra desconhecida.

Qual sentimento vocês conseguiram captar durante as conversas, em relação aos entrevistados e o preconceito sofrido por eles?
Danilo: Eles se sentem tristes ao ouvirem os risos maldosos das pessoas, principalmente jovens, tristes em saber que nem todos tomam iniciativas de respeitar a cultura.

E o que entrevistados disseram sobre ter passado por essa experiência?
Danilo: Ao final da entrevista falávamos que o objetivo é romper com este preconceito. Eles se sentiram maravilhados por contribuírem para a renovação dessas palavras, que já estavam guardadas em um baú, sendo esquecidas mais e mais a cada dia que passa, e que com a nossa iniciativa, poderiam ficar seguros em saber que o passado tanto do nosso estado, quanto da nossa cultura ficarão arquivados para as próximas gerações. Quando o dicionário ficou pronto, levamos para cada um deles e todos ficaram muito felizes, alguns até se emocionaram ao verem que o passado deles não havia morrido.

Quais frutos vocês colheram desse projeto?
Danilo:Foi uma experiência sensacional, e saber que muitas pessoas admiram e incentivam nossa iniciativa muda tudo. Pessoas nos incentivam a cada dia a conseguir mais palavras e não parar com o ‘Pequeno Grande Dicionário’, para passa-lo de geração em geração. Aprendemos que sempre devemos valorizar o nosso passado, que por mais que a situação pareça engraçada, devemos enfrentá-la para romper com o preconceito, seja ele em qualquer condição. O mais importante é que devemos respeitar as diversidades linguísticas, correr atrás da nossa origem e buscar saber sempre mais. Isso é muito importante, inclusive para o desenvolvimento do nosso país.

Vocês pretendem continuar com o dicionário?
Danilo: Pretendemos sim, aliás, durante as nossas férias do período escolar, muitos alunos coletaram palavras de suas viagens. Esperamos alcançar um número maior de palavras para depois confeccionamos um dicionário não só local, mas sim cultural, que envolva outros estados.

Do que mais gostou nesse processo, o que vai levar para a vida toda?
Danilo: Eu amei tudo na verdade. Principalmente, quando ouvia um idoso agradecer. (não por uma questão de reconhecimento, mas sim por saber que estou contribuindo para algo bom, sem querer nada em troca), foi bom aprender sobre essa temática e o significado de novas palavras. Espero levar para toda a minha vida essa iniciativa, e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo. Todos nós temos nossas adversidades e enfrentamos obstáculos diariamente, mas cada um reage de uma maneira diferente.

Alguns exemplos de palavras resgatadas:

Azular – sumir; ir embora.
Biscoitar – comer de graça
Bucho quebrado – está com lombriga
Cabeça de bode – ovo cozido servido com farinha
Carãozim – carona, ir ou vir de algum lugar sem pagar nada
Cremilda – refere- se a dentadura
Impaludismo – palidez
Intiriçado – triste
Lunga – pessoa que não suporta desaforo
Morredeira – desânimo
Primeirão – antigamente
Ritinia – voz bonita
Safanão – chamar a atenção de alguém
Sutilin – pedido de silêncio
Travial – vida de sempre
Vacidera – erva cidreira
Xuxuda – uma dor

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