Qual o tamanho do preconceito quando colocamos a palavra adoção na frente do texto?

Imprensa tem papel importante na conscientização, mas ainda falha

Redação

Gleyma Lima

Qual o tamanho do preconceito quando colocamos a palavra adoção na frente do texto?
Créditos: iStock/Gajus
Qual o tamanho do preconceito quando colocamos a palavra adoção na frente do texto?

Hoje parei durante o fim da minha licença maternidade via adoção para escrever este artigo que, infelizmente, não era o que eu queria fazer (tinha que terminar meu IR). E olha que já fui militante de todos os temas possíveis, já militei muito pelo direito das mulheres, meio ambiente, direito da periferia, contra ao abuso sexual, porém eu nunca tive coragem de falar sobre adoção. Esse assunto para mim sempre foi muito particular e extremamente doloroso: sou filha por adoção e a minha caminhada neste lugar não foi nada fácil – um dos piores que tive que lidar ao longo dos meus 37 anos.  Porém, retornei para essa estrada quando tomei a decisão ao lado do meu marido de adotar meu filho no ano passado. Uma experiência dolorosa, mas cercada de muito amor e apoio dos meus amigos, família, parceiro, e muito carinho dos meus colegas de trabalho.  Essa é a minha “nova bolha”.

Essa semana ela furou quando eu abri os portais de notícias e me deparei com a seguinte notícia: “Adolescente foi encaminhado para a delegacia, onde afirmou que sempre teve desentendimentos com seus pais, que eram adotivos” G1, 20/05/2024.

Em nome da audiência é gerado este título e, com ele, um impacto muito além na vida das pessoas que pertencem a essa via de parentalidade carrega. Quero acreditar que quem está escrevendo não parou para pensar nisso.

Nessa e nas próximas, meu filho e de tantos outros pais e mães vão para escola e podem ser chamados de assassinos. Essa é uma possibilidade real. Durante o tempo que isso for lembrado terão encontros de famílias, pessoas decidindo se vão ou não adotar e essa notícia com esse título infeliz vai ecoar nas cabeças e gerar dúvidas nos adultos e traumas nas crianças e adolescentes. Vai gerar julgamentos e aumentar frases como “eu não falei para você não pegar o filho dos outros para criar” e assim vai o rastro da dor deixar suas marcas mais uma vez…

Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), desde 2019, já foram adotados 21.339 jovens no Brasil. Hoje, temos na fila 4.790 jovens esperando um lar e 36.260 famílias aguardando uma criança.

Imagina a dor que todas essas pessoas estão passando. Seja porque estão na fila ou porque estão aguardando a chance de formarem uma família ou porque possuem uma família e têm medo do julgamento externo.

Temos ainda a taxa de devolução de crianças que também poderia aumentar depois que uma reportagem com um título tendencioso vai ao ar. 

Não são poucos os casos em que o “adotado/adotada” são frisados como aquele elemento que diferencia e traz mais audiência. É mais do que uma questão de algoritmo, aquela decisão tomada por um repórter ou editor pode parecer como as outras tantas daquele dia, no entanto, como muitas matérias, o impacto pode ser devastador. Pensando que é sobre uma criança ou adolescente.

Parece que não, mas a imprensa ainda influencia, se você tem dúvidas leia os comentários dessas notícias. Não foi apenas essa que eu citei. Foram várias. Não vale procurar e nem ler os comentários. Ou o faça e veja o nível de preconceito exalado por cada frase ou palavra.

Termino este artigo com uma reflexão da presidente do GAAP, Cecília Reis, que fez uma carta aberta sobre assunto:

“Qual é a razão de destacar a via de parentalidade só quando o filho é adotivo? Alguma matéria cita quando o filho homicida é fruto de fertilização in vitro ou quando é filho biológico?” Segue o link do documento na íntegra: https://www.instagram.com/gaasp_adocao/

Vale lembrar que estamos na Semana Nacional da Adoção (25 de maio). A reflexão vem em dobro para nós.

Esse texto é uma homenagem ao meu filho (eu e seu pai te amamos muito)  e ao filho (a) de todas as mães e pais que têm filhos do coração. Vocês são muito amados e foram muito esperados.  #filhosdocoração