Não adiar Enem prova que Weintraub quer que ricos dominem as federais

Ministro da Educação quer deixar os mais pobres com ainda menos chances de mudar de vida e minar os sonhos da juventude brasileira

Apesar da pressão das entidades representativas dos estudantes e da sociedade civil pelo adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) por causa da pandemia do novo coronavírus, o ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro (sem partido), Abraham Weintraub, decidiu manter as datas da prova. Ele desconsidera que, se normalmente as desigualdades sociais no Brasil colocam os mais pobres em desvantagem na disputa por uma vaga numa universidade federal, com o atual momento, essa questão toma proporções ainda maiores.

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Crédito: Agência BrasilNão adiar Enem prova que Weintraub quer que ricos dominem as federais

Weintraub defende a manutenção do exame presencial nas datas previstas, 1º e 8 de novembro, e 22 e 29 de novembro para as provas digitais. O MEC lançou uma campanha publicitária nacional defendendo a manutenção do exame, na qual diz que “a vida não pode parar”.

Weintraub não apresentou medidas para assegurar a isonomia do processo, considerando as desigualdades na educação brasileira.

O problema é que como boa parte das instituições do país interromperam suas atividades no primeiro semestre letivo, para ajudar a conter o avanço do coronavírus, a realidade mostrou, agora, passados 2 meses, que apenas algumas escolas conseguiram aderir à modalidade do ensino à distância (EAD). Isso sem falar naquelas que, mesmo oferecendo o EAD, contam com estudantes que não têm condições de acessar o conteúdo.

“As desigualdades sociais refletem-se e aprofundam-se nas desigualdades educacionais e a realização de atividades escolares através de meios virtuais negligencia o fato de que grande parte dos jovens brasileiros não dispõe desta possibilidade e das condições necessárias para acesso e aprendizagem dos conteúdos exigidos nas avaliações definidoras para o prosseguimento dos estudos em nível superior”, diz o manifesto das entidades representativas dos estudantes que também é apoiado por diversas entidades da sociedade civil (veja a íntegra aqui).

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Os dados são gritantes. Mais de 2,3 milhões de estudantes que prestariam o Enem não têm computador em casa. Isso representa quase a metade dos inscritos, segundo pesquisa, realizada pela Casa Fluminense – organização que estuda a vida urbana nas periferias.

Sem computador, a alternativa é estudar pelo celular, mas o quão viável é um estudante passar meses assistindo a horas de aula pela telinha do celular? E mais, qual a condição em que isso acontece? A concentração é prejudicada com as diversas notificações, ligações e mensagens recebidas. Assistir a aulas pelo celular, não pode, nunca, ser considerado como forma substituta plena para aulas presenciais.

O problema vai ainda mais fundo quando falamos de internet. Se 2,3 milhões não tâm acesso ao computador, daqueles que vão prestar o Enem, olhando para o universo geral de estudantes percebemos uma situação mais grave. Um levantamento realizado pelo jornal O Globo aponta que 6,6 milhões de alunos não tem acesso à internet no país e a sua maioria está na rede pública.

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A desigualdade também fere questões trabalhistas que atingem diretamente os estudantes. A precariedade nas condições de trabalho de professores interfere diretamente na qualidade das vídeo-aulas e chamadas produzidas por eles.

Já vivendo em condições precárias nas escolas públicas brasileiras, sem preparo algum para entrar na modalidade de Ensino à Distância, é muita ilusão, ou oportunismo, crer que logo de cara boas aulas colocarão os alunos mais pobres em pé de igualdade com aqueles mais ricos que estudam nas melhores escolas particulares.

Falta equipamento, preparo técnico, familiaridade com a câmera e conhecimento sobre as melhores plataformas para se trabalhar em EAD. Desconsiderar isso é também uma forma de não se importar que os mais pobres terão ainda menos chances de mudar seu futuro profissional estudando nas melhores universidades do país: as federais.

Reitores de dez universidades públicas do Rio de Janeiro assinaram um documento pedindo o adiamento do Enem. Entre elas, a UFRJ, maior instituição de ensino superior federal do país. Elas afirmam: “qualquer tentativa de difundir uma sensação de normalidade falseada, como a manutenção do cronograma do Enem 2020, o qual, caso mantido, ampliará as desigualdades de acesso ao ensino superior”. A mais pura verdade.

Por último, mas não menos importante, não é possível deixar de lembrar o quanto realizar o Enem na data estipulada antes da pandemia é uma pressão política para aulas voltarem e, com isso, dar vazão à ideia de por fim ao isolamento social, única medida comprovadamente eficaz de combate ao coronavírus.

Não adiar o Enem é deixar os mais pobres com ainda menores chances de mudar sua vida, é minar os sonhos da juventude e, portanto, extremamente injusto.