O Jogo da Vida

Por: Redação

Ainda criança, Bruno perdeu o pai, que levou um tiro nas costas numa discussão num bar. José, um cara velho de guerra que gosta do que faz, e nunca precisou esconder isso de ninguém, já percorreu vários presídios e era considerado na vida bandida. Seu Aguiar, pai de Bruno, era um cara legal, um excelente pai, supercarinhoso com os filhos e a mulher, fazia uns adiantos, mas nunca atrasou o lado de ninguém.
Sábado, um jogão na televisão: último jogo do Campeonato Paulista – Corinthians e Palmeiras. Aguiar deixou a mulher em casa e foi assistir ao jogo no bar do Japa. Lá reencontrou vários colegas de cerveja, inclusive José. Conheciam-se havia mais de dez anos. O avô de Bruno e o pai de José trabalharam na mesma lavoura de café em Minas Gerais. Seu Aguiar casou-se com dona Jô e vieram para São Paulo. Anos depois, seu Aguiar encontrou José na sarjeta e o levou para casa, mesmo sabendo que o amigo era fugitivo da Justiça. José matou o dono da fazenda em que morava porque soube que o velho possuía rios de dinheiro escondidos em sua fazenda. Na hora de fugir, seu comparsa caiu dentro do poço com a mala de dinheiro e morreu. A polícia suspeitou que José era o co-responsável pelo assassinato do velho, pois encontrou no poço seu irmão agarrado com o saco de dinheiro. Foi intimado a depor, mas nunca compareceu na delegacia.
Aguiar deu um abraço forte no amigo e se sentaram lado a lado para ver o jogo mais esperado do fim de semana. Estava um falatório dentro do bar antes do jogo, todos ansiosos; porém, quando o pontapé inicial foi dado o silêncio foi total.
O jogo era longo. Os dois times rivais queriam o título. Aos vinte minutos do primeiro tempo, num cruzamento pela direita, Evair subiu mais alto que Henrique e acabou marcando um golaço de cabeça abrindo o placar. José de tão feliz não soube
nem pra onde comemorar. Correu pra um lado e pra outro, abraçava um, abraça outro e o resultado permaneceu assim durante todo o primeiro tempo: um a zero.
– Desce uma caixa de Brahma pra nóis aí, Japa – gritou
Aguiar, agoniado. O pai de Bruno, não muito contente com aquele resultado,
resolveu pagar cerveja para todos ali presentes, afinal ele era corintiano roxo. Após alguns minutos recomeçava a partida e, desta vez, só dava o time do Corinthians até que a zaga palmeirense falhou feio e o atacante Elivelton marcou para a alegria da torcida corintiana, que, naquele dia, lotou o bar do Japa, e para tristeza de José, que só faltava arrancar os cabelos, a cada erro que seu time dava ele xingava um palavrão. O jogo rolava e o time palmeirense jogava recuado.
Faltavam alguns minutos para o fim do jogo quando Elivelton fez uma bonita tabela com Marcelinho Carioca, que foi derrubado na meia-lua da grande área. As torcidas de ambas as partes se levantaram. Marcelinho, um exímio cobrador de falta, foi para a cobrança, ajeitou a bola com muito carinho e bateu firme com a perna direita. A bola passou por cima da barreira e entrou no ângulo esquerdo do goleiro Sérgio.
Aguiar deu um pulo de onde estava sentado derrubando duas garrafas de cerveja vazias, mal a bola começou a rolar e o juiz acabou jogo. José baixou a cabeça fazendo sinal de desaprovação.

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