‘Uma puxa a outra’, diz Eliane Dias, coordenadora do SOS Racismo

Por: Patrícia

Pelo menos três vezes durante a entrevista, Eliane Dias, advogada, CEO da Boggie Naipe, coordenadora do SOS Racismo em São Paulo, colunista na Cult Digital, palestrante e mentora do Plano de Menina, atendeu o telefone. “Você tem um minuto pra falar”, dizia no celular. Ela não para! Por trás da multiplicidade, uma pessoa tranquila e muito objetiva, sem papas na língua, contou ao Catraca Livre sua trajetória como mulher negra e mostrou que Eliane é muito mais que “a mulher dele”, como ela mesma diz.

Nascida no Jardim Ubirajara, zona sul de São Paulo, a paulistana começou a vida em um quartinho e, ainda que o momento do parto seja íntimo para qualquer mãe, no caso deste, nascer foi quase uma sobrevivência. É que a mãe de Eliane teve um parto normal sozinha.

Crédito: ReproduçãoEliane Dias atua há 8 anos na Assembleia Legislativa de São Paulo

Sua infância foi marcada por luta desde o primeiro dia de vida. Dos 11 aos 17 anos, ela não tinha uma casa fixa. A menina ia pulando de “tia em tia”, “dona em dona” para que a mãe trabalhasse. Houve até um período em que ela morou na rua. A mudança para o bairro do Capão Redondo foi na adolescência, período em que, principalmente para as mulheres negras da periferia, aparece a função de “dona de casa”. Mais velha de quatro filhos, como ela conta, é por isso “não consegue fazer uma coisa só”.

“Minha mãe, que é feminista e não sabe que é, denunciou meu padrasto, que bebia, [e destruiu a casa]  e desapareceu do mapa com os quatro filhos. Minha infância sempre foi fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo. Era plantar, cuidar dos bichos, cuidar dos meus irmãos, junto com a minha irmã, estudar e lavar roupa para uma senhora.”

De menina a mulher negra

Se para algumas se reconhecer como negra é tardio, aos 9 anos, uma situação com a sua irmã de pele mais clara fez com que a menina Eliane entendesse: as oportunidades não seriam as mesmas para quem tinha um tom de melanina escuro, negro.

O ativismo apareceu na sua vida através da resistência, nos espaços por onde ela passava.

Daí em diante, Eliane, estava calejada das pedras que aparecem e apareceriam no seu caminho. Suas conquistas eram a prova de que a resistência é a melhor alternativa para combater o racismo.

Política e música combinam

Engana-se quem acha que a mãe de Ayomi Domênica Dias, 18, e Kaire Jorge Dias, 21, chegou agora às pistas. Antes, ela dançava outra música, principalmente para que a criação dos pequenos, hoje bem crescidinhos, pudesse acontecer sem que a presença dela não ficasse de lado.

Eliane contou que os filhos gostam de áreas distintas; “Ela quer artes cênicas, ele gosta de marketing”

Primeiro, a carreira na advocacia proporcionou, não diferente de muitas mulheres, o combate ao machismo, que  esteve presente nos locais por onde ela passou, a exemplo de um escritório, o último da sua carreira. “Eu tinha um chefe muito machista! Ele dizia que mulher tinha que lavar roupa e fazer a comida do homem, porque a gente passava energia boa para o homem. Porque a gente faz isso com carinho, e o homem evolui”, relata.

Após algumas questões como estas, ela pediu demissão e resolveu atender seus próprios clientes. No início, não havia nem espaço para o atendimento dos futuros casos: “Eu ia encontrar meus clientes na OAB de Santo Amaro”.

Pouco tempo depois, a carreira pública voltou à tona —  já que ela tinha começado na advocacia como estagiária da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo —, desta vez na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Lá está há oito anos, hoje comandando o projeto SOS Racismo. De fato, seu início na política foi durante a campanha de Leci Brandão. “Eu queria entrar na Assembleia porque o horário era mais flexível para cuidar dos meus filhos”, conta.

Nesse meio tempo, os Racionais precisavam de uma produtora e quem sempre esteve ali na retaguarda assumiu o comando. Só que nem tudo foi tão simples, os “MC´s”, não enxergavam a parceira que tinham. “Foi preciso uma indicação de uma ‘sinhazinha’.” Eliane cita Paula Lavigne, que a apontou como uma possível responsável pela carreira do grupo.

Apesar de assumir a Boggie Naipe, hoje, o título de CEO carrega outros pesos que não são contabilizados por quem enxerga a situação de fora. Segundo ela, os números de shows, ou de lucro, não registram o preço de ser mulher de um cantor rap famoso, Mano Brown.

“Eu sou mulher de um cantor. Ser mulher de cantor é um preço alto. Existem vários movimentos que não me toleram, porque acham que minha vida é fácil. E não é.”

Mulheres negras como protagonistas

Política, diz ela, é uma de suas paixões. Por isso afirma que a falta de atuação das mulheres negras na área faz com que os resultados estejam distantes. Um passo complicado e longo, que ativistas tentam alcançar em busca da representatividade há muito tempo.

Sem se esquecer da música, que disputa espaço entre coadjuvante e protagonista na sua vida, a advogada entende que pode fazer sua parte quando o assunto é inserir mulheres em seus projetos.

“Existem meninas que vão levar essa militância e a resistência adiante, mas espero que elas não sejam uma Angela Davis, sabe. Passar a vida toda brigando e resistindo, chegar nesse estágio parecendo que está no início. Existirão mulheres negras que vão resistir e mulheres negras que vão retroceder.”

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