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Vítima de racismo no Mackenzie reage: ‘não irei abaixar a cabeça’

A aluna de Direito Alba Cristina afirma que passou pela maior humilhação de sua vida acadêmica

Por: Jonas Carvalho
Alba Cristina, aluna de Direito

“Macaca” foi a forma com que Jéssica, aluna do curso de Direito da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, resolveu se referir à sua colega de classe Alba Cristina, negra, de 25 anos, que sequer estava na sala no momento.

Enquanto alguns alunos riam do racismo disfarçado de “piadinha”, duas estudantes resolveram avisar a vítima da declaração racista do que havia acontecido em sua ausência, mesmo sem se manifestar na hora contra a autora da frase.

O caso aconteceu na última segunda-feira, 5. “Quando eu soube, fiquei triste”, disse Alba para o Catraca Livre. “Ninguém precisa ou merece passar pelo que eu passei, espero do fundo do coração que outras pessoas não passem pela mesma coisa que eu passei”.

A vítima afirmou que a primeira atitude que teve foi relatar ao marido o que aconteceu. Além disso, ela fez uma carta pública sobre o ocorrido.

Ela também fez um post em seu Facebook no qual desabafa sobre o caso:

“Desde que entrei nessa IES [Instituição de Ensino Superior], não consigo interação com a turma, pois já era fechada, sou alvo de piadas constantes, indiretas, isso por conta de um trabalho deste mesmo professor [que estava no momento da fala racista] no qual eu não coloquei o nome da mesma aluna citada.

(…)

Não foi a primeira vez que sofri um ato de racismo, infelizmente não será a última, mas toda ferida serve para nos manter de pé. Quem é NEGRO sabe a resistência e luta diária que temos para conseguir o nosso lugar almejado, e não é fácil.

Quando você dá os primeiros passos, se destaca, chega a lugares antes só ocupados por BRANCOS, você é visto com olhos tortos, te olham de cima a baixo, te questionam por que você almoça no quarto andar do tribunal onde o quilo da comida custa R$89,90, você é visto como parente de criminoso, você é visto como bode expiatório, menos como estudante, advogado. Dói!”.

Ao ser perguntada sobre por que ainda há atos como este na universidade, um ambiente que deveria ser mais consciente de problemas sociais como o racismo, Alba é firme na resposta: “Falta de conscientização”

Apesar de, segundo ela, o Mackenzie trabalhar o tema racial em diversos momentos, “esse lado consciente é formado quando somos mais novos, vem de casa. Precisamos educar as crianças para que se tornem adultos conscientes”.

A respeito da aluna racista, Alba diz que não pretende entrar com nenhum processo, pois o seu objetivo não é ganhar dinheiro com o episódio. “Somente quero que ela tenha consciência dos atos dela”.

Ela afirma também que está contando com assessoria jurídica e psicológica, já que ficou muito abalada, e que pediu o seu desligamento da instituição para ingressar em outra.

“Toda a dor que eu amargo dentro do peito, com as feridas que pessoas tentam TODOS os dias me causar, se transforma em mais luta e garra, isso fortalece, mas todos temos limites. Meu limite com a MACKENZIE RIO chegou ao fim”.

DENUNCIARAM o POST INICIAL : não irão me calar ! {/EDITLogo após uma tarde de reunião e depoimento, foi marcada uma…

Posted by Alba Cristina on Thursday, June 8, 2017

Leia a postagem completa da estudante:

Uma Carta aberta a MACKENZIE RIO contra o maior humilhação que eu passei na minha vida acadêmica :

Eu Alba Cristina, estudante de Direito desta universidade, abandono hoje dia 06/06/2017 meu semestre nesta IES.

No dia 05/06/2017, fui alvo de uma ação antiética, RACISTApois eu não estava em sala para minha defesa, por parte da Aluna Jessica, na aula de Metodologia da Ciência ministrado pelo professor Paulo César e alguns alunos que riram no momento em que a citada aluna me definia como MACACA para não falar meu nome.

Como fiquei sabendo ? Duas alunas a qual repudiaram a atitude mas não souberam reprimir a atitude pois ficaram perplexas com o absurdo vieram me falar.

Desde que entrei nessa IES não consigo interação com a turma pois já era fechada, sou alvo de piadas constantes, indiretas, isso por conta de um trabalho deste mesmo professor no qual eu não coloquei o nome da mesma aluna citada, onde a mesma não realizou o feito.

Não foi a primeira vez que sofri um ato de racismo, infelizmente não será a última, mas toda ferida serve para nos manter de pé. Quem é NEGRO sabe a resistência e luta diária que temos para conseguir o nosso lugar almejado, e não é fácil.

Quando você dá os primeiros passos se destaca, chega a lugares antes só ocupados por BRANCOS você é visto com os olhos tortos, te olham de cima abaixo, te questionam porquê você almoça no quarto andar do tribunal onde o quilo da comida custa R$89,90, você é visto como parente de criminoso, você é visto como bode expiatório, menos como estudante, advogado, doí !

Toda a dor que eu amargo dentro do peito, com as feridas que pessoas tentam TODOS os dias me causar, se transforma em mais luta e garra, isso fortalece, mas todos temos limites, meu limite com a MACKENZIE RIO chegou ao fim.

Eu Alba Cristina, sou mais uma em muitos que sofrem ataques raciais todos os dias, só que isso não irá parar a nossa garra, nossa luta, a minha em especial, eu estou acostumada com essa luta, sou uma guerreira desde 7 dias de nascida, estudei em escola pública, venho de uma criação de uma mãe Maravilhosa Alba Lúcia, que sempre luto pelo social e racial, não poderia ter vindo da melhor escola de formação do indivíduo como essa.

Não irei abaixar a cabeça para essas pessoas, não irem me trocar com essas pessoas, lá na frente, não falta muito eu acredito, seremos muitos no topo.

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Mackenzie

A Mackenzie Rio divulgou um texto no Facebook após a repercussão do caso, no qual diz que “repudia toda e qualquer forma de racismo e preconceito”, mas não diz nada sobre este caso específico e muito menos sobre investigações ou punições.

“Repudiamos pois, toda a forma de racismo e preconceito. Quando necessário a Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio instaura Sindicância para apurar a existência de qualquer delito”.

Alba postou uma avaliação na página da faculdade reclamando da forma como a situação foi comentada pela Mackenzie: “sofri um ato de racismo por parte de uma aluna dentro da instituição e a faculdade coloca uma nota totalmente superficial, nenhum posicionamento oficial”.

https://www.facebook.com/faculdademackenzierio/posts/1553326438073869

Não é a primeira vez que o racismo é manifestado na universidade. Mesmo assim, ao ser questionada pela reportagem, a Mackenzie não afirmou, até o fechamento deste texto, quantos alunos negros estudam na instituição, quantos professores e profissionais negros fazem parte do quadro de funcionários e nem quais medidas toma para combater o racismo.

Luta e resistência

Alba afirmou na mesma rede social que entrou em contato com a coordenação da faculdade e foi informada que uma sindicância foi aberta para apurar o fato.

Além do depoimento da vítima, a aluna Jéssica também teria sido ouvida. Outras testemunhas foram procuradas, segundo a instituição informou à Alba.

Ela tem recebido diversas mensagens de apoio e segue afirmando que continuará combatendo o racismo.

“Eu, Alba Cristina, sou mais uma em muitos que sofrem ataques raciais todos os dias, só que isso não irá parar a nossa garra, nossa luta”, escreveu ela no Facebook.

“Não irei abaixar a cabeça para essas pessoas”.

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