O melhor texto sobre o perigo dos filhos de Jair Bolsonaro

Por: Gilberto Dimenstein | Comunicar erro
 Maneco embaixo de um quadro com a imagem do pai

Diante da sequência de desgastes provocados pela família de Jair Bolsonaro, o Canal Meio preparou um ótimo texto sobre o perigo de envolvimento dos filhos na vida de um presidente no Brasil.
Um filho foi o principal responsável pela morte de um presidente no Brasil.
É uma pesquisa sobre como Manuel Antonio Vargas teve importante papel – talvez o mais importante – no suicídio de seu pai, Getúlio Vargas.

Foi assim que nasceu a expressão “mar de lama” – e muita gente não sabe de onde veio.

Carlos Lacerda tinha 40 anos de idade. Jornalista com passagem pelo Partido Comunista, mas que, depois de expulso, fizera uma lenta transição para a direita, estava em campanha para deputado federal.
Venceria por certo — era diretor da Tribuna da Imprensa, tinha programa na Rádio Globo, e falava com frequência na recém-nascida TV Tupi.
Tinha verve, Lacerda, capaz de discursos contundentes e inflamados, sempre tendo por alvo o presidente Getúlio Vargas.
E, porque ameaças de morte não lhe faltavam, um grupo de jovens oficiais da Aeronáutica vinham se revezando, voluntários de sua segurança. Naquela noite o turno daquele último comício coubera ao major Rubens Tolentino Vaz.

Carlos Lacerda, vítima de atentado

Vaz estacionou em frente ao prédio do jornalista, o número 180 da rua Tonelero, em Copacabana, e o viu saltar junto a seu filho Sérgio, um adolescente de 15.
Cansado, Lacerda buscou no bolso as chaves do portão, que não encontrou. Disse então a Sérgio que fosse à lateral chamar pela outra entrada o garagista.
Distraído, conversando com o major, Lacerda percebeu então dois homens parados o observando, um em cada esquina em frente.
Aí eles se deslocaram ao mesmo tempo, um já levando a mão para dentro do paletó. A essa altura, Sérgio acabara de entrar.
Lacerda, que andava armado, buscou o revólver, gritou para o filho que subisse. Aí vieram os tiros. Um, dois, três. Assustado, o futuro deputado atrapalhou-se com a arma e o filho, ao invés de subir, abraçou-se ao pai apavorado, tentando trazê-lo para dentro.
Lacerda atirou uma vez, daí uma segunda. Na confusão, quando os dois vultos já fugiam, percebeu que havia sido atingido no pé e que o major Rubens Vaz estava caído no chão, sangrando. Não chegaria vivo ao Hospital Miguel Couto.

O responsável pelo atentado foi Gregório Fortunato, havia anos chefe de segurança de Getúlio. Tudo indica que o fizera por iniciativa própria.

Getúlio com Gregório Fortunato

A crise política que já vinha dominando o governo, um bocado por conta do mau estado da economia, de repente virou tsunami.
E a tentativa de matar o mais vocal desafeto do presidente fez levantar a suspeita de que o próprio Getúlio estaria por trás do crime.
Mas quando uma investigação foi instaurada para mergulhar na vida de Gregório, em poucos dias se percebeu que ele vinha enriquecendo.
Era uma fortuna modesta, mas real.
Já tinha três lojas no Rio, capital federal, todas municiadas com produtos contrabandeados do exterior, e que entravam no Brasil sem alfândega pela influência do homem que protegia o presidente.

Descobriu-se também que Gregório havia comprado uma fazenda de Getúlio.
Uma fazenda tão cara que nenhuma mágica, mesmo com as três lojas e seu salário, poderia justifica-la.
E o recibo de venda, redigido a mão em papel timbrado da Presidência, trazia lá a assinatura Manoel Antônio Vargas.

“Isso não pode ser verdade”, disse Getúlio de acordo com Lira Neto, um de seus biógrafos (Amazon). “Isso não tem cabimento. Esse documento é falso.”

Maneco estava em lua de mel na França, o presidente seu pai mandou chama-lo.
Quando apareceu à porta, vários dias depois, Getúlio sequer o cumprimentou. “Você vendeu a fazenda?” mandou de bate-pronto.
O filho disse que sim. O presidente fechou a cara e nada mais falou, lembraria anos depois Tancredo Neves, que testemunhou a conversa.

Não só havia vendido como, por não ter dinheiro para pagar de pronto, Gregório ainda fizera um empréstimo de banco público.
Como não tinha como justificar renda, tomou por avalista João Goulart, o ministro do Trabalho, herdeiro político do presidente. Maneco, amigo de Jango, providenciara todo o esquema para poder botar a mão no dinheiro que precisava com urgência.

Eram dívidas de jogo, uma adicção que carregaria toda a vida.

“Descobri que há um mar de lama embaixo do Catete”, comentou um Getúlio mergulhando na depressão com um dos poucos amigos dos tempos de ainda antes do poder, Oswaldo Aranha.

Assim foi que a expressão ‘mar de lama’ entrou para o vernáculo político brasileiro para tratar de corrupção e tráfico de influência no governo.
Naquele caso, Getúlio Vargas entrou numa depressão da qual não sairia mais.

 

Mas não deixou de dar a Maneco uma última missão. Na noite de 22 de agosto, o filho bateu à porta do jornalista Samuel Wainer, editor da Última Hora. “O patrão quer que tu publiques na edição de amanhã a seguinte manchete. ‘Só sairei morto do Catete’.”
Segundo outro biógrafo de Vargas, Hélio Silva (Amazon), Wainer ouviu alarmado. Aquilo poderia arrefecer ainda mais os ânimos.
“A publicação desta frase poderá ser a senha para o início da reação popular que todos esperamos”, explicou-lhe Maneco.

No dia 23, com esta manchete saiu a Última Hora. Não veio qualquer reação popular. Se Maneco, com aquele escândalo, empurrara o pai de vez para a depressão, o pai fez dele o mensageiro que, sem saber, comunicaria ao mundo de seus planos.

Crédito: benedito [/caption

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Às 5h do dia 24, quando não havia clareado ainda, o tiro no peito do presidente da República foi ouvido nos corredores do Catete. Tinha 72 anos.

Manoel Antônio Vargas foi prefeito de Porto Alegre entre 1958 e 60, período curto, e depois se meteu em uma das fazendas da família onde lá ficou para o resto da vida. Velho, era a cara do pai.
Deixou uma carta dizendo se considerar um peso para a família quando cometeu suicídio, em 15 de janeiro de 1997. Tinha 80 anos.

Getúlio Vargas Neto, filho de Maneco, cometeu suicídio em 2017. Também sofria de depressão. Também era a cara do avô. Tinha 61 anos.

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Autor: Gilberto Dimenstein

Jornalista, educador e fundador da Catraca Livre.

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