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Jovem ganha bolsas de estudos e uma nova perspectiva de futuro

Laís Bispo com todo seu esforço e dedicação conquistou duas bolsas de estudo para cursar o colégio e faculdade em instituições particulares

Por: Luciana Reis | Comunicar erro

Fiquei muito feliz com o convite para essa palestra, mas confesso que, agora que estou aqui, estou um pouco nervosa, nossa eu não esperava tanta gente. É muito bom estar de volta. Bom, vamos lá.

Crédito: arquivo pessoalLaís Bispo conta no IGK sobre sua trajetória

Oi, pessoal!

Meu nome é Laís e me considero uma campeã da vida. Nasci em Cícero Dantas, uma pequena cidade no interior da Bahia. Todos nós sentimos saudades da nossa infância e comigo não seria diferente. Também sinto falta de alguns momentos dessa fase da minha vida. Quando penso na minha infância, lembro de tantas brincadeiras na rua e na roça, mas também cresci vendo minha mãe sofrer violência doméstica. Meu pai era um alcoólatra e presenciei muitas brigas, era um desespero. Ela teve que batalhar muito para não deixar faltar nada para minha irmã e para mim.

Minha mãe se separou do meu pai e depois de dois anos ela conheceu nosso padrasto. Os irmãos dele moravam em Florianópolis, então ela se mudou com ele. A gente ficou com a nossa tia por alguns meses. Nesse tempo eles arrecadaram dinheiro entre conhecidos, cada um deu um pouco, e assim viemos morar definitivo aqui.

Crédito: arquivo pessoalLaís e sua irmã saíram de Cícero Dantas, no interior da Bahia para morar em Florianópolis

De uma hora para outra foram muitas novidades: cidade nova, escola nova, casa nova, pessoas novas, costumes diferentes. Ouvimos muitas piadinhas por conta do sotaque, das palavras que eram diferentes. Como minha mãe trabalhava o dia inteiro a gente precisava participar de um projeto no contraturno da escola. Primeiro fomos pro CEC, onde tínhamos aula de capoeira, artes e outras atividades. Alguns meses depois minha mãe colocou nossos nomes na lista de espera do IGK e não demorou muito para conseguirmos vagas lá.

Ali fui bem recepcionada, com muito carinho, amor e atenção. Tive oportunidade de ter contato com diversos esportes, inclusive o tênis. Pude também realizar um curso de informática básica, fazer aula de teatro e aprender que na vida é preciso saber ganhar e perder. Toda quarta e sexta com toda certeza se tornaram os melhores dias da nossa semana. A cada dia aprendia algo novo e sem perceber os educadores iam plantando sementinhas, que conforme eu crescia, iam florescendo e fazendo que eu me tornasse uma pessoa melhor. O IGK é um projeto muito diferenciado.

No penúltimo ano de IGK, surgiu um curso. Eram aulas de Português, Matemática e História para alunos da oitava série da rede pública que pretendiam fazer algum curso técnico no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) durante o Ensino Médio, ou concorrer a uma bolsa de estudos no Colégio Catarinense, um dos melhores da Grande Florianópolis. Daí eu fui selecionada com meus outros colegas. Porém como as aulas eram na quarta, então eu ia no IGK só na sexta por conta dessas aulas. Eu passei bem pouco tempo lá nesse último ano, que eu não sabia que seria o último.

“Das 32 que eu respondi, acertei exatamente as 25 questões que eu precisava para passar na prova.

Meses depois que comecei esse curso eu fiz a prova do Colégio Catarinense. O que aconteceu foi surpreendente. De 50 questões eu precisava acertar no mínimo 25. Só que eu não tinha muito contato com cartão-resposta. Eu sabia que não podia deixar em branco, mas eu não consegui chutar as respostas. Então eu respondi apenas 32 questões. Até quando eu entreguei a prova o fiscal perguntou: “Você vai deixar em branco?”, acho que era pra dar uma segunda chance, mas eu falei: “Sim, vou deixar em branco” e deixei. Fui a última a sair da prova, e os guris e as gurias que estudaram comigo e fizeram a prova também, começaram a falar que eu não poderia ter deixado em branco, que eu deveria ter chutado, só que sei lá, eu simplesmente não consegui. Eles disseram que eu não ia conseguir. Só que acabou que daí, das 32 que eu respondi, acertei exatamente as 25 questões que eu precisava para passar na prova.

Quando saiu o resultado, nossa foi muita loucura. A minha mãe estava indo trabalhar e pegou o ônibus com a mãe de umas gêmeas que estudavam com a gente. Eu estava no ponto esperando o ônibus pro dia de curso aqui em Floripa. Aí a minha mãe começou a gritar do outro lado da rua e eu não escutava. Daí teve um momento que eu consegui ouvir ela falando: “Tu passou, tu passou”, aí eu perguntei o quê que eu tinha passado. Daí elas falaram que eu tinha passado no Colégio Catarinense. Naquele dia fui pro curso e cheguei lá toda feliz, mas só eu tinha passado. Nenhum dos meus amigos que tinham feito a prova comigo e preenchido todo gabarito, passaram. Foi muito estranho.

Daí eu fui sozinha pro Colégio Catarinense, lá eu ganhei uma bolsa de estudos. Às vezes a gente fica: “ah, mas não vai nenhuma amiga comigo, né? Mas daí eu fui. A gente tem que pensar no nosso futuro, no que a gente quer, sabe? Com o tempo fiz novos amigos.

Crédito: arquivo pessoalDepois de muito esforço e dedicação Laís conseguiu concluir os estudos num dos melhores colégios da cidade em que ela era bolsista

Eu sempre tirei notas altas na escola pública, mas quando eu cheguei lá no primeiro ano, era muito diferente, eu não tinha base nenhuma e me senti muito perdida. Daí a primeira prova foi de matemática, que era o que eu mais gostava, só que foi inacreditável: eu tirei um. Eu sabia que não podia perder a bolsa e fiquei desesperada. Foram muitas notas baixas, no primeiro semestre. Tive de correr atrás de tudo e fui para as aulas de reforço. Nossa, o primeiro ano foi muito difícil.

É nítida a diferença entre o ensino público e o ensino privado. Eu não tinha nenhuma base, tive que aprender sozinha e tudo novamente. Não sabia nada do que era necessário da matemática básica, não sabia escrever direito uma redação. Na matéria de inglês fazia as provas só para não ganhar falta, já que não entendia e não sabia traduzir absolutamente nada. Passei por muita dificuldade e tive que superar muitos obstáculos em relação ao meu ensino. Sem dúvidas, estudar no Colégio Catarinense foi umas das melhores experiências e oportunidade que eu poderia ter.

Minha mãe trabalhava de domingo a domingo como faxineira para conseguir me dar suporte com o dinheiro. Nos finais de semana eu ia ajudá-la nas faxinas, pois precisava retribuir de alguma forma.

Com muito esforço cheguei e conclui o terceiro ano. Eu precisava fazer a prova do Enem, e passar em alguma faculdade. Eu tinha a pressão de ter de escolher um curso, pensei em Direito, Fisioterapia, Jornalismo. A única certeza que eu tinha era que eu não queria Medicina. Essa pressão me deixou estressada e ansiosa. Eu amava esporte, daí prestei o vestibular pra Fisioterapia e Jornalismo, pensei em seguir uma das duas carreiras pro lado esportivo. Só que eu eu não passei em nenhuma. No final do ano, não consegui aprovação nos vestibulares da UFSC, UDESC e nem na primeira chamada do ProUni. Quando saiu a segunda chamada, eu passei em Educação Física que era minha segunda opção. Com isso ganhei bolsa integral para o curso na Unisul, que é uma universidade particular.

O curso foi me conquistando aos poucos, com o tempo descobri que era realmente o que eu queria. Com as  matérias práticas e teóricas fui tendo uma visão ampla do mundo, de futuro e de tudo que eu posso ser. Eu ganhei uma bolsa de pesquisa de reabilitação cardíaca num hospital aqui de Florianópolis e hoje penso em fazer mais uma faculdade de Fisioterapia ou Enfermagem e trabalhar nessa área de reabilitação.

Hoje, eu vejo que já transformei todo o trajeto do meu futuro. Meus objetivos crescem a cada dia, minha mochila do conhecimento se torna cada vez mais cheia e o desejo de realizar dois grandes sonhos me fazem continuar persistindo: o sonho de ter a casa própria e o sonho de poder ver a minha mãe não precisar trabalhar de domingo a domingo. Nesses dez anos que moramos aqui em Florianópolis, vejo minha família batalhar para pagar aluguel, comprar alimentos, bancar as despesas e não deixar que nada falte dentro da nossa casa. Tudo o que tivemos até hoje foi obtido com muito esforço, por isso é motivo de felicidade e orgulho, acreditamos sempre que tudo só tende a melhorar.

Eu analiso como algumas amigas estão hoje e vejo que tenho um futuro muito promissor pela frente. Nossa, por isso que eu tenho muita gratidão pelo IGK, que transformou realmente a minha vida para melhor, muito melhor. Porque seu eu não tivesse entrado aqui e não tivesse todo esse acompanhamento dos professores, eu acho que eu não estaria onde eu estou, acho não, eu tenho certeza. Para finalizar digo a vocês: tenham objetivos, aproveitem as oportunidades, corram atrás do que vocês querem e não desistam dos seus sonhos mesmo diante de todas as dificuldades. Obrigada pela atenção e aproveitem o evento.

Crédito: arquivo pessoalLaís contou sua trajetória de esforço e dedicação em que ela foi recompensada com duas bolsas de estudo e um futuro promissor pela frente

Com apenas 19 anos, Laís já inspira outros jovens com seu exemplo de vida, esforço e dedicação. Depois dessa palestra no evento Corrida dos Campeões, do Instituto Guga Kuerten, surgiu mais uma oportunidade. Ela que trabalhava durante a semana como recepcionista numa academia, e aos finais de semana lavando louça num restaurante. Quer dizer, fugindo totalmente de sua área de atuação, mas ganhando um dinheiro importante para ajudar nas despesas de casa, foi convidada pela equipe do IGK para estagiar. Sobre essa oportunidade ela conta: “nossa foi muito emocionante”. Para a jovem é motivo de muito orgulho fazer parte da equipe e atuar no Instituto onde ela foi recebida com tanto carinho e participava como educanda.

Desde 2000 o Instituto Guga Kuerten, organização sem fins lucrativos, transforma a vida de crianças brasileiras, como a Laís. Isto através de projetos sócio-educativos que utilizam o esporte como ferramenta para o desenvolvimento de crianças e adolescentes com deficiência ou em situação de vulnerabilidade social.

Com sede em Florianópolis (SC), o instituto é uma iniciativa da família do Guga. Todo sucesso e influência do grande tenista brasileiro só contribui para mobilizar esforços e criar parcerias para ajudar um número cada vez maior de crianças, de forma totalmente filantrópica. Assista ao vídeo e saiba mais sobre o Instituto Guga Kuerten:

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O professor que ensina tênis de graça para crianças da periferia

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Autor: Luciana Reis

Devoradora de livros, formada em Letras pela USP, viajante, curiosa, curadora de histórias inspiradoras e editora do Economize. Para viver bem, não é preciso gastar tanto.