O filme "Salve Geral" tem pré-estreia nesta quinta-feira, 1, às 20h, no  Cine Bombril. Após a sessão, o diretor e os atores Lee Thalor e Denise Weinberg participam de debate com Gilberto Dimenstein, colunista da Folha.

As senhas serão distribuídas no cinema a partir das 19h. O evento é promovido pelo jornal Folha de S.Paulo.

Leia sobre o filme e um pouco mais sobre o ator principal, Lee Thalor:

A trajetória de um menino que já nasceu ator

por Beatriz Monteiro

Dia 18 de setembro deste ano, o Ministério da Cultura anunciou o longa-metragem “Salve Geral” para concorrer a indicação de melhor filme estrangeiro representando o Brasil no Oscar 2010.

Dirigido por Sergio Rezende, “Salve Geral, o Dia Em Que São Paulo Parou” conta a história de uma professora de piano, interpretada por Andréa Beltrão, que para salvar a vida do filho Rafael, interpretado por Lee Thalor, se envolve nos ataques realizados por uma facção criminosa. O filme busca retratar o momento que em que o Primeiro Comando da Capital (PCC) saiu as ruas de São Paulo, no Dia das Mães, em 2006.

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Créditos: Andrea

No filme, Rafael (Lee Thalor) ao lado de sua mãe (Andréa Beltrão)

Às vésperas da pré-estreia do filme, o ator Lee Thalor conta sua trajetória nos palcos paulistanos marcada por protagonistas de peso sob a direção de Antunes Filho e fala sobre sua estreia no cinema com este filme.

Aos 25 anos, Lee Thalor, não é nome artístico. Sua mãe resolveu batizá-lo em homenagem aos atores: Lee Majors, da série  “O Homem de Seis Milhões de Dólares” e George Taylor, personagem de Charlton Heston vivido no filme “O Planeta dos Macacos”.  Nascido em Goiânia, Lee foi um típico adolescente de uma cidade fora dos padrões de uma metrópole. Sua vida se resumia a ir a escola e sair com os amigos para rua.

Não precisava estudar muito. Destacava-se entre os alunos da classe. Na sétima série foi convidado para fazer parte da peça da escola chamada “O príncipe e o Sapo”, em que fazia o sapo. Animava-se com os ensaios. Buscava o que fizesse para melhorar sua interpretação e isso foi um dos starts para descobrir sua vocação. “Senti um vazio depois que a peça acabou”. Lee não era um aluno calmo. Como mesmo define, era do tipo que incitava a bagunça, organizava o caos e não conseguia voltar para casa sem algum tipo de advertência.

Decidiu, então, procurar um teatro-escola. Mas, a experiência não foi muito boa e, por isso, resolveu virar as costas para o teatro. Porém, não por muito tempo. Logo foi chamado para fazer parte de uma outra companhia de peças infantis, integrou-se ao espetáculo e viajou junto com o elenco para apresentações em diferentes cidades.

Com menos de 18 anos recebeu uma pressão da escola por suas faltas que se tornavam cada vez mais freqüentes. Pensou em parar de estudar para seguir o caminho do espetáculo. Mas, algo o fez pensar melhor sobre o assunto e decidiu deixar de lado, por um tempo, o teatro.

Ainda na escola seu olhar foi sendo doutrinado para mundo do espetáculo. Seu projeto escolar foi criar e dirigir uma peça de teatro, dentro da disciplina de literatura. A peça foi apresentada como trabalho de conclusão de curso. A vontade de Lee em se tornar ator era vista por seus pais mais como uma teimosia. Nunca deram o apoio necessário, pois queriam uma profissão compatível ao seu rendimento escolar.

Lee tomou disso seu parâmetro e resolveu encarar a profissão com seriedade e tentar os mais qualificados lugares para se aperfeiçoar.  Estava determinado a buscar o melhor.

Em 2002, prestou vestibular para Artes Cênicas, na Universidade de São Paulo (USP). Mudou-se para São Paulo, onde morou e trabalhou no próprio campus da universidade. Foi quando decidiu absorver todos os canais de cultura oferecidos pela metrópole. Assistiu a peças, filmes, freqüentou tantos lugares quanto possível para formar seu repertório. Foi nesse momento que o ator foi apresentado a dramaturgia do diretor Antunes Filho.

Decidido a fazer parte do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) se alistou junto aos 800 atores e atrizes para seleção, em que apenas vinte sairiam dali selecionados. Não passou. Ainda não era o momento certo para estar ali.

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Paciente, Lee, dedicou o ano de 2003 para o amadurecimento profissional. No fim de 2004 foi selecionado para o curso de quatro meses. O resultado foi a montagem de cenas, em que o próprio Antunes assistiria. A primeira não agradou o diretor. Na terceira, gostou. Durante a entrega de currículos foi chamado de lado pelo diretor que pediu para que lesse “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna e escolhesse de lá, uma cena. Essa viria a ser encenada três ou quatro vezes somente para os olhos de Antunes.

Com isso, foi integrado ao coro da peça “A Pedra do Reino”. Durante um ano de ensaio mais de dez atores passaram pelo papel do protagonista. Antunes não aprovava. O diretor, então, pedia aos atores do coro para que se alternassem fazendo papel do protagonista, o Quaderma. Numa das cenas, a em que o protagonista tem um ataque epilético, Antunes pediu a Lee que a fizesse. O diretor assistiu. Pediu para repetir. E, então, escolheu o ator para o papel de protagonista durante os ensaios.

Mesmo assim, Lee não se sentia realizado. “Não queria fazer comédia de jeito nenhum”, lembra. Ávido por um personagem trágico e com vontade de encenar num teatro dramático, não via como sua carreira profissional poderia começar no papel de um pícaro como Quaderma.

Quatro meses de intenso ensaio, depois de ler três vezes a obra de Ariano Suassuna, e decorar trinta e sete páginas de uma literatura, como Lee próprio define, de um Shakespeare nordestino, assistindo a filmes- o ator se utiliza muito de referências cinematográficas- de personagens como O Gordo e o Magro, e Cantinflas, vivido por Carlos Moreno é que nasceu o personagem Quaderma.

A peça oficialmente não tinha data para estrear. Durante os ensaios e recortes de cena, Lee quase fora mandado embora por Antunes. O método visceral traçado pelo diretor para a construção dos personagens é familiar aos atores que o rodeiam e Lee reconhece que essa exigência é natural para que o trabalho atinja um grau de qualidade para o espectador. Após estreia da peça, logo foi chamado para mais um papel sob direção de Antunes.

Integrou o elenco de “A Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues. O desafio era ainda maior do que a adaptação de Ariano Suassuna: a de interpretar o protagonista da peça, Misael, um senhor de mais de quarenta anos, casado e pai de dois filhos. O ator não queria fazer o personagem, pois não acreditava que daria ao espectador a credibilidade necessária. Antunes pediu que Lee experimentasse o protagonista.

Esse foi o convite para que o ator mergulhasse de cabeça na personagem. Raspou o cabelo. Deixou a barba crescer e acrescentou ao porte físico uma barriga postiça. “Encontrei o meu Misael”.

Agora, em 2009, com duas peças em cartaz, o ator aparece nas telas do cinema vivendo o personagem Rafael. Lee interpreta um jovem da classe média paulistana que se envolve em um homicídio indo parar na cadeia.  Para o papel, o ator precisou ajustar sua agenda com as peças em cartaz. Passou noites sem dormir, visitou penitenciárias, fez entrevistas com os agentes das instituições, procurou assistir a filmes que retratassem o universo jovem e leu a biografia de Ayrton Senna, por quem seu personagem é fanático.

Para ele, o teatro se difere apenas do cinema na sua a equalização. “O teatro oferece uma proporção diferente do cinema, os movimentos são maiores. Nele, o ator precisa buscar a platéia e interagir com ela. No cinema, quem faz isso é a câmera”.

Atualmente, Lee também dá aulas no CPT. Além disso, ensaia “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto em que interpretará Policarpo. Aceitou mais um convite para os cinemas e começa a filmar no fim deste ano. Apesar de buscar muitas referências cinematográficas, o ator não imagina abandonar os palcos pelo cinema. “Não dá para o ator trabalhar sem público e sem teatro”.

Confira o trailer do filme “Salve Geral”

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