Quatro escritores vão sair de trás das páginas de seus textos para representá-los no palco, diante do público do Itaú Cultural. Nos dias 11 e 12 de abril, o poeta Sérgio Vaz, criador do movimento de poesia da periferia Cooperifa, e os ficcionistas Ferréz, André Sant’Anna e João Silvério Trevisan protagonizam A(u)tores em Cena: dois espetáculos com até 40 minutos cada, nos quais os autores, dirigidos por diretores profissionais, experimentam o gostinho de interpretar em carne e osso o que colocaram no papel. O público passa de leitor a espectador da obra de alguns dos principais nomes da nova geração de escritores e diretores de teatro brasileiros.

Como na edição anterior, as apresentações de A(u)tores em Cena não se limitam à leitura das obras no palco por seus criadores. Trata-se de verdadeiras apresentações teatrais em que eles se lançam na interpretação dos próprios personagens e contam com outros profissionais das artes, como sonoplastas, iluminadores, músicos, fotógrafos. O evento foi idealizado por Marcelino Freire e faz parte de uma trilha de trabalhos desenvolvidos pelo Itaú Cultural para dar som na caixa da literatura brasileira, nas palavras de Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Diálogos do instituto. Este caminho é marcado pelo programa Rumos Literatura/Audioficções e pelos saraus Poesia Viva, Outros Bárbaros, e A Plenos Pulmões.

Ferréz despontou no fechado meio intelectual não-periférico em 2000, com a publicação de Capão Pecado, romance que testemunha e dá voz ao cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Também da periferia paulistana, Sérgio Vaz é um poeta que faz circular cultura em seu próprio bairro, Piraporinha. Coordenador do movimento literário Cooperifa, promove saraus de poesia todas as noites de quarta-feira no bar do Zé Batidão (Rua Bartolomeu do Santos, 797) e, mais recentemente, o Cinema na Laje, no mesmo local.

As apresentações

No sábado, 11 de abril, os dois sobem ao palco do Itaú Cultural, em uma das vias mais nobres da cidade, a Paulista, como autores e atores do espetáculo Pedras Não Falam Mas Quebram Vidraças – frase retirada de um poema de Vaz. A direção é de Mario Pazini, cujas três décadas de carreira teatral são focadas igualmente na periferia da cidade. Ele é, ainda, um dos criadores do Grupo Clariô de Teatro – um premiado grupo de artistas composto por oito mulheres e quatro homens de Taboão da Serra, igualmente da zona sul da cidade, criado para refletir sobre a arte na periferia, e que fará uma participação especial na peça. Recentemente, com o espetáculo Hospital da Gente, dirigido por Pazini, o Clariô ganhou três troféus no I Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro, sendo o grupo mais premiado da noite.

O escritor mineiro radicado em São Paulo André Sant’Anna e o prosador, ensaísta, dramaturgo, tradutor e jornalista nascido em Ribeirão Bonito (SP) João Silvério Trevisan auto-representam seus textos no espetáculo Amor & Exílio, no domingo. Eles são dirigidos pelo pernambucano Antonio Cadengue, que desde a segunda metade dos anos 1970, destaca-se por sua oposição criativa a um teatro nordestino ligado ao mundo rural e às tradições da cultura popular. Sem contar que é a primeira vez que Cadengue dirige Trevisan — de quem já levou vários textos ao palco, a exemplo da peça Em Nome do Desejo.

Com a sua Companhia Teatro de Seraphim, desde os anos 90, Cadengue orienta o seu trabalho para temas voltados aos grupos minoritários sobretudo os discriminados por questões de raça, religião, doença mental e orientação sexual. No Itaú Cultural, Amor & Exílio tem, ainda, uma participação especial de Vanessa Bumagny, cantora paulistana, descendente de russos, que lançou em 2004 De Papel, o seu primeiro CD, além da participação do guitarrista Zeca Loureiro, que recentemente participou do CD Fora de Órbita, de Maria Rita.

A(u)tores em Cena