Alguns anos atrás, um amigo meu acompanhava um colega de classe quando este último encontrou a tia, que prontamente se apresentou:
-Prazer, sou lésbica

Meu amigo ficou mudo, não sabia o que fazer e respondeu de volta:
- Sou hétero e respeito muito!

A tia fez uma cara estranha, incomodada e saiu. No dia seguinte o colega de classe dele comentou:
- Minha tia Lézia que você conheceu ontem te achou esquistão!

Como um filme sendo rebobinado, as imagens foram se formando na cabeça do meu amigo que foi relembrando o momento em que conheceu a tia, e então tudo fez sentido. LÉ-ZIA.  A tia do rapaz chamava-se Lézia, e o meu amigo havia confundido as palavras.

Esta anedota, contada várias e várias vezes em meu grupo de amigos da faculdade, abre meu texto, pois dona Lézia serve ainda hoje de inspiração para mim. Sempre que tenho oportunidade, eu me apresento como ela.

Na entrevista de emprego, no restaurante com o garçom, para o porteiro do prédio em que moro, com um professor na sala de aula, aos meus colegas de trabalho:
-Prazer, sou lésbica!

Entendo que muitos veem nisso certo exibicionismo e não foram poucas as vezes em que ouvi que me expunha demais, que não havia necessidade de, ao ser perguntada sobre um namorado, responder com um "não há namorado, sou lésbica”, ou se me falam "sua amiga passou por aqui" eu rebater "não era amiga, era minha esposa, sou lésbica", mas esta reafirmação constante da minha posição como lésbica é um ato político.

E muita atenção, ato político neste caso não tem nada a ver com a política do voto, dos deputados, senadores etc. Como diz Chantal Mouffe, "política é conflito", e é isso que faço gritando por aí que sou lésbica: ponho as pessoas em conflito. O que elas esperam de mim difere do que verdadeiramente sou. Fazê-las encarar essa realidade as faz refletir e, principalmente, as faz notar que lésbicas existem. Pelo menos é o que eu espero.

Visibilidade Lésbica

Créditos:

Fernanda Beirão/Catraca Livre

Obviamente eu não sou a única sapatão (ei, só sapatão pode dizer sapatão, viu?) que pensa assim, tanto é que existe o Dia da Visibilidade Lésbica, comemorado em 29 de agosto. Esse dia se faz necessário porque não somos enxergadas como um grupo social e vocês conhecem aquela máxima, né? "Quem não é visto não é lembrado."

Ser invisível é não existir, e o que não existe, não tem direitos. O que não existe não precisa de local para frequentar, não precisa de aplicativo de paquera, não precisa de cuidados com a saúde, não precisa de pesquisas científicas para entender questões sociais, não precisa de filme ou seriado.

Lésbicas não existem para o governo nem para a indústria farmacêutica e de cosméticos nem para as universidades e centros de pesquisa, tampouco para a publicidade ou para os meios de comunicação. Parece que somente a indústria pornô enxerga a existência das lésbicas, mas não as reais, que se relacionam com mulheres por se atraírem por mulheres, a lésbica do pornô é uma moça cuja sexualidade no fundo está a serviço dos homens, uma moça que transa com mulheres só como um caminho para facilitar a conquista do todo-maravilhoso pênis (????). 

Isso não é loucura da minha cabeça. Parafraseando Saramago eu peço: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara". Você pode não consumir nem frequentar, mas sabe que há revistas para homens gays, há diversas boates que são voltadas aos homens gays, e as divas pops, elas todas fazem músicas para esse fabuloso público cheio da grana que são os homens homossexuais. E claro, também há tudo isso para homens e mulheres héteros. Mas, fora show da Ana Carolina e da Maria Gadú (que na verdade têm sua publicidade voltada ao público em geral) tem muito pouca coisa entendida como "para lésbicas".

E não é só no consumo que somos ignoradas, as campanhas do governo são todas para mulheres e homens héteros ou homens gays. A prevenção de DSTs é tema de campanhas constantes, mas a principal ação é a distribuição de camisinhas. Não haveria nenhum problema, se não fosse o fato de que nem todo ato sexual envolve penetração. E mais, nem sempre há um homem presente no ato.

E não adianta vir com o papo de que o sexo entre mulheres é mais seguro e por isso não se faz necessário, a verdade é que a gente não sabe quase nada dos riscos de contaminação. Isso porque a comunidade médica não reconhece a nossa existência, não pesquisa sobre os riscos que envolvem o sexo entre mulheres. Não pesquisa sobre nossa sexualidade nem sobre a nossa forma de viver e os possíveis riscos aos quais esse grupo social está sujeito.

Será que lésbicas fumam mais e precisam de atenção para a questão do tabagismo? Qual será o peso médio de uma lésbica? Talvez elas tenham problemas cardíacos ou estejam por sei lá qual hábito alimentar típico do grupo sujeitas à falta de certa vitamina. Será que são ricas e consumistas ou não têm grana e são econômicas? Nunca saberemos, não enquanto formos invisíveis e ninguém der a mínima para quem somos, como agimos e quais são nossas necessidades.

Se não nos afirmamos e nos mostramos socialmente enquanto lésbicas, nossas demandas e experiências nunca serão importantes e dignas de atenção.

Precisamos nos fazer visíveis, por isso, amiga sapatão, repita sempre que puder:
-Prazer, sou lésbica.

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Carioca/brasiliense/paulistana. É dada a excessos. Come demais, fala demais, (recl)ama demais. Esposa da Catarina e mãe do Zulu, da Leocádia e do Francisco. <3

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