Em sua elegante casa em um condomínio de Interlagos, a empresária Ana Lúcia Sousa, 52, recebe a equipe do Catraca Livre. Sorridente e alegre, a mãe da Amanda, 30, da Jéssica, 26, e do Miguel, 21, prefere que a chamem de Lulu. “Ana Lúcia é muito sério, né?”, explica às gargalhadas.  

Foi com essa alegria de viver que Lulu criou os três filhos. A mais velha é heterossexual e tem dois filhos; a do meio é lésbica; e o caçula é transexual e está há apenas 4 meses em processo de hormonização.

Nessa casa cheia de diversidade, Lulu ensina sobre a importância do apoio da família para uma pessoa trans e dá o exemplo como ativista do grupo Mães pela Diversidade . “Estou aqui para o que der e vier”, disse à nossa reportagem da série Mães que TRANSformam

Assista abaixo e, na sequência, confira a entrevista completa de Ana Lúcia Soares, a Lulu, e seu filho Miguel, ou Dash, como gosta de ser carinhosamente chamado:


Catraca Livre: Como foi sua reação ao descobrir sobre a transexualidade do Miguel?

Lulu - Minha filha Jéssica fez um TCC que falava sobre o universo LGBT, e como sou dessas mães que se envolve em tudo e eu vi, ouvi e li junto com ela sobre o assunto. Estava ambientada. Daí o Dash meu revelou a transexualidade aos 16 anos, eu não me assustei, mas questionei por causa do jeito dele. Ele nunca demonstrou a transexualidade em roupas, brinquedos, jeito, nada. Tanto que eu dizia que a minha “filha” era super tranquila, não dava trabalho.

Só que eu não percebia que isso já era um problema. Uma criança que não faz amiguinhos, está sempre sozinha, não é normal. Ele não sabia como falar sobre o que passava com ele. Até porque a própria criança não entende, não sabe, apenas sente algo diferente que não sabe discernir e se isola. Quando ele disse pra mim que era um menino eu fui atrás do João Nery (um ativista trans que já escreveu um livro) e ele me colocou no grupo Mães pela Diversidade, onde eu milito.

Créditos: Gabriel Nogueira/ Catraca Livre

Lulu, a mãe da diversidade

Como mãe mudou de alguma forma sua relação com ele? Mudou algo de quando você tinha uma filha para hoje, como mãe do Miguel, um garoto trans?

Eu botei no mundo uma pessoa. Ele é a mesma pessoa que eu dei amor, criei, levou uns tapas, tudo normal. Eu não sei outra forma de ser mãe. Para mim ser mãe é amar incondicionalmente. Em que (a transexualidade) muda isso? Nada. Só quero que ele seja muito feliz e realizado, isso que é importante pra mim.

Mas, olha, ter um filho trans é muito mais preocupante. De repente ele tromba aí com um transfóbico mais louco que possa partir para a agressão. Isso me assusta, pois eu sei como ele é tratado aqui pela gente. Essa é a zona de conforto do Miguel. Se aqui está tudo bem, com certeza ele fica fortalecido para enfrentar lá fora. Mas pinta um medo de futuro. Como será com emprego, com preconceito da sociedade?

No mais, ser mãe de um rapaz transexual até aumentou o meu amor. Eu me sinto especial pois tenho filhos héteros, lésbicas e trans.

Como foi conversar com o seu marido sobre a transexualidade do Miguel?

Sou casada há 32 anos e apaixonada pelo meu marido. Ele foi criado em uma família muito convencional. Não foi muito fácil para ele lidar com tudo isso. Mas ele está aprendendo. Tem gente que expulsa os filhos de casa, isso nem de longe passou pela cabeça dele. Ele sempre fala que respeita muito, mas está aprendendo a aceitar. Eu entendo o que ele quer dizer, seria mais fácil sermos pais de héteros, haveriam preocupações mas não como a que temos com nossos filhos LGBTs, pois não tem quem nos proteja, não tem lei para isso (contra a homofobia).

Você atualmente milita pela causa LGBT, certo?

Sim, milito. Faço parte do coletivo ‘Mães pela Diversidade’. O nosso papel é para que os pais e as mães saiam do armário. É muito sério. Tem um colega do grupo que disse certa vez que o pai e a mãe que não saem do armário assinam o atestado de óbito do filho. Tem pais e mães que conheço que já perderam filhos e filhas por conta da homofobia, da transfobia. Eu não quero isso. Tenho dois filhos LGBTs e não quero perdê-los, não quero que virem estatística. Se eu perder eles perco minha vida.  

O Miguel já sofreu com depressão e chegou a tentar suicídio. Como foi lidar com isso?

Foi pesado isso. Quando você coloca um filho no mundo imagina tudo de melhor para essa pessoa. É um pedaço seu que está ali. Você sente a dor dele, quando dói em um filho é como se doesse em você. E você ver um filho triste a ponto de pensar em tirar a própria vida é uma dor que não dá nem para descrever. Eu nem consigo por em palavras como é o sentimento, pois não quero que pareça muito simples. Não é simples.

Lá atrás ele sofreu com depressão pois não sabia lidar com se olhar no espelho e não se identificar, não sabia como contar pra nós. Queria que ele entendesse que pra mim o amor fala mais alto. Eu digo ‘haja o que houver vamos encarar juntos’. Você é trans? Qual o problema? Você tem uma família aqui que te apoia.

Foi a partir desse momento que você passou a dar mais apoio?

Esse momento me abalou e veio uma puta culpa. Pois assim, eu tenho uma filha lésbica e desde pequena eu pensava que ela tinha um jeitinho. Quando ela veio me contar eu já sabia. Eu lembro que eu um dia vi que ela estava triste e pus um bilhetinho embaixo da porta ‘se está doendo muito vem cá que a mãe assopra’ e ela então se abriu pra mim.

A culpa que eu sinto é que eu não fiz isso com o Dash, o Miguel. Eu tratava ele como uma bonequinha, uma barbie, até mesmo na questão de não demonstrar sentimento. Eu dizia que adorava o jeito quieto dele. Mas era para eu ter me tocado.

Eu tenho muita culpa, pois eu sempre trabalhei muito loucamente para chegar até aqui, para oferecer para eles o melhor, tudo que eu não tive. Mas às vezes não é isso que precisa, né? Não é fazer 18 anos e você dar um carro para seu filho. Sua presença vale mais que uma Ferrari.

Hoje eu tento correr atrás do tempo perdido, talvez se eu tivesse percebido isso lá atrás eu teria evitado um monte de coisa, ele não teria carregado um peso tão grande como ele carregou, e sozinho.

Créditos: Gabriel Nogueira/Catraca Livre

Ana Lúcia e o filho Miguel: companheirismo e amor

  • Leia abaixo a entrevista com Miguel Augusto Sousa:

Catraca Livre: Na infância você não era masculino. Isso de alguma forma te deixou confuso sobre a transexualidade?

Miguel - Eu nunca fui uma pessoa muito masculina, não da forma como indicam que o masculino deve ser. Quando eu era pequeno eu gostava de brincar de carrinho, mas também adorava brincar de boneca. E em função disso eu me perguntei  por muito tempo, será que sou um homem trans mesmo?

Mas um dia eu me dei conta que o jeito que você sente não tem nada a ver com o jeito como você se apresenta. Eu não sou menos homem por gostar de maquiagem e moda. Tem vários homens CIS por aí que adoram essas coisas. Eu não sou menos homem por gostar de coisa femininas, é parte de quem eu sou, dos meus gostos. Depois que eu entendi isso a neura de ‘mas quando eu era criança eu gostava de brincar de boneca’ passou.

E quando veio a certeza de você era um homem?

Eu faço cosplay, e aos 15 anos eu fiz pela primeira vez um cosplay masculino. Eu me senti mais confortável naquele cosplay que comigo mesmo em toda minha vida. Eu fiquei me perguntando o porquê daquilo  Porque me sentia melhor  com aquela roupa de homem do que na minha vida. Então fui pesquisar e me dei conta. Daí passei a usar o nome Dashiel, de onde vem o apelido Dash. Era um nome que valia para os dois gêneros. Hoje eu sou Miguel. Miguel Augusto.

Você passou por um momento difícil, teve depressão, tentou o suicídio. Foi nessa época?

Sim. Eu não conseguia ver o meu futuro. Na minha cabeça eu achava que minha vida não faria diferença. Era como eu sentia na época.

Como foi contar para sua mãe que você era transexual?

Eu sempre contei tudo para minha mãe, sempre tive uma relação muito boa com ela. Para tudo que eu precisasse ela estava lá. Até hoje é assim. Quando eu contei, ela achou que não era bem isso. Pensou que eu estava confuso. Depois ela realmente entendeu. E se tornou uma aliada muito forte.

Sua forma de encarar o mundo mudou após a descoberta da transexualidade?

Bem, eu tenho um pouco de medo de sair na rua. Eu tenho essa forma meio feminina de ser. Comecei a hormonização a pouco tempo e meu rosto ainda não mudou, minha voz é do tipo ‘não sei se é menino, não sei se é menina’. Sabe? Daí tenho medo.

E a forma como eu enxergo o mundo também mudou. Eu não fazia ideia da importância da militância. Hoje eu vou atrás, faço textão no facebook e eu luto. Luto pela minha vida e pela vida de outros.

E a relação com sua mãe, mudou também?

Ah, minha mãe sempre foi uma figura muito presente e importante. Mesmo quando ela não acreditava plenamente que eu era trans ela me defendia. Eu sofri muito bullying na escola, inclusive por parte de um professor. Minha mãe foi lá na escola e fez maior escândalo. Ela fez uma revolução, só por minha causa. Foi incrível.

Ela esteve e ainda está sempre presente. Quando eu preciso de um carinho, conversar, é só ir no quarto dela e ela estará lá pronta para me ouvir. Ela é uma pessoa muito incrível. Eu não poderia pedir por uma mãe melhor.

  • Esta entrevista compõe a série de reportagens "Mães que TRANSformam", na qual trazemos histórias de mães que ultrapassaram diversas barreiras impostas pela sociedade para quem é transexual e transgênero.

'O amor que ela me deu me fez a mulher de hoje', diz filha trans

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Carioca/brasiliense/paulistana. É dada a excessos. Come demais, fala demais, (recl)ama demais. Esposa da Catarina e mãe do Zulu, da Leocádia e do Francisco. <3

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