Filho de mãe brasileira e pai norte americano, o jovem Daniel Vairo embarcou para os Estados Unidos, onde viveria grande parte de sua vida, ainda com 15 anos de idade. Algum tempo depois decidiu ingressar na escola naval e começou a se envolver com questões ambientais. Para completar o curso precisava estagiar num navio e escolheu uma embarcação da organização ecoativista Sea Shepherd (“Guardiães dos Mares”), que mudaria para sempre o rumo de sua vida e das questões relacionadas à preservação da vida marinha no Brasil.

Em 1997, Daniel - na época já com 24 anos - e seu primo Alexandre Castro decidiram trazer a experiência da Sea Shepherd para o país. A dupla começou então a articular o que viria a ser oficialmente em 1999 o Instituto Sea Shepherd Brasil. Nessa época a organização não ainda não possuía sedes em outros países além dos Estados Unidos. A brasileira, sediada em Porto Alegre, foi a primeira. Hoje a organização está também na Austrália, Canadá, Inglaterra, Holanda, França e África do Sul.

Em águas tupiniquins

Em terras, ou melhor, águas brasileiras, a dupla de jovens optou pela autonomia e independência financeira em relação à Sea Shepherd internacional. O braço brasileiro do Instituto atua de uma maneira um pouco distinta do resto da organização. De acordo com Paul Watson, criador da iniciativa, a Sea Shepherd Brasil foi “feita por brasileiros para os brasileiros”.

Enquanto a Sea Shepherd estrangeira atua em águas internacionais, zonas marítimas que não se encontram sob jurisdição de nenhum Estado, aqui as ações ocorrem em águas territoriais, sujeitas, portanto, à legislação brasileira. A Sea Shepherd americana ganhou destaque nos jornais internacionais por suas ações incisivas como o bloqueio físico e em alguns casos até mesmo o abalroamento (choque seguido de naufrágio) de navios de pesca ilegais.

Em relação às críticas da mídia internacional e de outras organizações ambientais, Wendell Estol, diretor da Sea Shepherd Brasil esclarece: “É como se você estivesse parado no trânsito, visse um motoqueiro, por exemplo, assaltando alguém e avançasse com o carro para derruba-lo da moto, impedindo a agressão”, compara. “Posteriormente isso entrará como atenuante no julgamento do caso... Com o abalroamento de navios de pesca ilegal deveria ser a mesma coisa”, defende.

No caso específico do Brasil é diferente porque, ao menos na teoria, existem órgãos cuidando da legislação e da fiscalização das questões referentes à vida marinha. A Sea Shepherd Brasil organiza ações de fiscalização em parceria com o Ministério Público e a Polícia Federal. O monitoramento da costa é feito por carros, embarcações e em alguns casos até mesmo helicópteros.

Outro segmento forte das iniciativas nacionais da organização é a educação. O Instituto Sea Shepherd Brasil promove cursos como o de Salvação de Animais Marinhos em Caso de Derramamento de Petróleo em Florianópolis, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também são promovidas ações de conscientização em escolas, praias e campeonatos de surf, quando são montadas tendas para a distribuição de material específico e formação de crianças e adultos.

Uma indústria a serviço da destruição

Em maio deste ano o governo costarriquenho pediu a extradição e prisão de Paul Watson, fundador da organização, por um abalroamento que ocorreu em 2002. Na época, o navio da Costa Rica “Varadero” praticava o finning (veja box) em águas Guatemaltecas quando foi interceptado por uma embarcação do Sea Shepherd, capitaneada por Watson. Os “guardiães dos mares” solicitaram que a embarcação parasse com a pesca predatória e retorna-se ao litoral, mas diante de seguidas negativas optaram pelo abalroamento para cessar as atividades ilícitas.

Apesar de a Costa Rica proibir a prática de finning em seu território, a região é um dos principais entrepostos do comércio internacional de barbatanas. De acordo com Wendell Estol, diretor da Sea Shepherd Brasil, o mercado clandestino de barbatanas movimenta carca de 5 bilhões de dólares por ano. Em 2011 - data em que o processo por danos materiais iniciado pela Costa Rica na ocasião do incidente já teria prescrito - o país da América Central resolveu retomar a ação dessa vez alegando tentativa de homicídio.

Ao longo de seus 35 anos de atividade o Sea Shepherd já afundou 10 navios baleeiros e impediu diversos barcos de dar continuidade à pesca ilegal inclusive do atum-azul, espécie ameaçada de extinção. Mas durante esse mesmo período não foi registrada uma morte humana sequer durante as intervenções.

Em maio deste ano, Watson, que estava na Alemanha ministrando cursos e palestras, foi preso. O ator Pierce Brosnan (ex 007 e uma das muitas celebridades apoiadoras da Sea Shepherd) pagou a fiança para que Watson respondesse ao processo em liberdade. Quando o período da prisão preventiva estava se esgotando, o Japão - um dos maiores exploradores mundiais da pesca ilegal - decidiu engrossar o coro. Entrou com um novo pedido de extradição, dessa vez para terras nipônicas, onde o ecoativista não teria direito a uma defesa justa e ficaria incomunicável. Watson decidiu partir. E há cerca de dez dias está foragido.