São Paulo ganha no próximo dia 27 a primeira clínica pública de internação para adolescentes dependentes

Mastrangelo Reino/Folha Imagem Prédio da nova clínica, instalada em Cotia, na Grande São Paulo

Créditos: Prédio da nova clínica, instalada em Cotia, na Grande São Paulo

Prédio da nova clínica, instalada em Cotia, na Grande São Paulo

de álcool e drogas. O projeto, uma parceria do hospital Samaritano com a Secretaria de Estado da Saúde, pretende atender por ano até 120 jovens entre 14 e 18 anos. Nas clínicas privadas, a mensalidade para esse tipo de tratamento chega a custar R$ 15 mil.

A nova clínica, sediada em Cotia (Grande SP), utilizará técnicas do centro Chestnut, em Illinois (EUA), especializado em tratar adolescentes dependentes químicos. O modelo incorpora ao tratamento a participação da família -que tem acesso ilimitado ao jovem-, aulas dadas por professores do ensino público, atividades físicas e orientação vocacional.

A promessa é de recuperação em 60% a 70% dos casos, taxa superior às normalmente obtidas no Brasil. Segundo o Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), os índices de recuperação não vão além dos 40%.

De acordo com José Antônio de Lira, superintendente corporativo do Samaritano, o tempo médio de internação na clínica será de um a três meses, e o tratamento levará em conta o tipo da droga, o tempo da dependência e o perfil do jovem. A obra custou R$ 1 milhão.

O encaminhamento do jovem será por meio das secretarias de saúde e educação e de conselhos tutelares. Não serão admitidos na clínica adolescentes infratores. "A ideia do programa é focar em um trabalho profilático, evitar que o adolescente dependente se envolva com a criminalidade", diz Lira.

Elitização
É uma decisão polêmica. Na avaliação do professor Elisaldo Carlini, do Cebrid, o risco que se corre é a "elitização" do programa. "O jovem com dinheiro tem família, advogado e, mesmo que cometa um ato infracional, o caso é encoberto. Já dependente pobrezinho vai roubar para sustentar o vício, não tem escapatória."

Levantamento da Fundação Casa mostra que o tráfico de drogas é o delito que mais cresceu entre os meninos de 12 a 14 anos. Representava 8% das infrações, em 2002, e passou para 34%, em 2008. A maioria se envolve com a criminalidade por conta da dependência química.

A modelo de internação também é questionado por Carlini. "Há uma tendência mundial de desinternação. Ela deveria ser sempre a última alternativa."

Para o pediatra Manfred Von Schaaffhausen, médico responsável pelo projeto, internações curtas que visem a desintoxicação e a retirada do adolescente do meio em que vive -que o expõe à droga- são benéficas.
Ele afirma que o principal desafio da clínica será a capacitação do jovem para lidar com a dependência e com a vida. "A desintoxicação é rápida, dois a quatro dias. Depois, o jovem precisa descobrir o que fazer, quais são suas inteligências e ser reinserido na sociedade."

Após ter alta da clínica, o jovem continuará recebendo acompanhamento de um grupo multidisciplinar (médicos, psicólogos e educadores) por dois anos. "Esse acompanhamento melhora muito as taxas de sucesso do tratamento", diz.

Segundo o secretário estadual da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, a pasta estuda a implantação de serviços semelhantes destinados aos adultos. "Vamos avaliar o projeto, dimensionar a demanda e realizar os ajustes necessários."

Cláudia Collucci
Folha de S.Paulo

Maiores informações ligar para: (11) 3821-5576