Quando estávamos na feira da cidade com a família que nos acolheu, olhando de longe para ela, parecia uma família qualquer, em meio a uma rotina comum da região em que estávamos (San Ginesio, Itália). A forma como conversavam com os vendedores ou com os demais moradores da região, revelava um pouco da vida deles. Vida essa que foi aberta para nós, não só para conhecermos, mas para também vivenciarmos.

Nesse ponto em que estávamos em nossa viagem, surgiram duas grandes questões para levarmos em consideração. A primeira era que gostaríamos de conhecer alguns países europeus e permanecer por aqui, mas, com o valor do câmbio, infelizmente nosso dinheiro não iria permitir. A segunda é que estávamos um pouco “cansados” de viajar da forma como estávamos viajando (mais parecido com uma viagem turística, só que econômica). Tínhamos um interesse em poder conhecer mais a fundo as pessoas, as culturas, os detalhes do dia a dia. Ter conversas além do superficial, pela falta de tempo e intimidade com as pessoas. Além do mais, bateu em mim uma saudade do meu trabalho, de me sentir útil novamente de alguma forma.

Quando estivemos na Austrália (confira aqui e aqui), ficamos bastante tempo e conseguimos perceber e sentir um pouco mais a vida de quem vive lá, principalmente de brasileiros que estão em busca do tão sonhado passaporte australiano. Na época, ficamos hospedados na casa de amigos, o que nos possibilitou essa experiência. Mas como não temos ninguém conhecido para nos acolher aqui na Europa, começamos a pensar na possibilidade de trabalhar em troca de hospedagem e alimentação. Entramos em alguns sites que oferecem essas oportunidades (como o worldpacker) e optamos por nos cadastrar no Workaway, pois nele vimos diversas possibilidades de trabalho com famílias e não necessariamente algum negócio, que para nós era mais interessante. Mesmo tendo escolhido um lugar onde também funciona um B&B, vimos a chance de se integrar à família também.

No período em que ficamos com essa família, trabalhávamos 5 horas por dia durante cinco dias da semana (2 dias de folga). Ajudamos de várias formas: cortamos grama, lixamos e pintamos cadeiras, criamos um cartão de visitas para o B&B, ampliamos a cobertura do wi-fi… Tudo isso fazíamos junto com o casal que nos acolheu e, algumas vezes, com o restante da família também (filhos e avô). Foi muito bom nos sentirmos útil novamente e ir, aos poucos, ver o espaço ficar ainda mais bonito.

E, claro, todos os dias desfrutávamos deliciosos almoços e jantares, regados a vinho, com toda a família e, sempre após o jantar, ficávamos um tempão conversado, rindo, compartilhando brincadeiras típicas deles e nossas, uma delícia!

Esse tempo que ficamos com a família, cerca de 3 semanas, foi muito valioso para nós. Vivemos um trabalho e um modo de vida em um ritmo bem diferente do que estávamos acostumados no Brasil. Um clima de campo, do silêncio sendo cortado pelo som dos passarinhos e outros bichos. Uma forma diferente de viajar, de conhecer as cidades. Longe da multidão de turistas, descobrindo os segredos das cidades, dos moradores. Um tempo que parece passar diferente do mostrado no relógio.

Aquela família que observamos na feira, não era mais uma família qualquer. Foi por um período nossa família também. O trabalho, pouco importava qual era, pois sabíamos que era mais um momento de encontro com eles. Uma das experiências mais significativas que vivemos até agora na viagem.

Por Alexandre Seixas e Mariana Carneiro, do blog Uma Pitada de Mundo