Dimenstein: o maior segredo de João de Deus é sua maior lição

Por: Gilberto Dimenstein | Comunicar erro
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Uma pergunta: como tantas mulheres ficaram em silêncio por tanto tempo diante do abuso cometido por João de Deus?
Até agora, são 300 testemunhos. E isso é só o começo.
Para completar, estamos descobrindo que ele tem uma fortuna. Já se detectaram pelo menos R$ 35 milhões sem suas contas bancárias.
Quem poderia imaginar que alguém tão cercado de celebridades pudesse cometer um crime por tanta tempo e com tanta gente.
A maior lição é simples: a sensação de impunidade que o poder provoca.
João de Deus acreditou que seu poder era ilimitado.
Há pessoas que manipulam para ter mais poder ou dinheiro – muitas vezes, querem mais poder e dinheiro.

Não estou falando apenas de líderes religiosos. Mas de qualquer pessoa – especialmente políticos e até comunicadores- que almeje poder, recorrendo à manipulação.
Não é uma questão de esquerda ou direita. Mas da própria essência do poder.  Todos os poderosos manipulam – o que muda é a intensidade.
Por isso, é tão importante a transparência: expor o indivíduo, jogar luz, ver suas inconsistências, contradições, mentiras, falhas.
Se Damares Alves conta que viu Jesus subindo no pé de goiaba para seduzir seus fieis, temos a obrigação de pedir mais detalhes. Quando pedimos, ela admitiu que, afinal, não foi bem assim – era a imaginação de uma criança falando. Uma coisa é falar com uma plateia de fieis, outra é de jornalistas.
O guru do clã Bolsonaro, o filósofo Olavo de Carvalho era pouco conhecido antes de se descobrir que ele indicou dois ministros. Poucos sabiam que ele foi astrólogo, chefe de uma seita mística e polígamo. Assim pudemos ver suas ideias como: cigarro faz bem para saúde, vacinação infantil é um perigo, Pepsi usa células de fetos abortados. Também checamos fraude em seu currículo apresentado nos Estados Unidos, onde seu instituto foi fechado depois de denúncias. Ele anuncia que tem um visto nos Estados Unidos para pessoas “extraordinárias”. Mas, cobrado, não apresenta os documentos que teriam servido para assegurar esse visto- nem mostra o visto.
O poder de João de Deus era tão grande que atraiu celebridades. Uma delas, Lula, que fez cirurgias espirituais com ele para tratar seu câncer na laringe.
O próprio Lula é um bom exemplo. Por muito tempo, ele atacou  os corruptos e foi eleito presidente, em parte, com a imagem de honesto – semelhante ao que hoje ocorre com Bolsonaro e já ocorreu com Fernando Collor.
Essa é a importância que cabe aos comunicadores sérios e responsáveis para proteger os cidadãos dos poderes: proteger o poder das pessoas diante dos poderosos.

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Autor: Gilberto Dimenstein

Jornalista, educador e fundador da Catraca Livre.