Dimenstein: por favor, alguém me diga que é apenas um pesadelo

Por: Gilberto Dimenstein | Comunicar erro
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Não exagero: estou me sentindo num pesadelo. Nunca imaginei que fosse ver o que estou vendo. Nem ler o que estou lendo.

Não sou exatamente um jornalista com pouco tempo de estrada. Tenho 62 anos, comecei a trabalhar aos 17 anos. Só em Brasília morei 13 anos, onde me dediquei a investigar os porões do poder. Sou o que os colegas de profissão chamavam de “puta velha”.

Sou de uma geração treinada a acreditar que o Supremo Tribunal Federal era o melhor dos poderes, com as pessoas mais capacitadas para defender a nação das arbitrariedades.

Essa imagem despencou como se eu estivesse num pesadelo mostrando a deterioração de uma instituição sem a qual não existe democracia.

O jornal do Estado de S.Paulo, em seu editorial de hoje, terça-feira, acusa o Supremo Tribunal Federal de agir na ilegalidade ao promover o aumento de seus salários, classificando como falta de “compostura”.

O editorial carrega palavras como “acinte”, “desfaçatez”, “imoral”.

Poderia ter uma acusação mais grave do que acusar a mais alta corte de uma nação, responsável por zelar de Constituição, do que promover uma ação inconstitucional para seu próprio benefício?

O jornalista Elio Gaspari, também hoje, mostra os bastidores da aprovação do aumento no Senado. ” Por ordem alfabética, o primeiro senador solidário com o reajuste dos ministros foi Acir Gurgacz, que cumpre pena de quatro anos e seis meses na penitenciária da Papuda”.

A esculhambação aumenta quando se sabe que o ministro Luiz Fux está condicionando o fim do imoral auxílio-moradia à aprovação do aumento dos salários. Justo ele que, por quatro anos, segurou em sua gaveta esse auxílio que garante aos juízes ganhar R$ 4 mil por mês mesmo que tenham casa onde trabalhem.

Qual, portanto, a razão para Michel Temer não vetar o aumento? Afinal, ele é professor de Direito Constitucional. A suspeita: ele tem medo de ser punido pelo juízes que o julgarem por irregularidades.

Tradução: o aumento supostamente seria para comprar a boa vontade dos juízes.

O editorial do Estadão e o artigo de Gaspari são parte de um raro momento de unanimidade no Brasil, que uniu de Bolsonaro ao PT, passando por Guilherme Boulos, do PSOL.

Catraca Livre adotou a petição criada pelo Partido Novo pelo veto, já se aproximando das 3 milhões de assinaturas.

O que me incomoda mais nisso tudo é simples: sem um Judiciário prestigiado não existe democracia.

É como se, involuntariamente, o Supremo Tribunal Federal estivesse dando força aos absurdos de Eduardo Bolsonaro, que chegou a dizer que para fechar o tribunal bastaria um soldado e um cabo.

“Com esse STF… Eu acredito que caso o próximo presidente venha a tomar medidas e a aprovar projetos que sejam contrárias (sic) ao gosto deste Supremo Tribunal Federal, eles vão declarar inconstitucional (sic). E aqui a gente não vai se dobrar a eles não.”

E acrescentou: “Eu quero ver é alguém reclamar, quando tiver um momento de ruptura, mais doloroso do que colocar dez ministros a mais na Suprema Corte, se esse momento chegar, eu quero ver quem é que vai pra rua fazer manifestação pelo STF, quem é vai pra rua dizer, ‘Ministro X, volta ministro X, estamos com saudades'”.

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Autor: Gilberto Dimenstein

Jornalista, educador e fundador da Catraca Livre.