Jovens resgatam valores da periferia com moda e empoderamento

Inspiradas no filme "Até as Últimas Consequências", jovens empreendedoras resgatam identidade periférica com estilo, empoderamento e conscientização

Por: Redação Comunicar erro

Da exclusão que enfileira 14 milhões de desempregados, no Brasil dos barões e negociatas, empreender se tornou verbo de resistência. Ao menos para quem tem nas mãos a sorte, revés, e as cartas, do próprio futuro.

E na periferia, e seu universo criativo, muitas vezes está a resposta para as portas que se fecham, antídoto contra a rejeição, que motivou a criação do Muambei, brechó virtual e itinerante especializado no garimpo de peças dos anos 70, 80 e 90.

Da quebrada e para ela, as jornalistas Jéssica Alves, 24, e Mariana Pedreira, 24, a publicitária Dayane Estefanio, 28, e a técnica em vestuários e design de moda Michele Cazuza, 29, se reuniram em Itaquaquecetuba, região metropolitana de São Paulo, para lançar uma ação chamada por elas de afroempreendedorismo.

A inspiração veio do filme “Até as Últimas Consequências“, clássico dos anos 90, que retrata a luta de quatro mulheres negras em busca de uma nova vida, estrelado por Queen Latifah e Jada Pinkett Smith. “O Muambei surge justamente como uma alternativa diante de um mercado limitado e em crise. Você nunca é o bastante. Você se forma e acaba não se encaixando no mercado, por diversos motivos. Seja pela questão racial estruturante, por morar longe, aparência”, explica Jéssica.

Inspiradas no filme “Até as últimas consequências”, as quatro amigas de Itaquá comemoraram um ano do Muambei em ensaio que relembra o clássico lançado em 1996

E num cenário negligente, marcado pelo racismo e marginalização da população negra e pobre brasileira, a alternativa foi resgatar as origens e legado da periferia para investir no próprio negócio. “O brechó nasceu pra trazer auto estima e nos empoderar como mulheres, pretas e periféricas. Hoje, somos nossas próprias patroas, trabalhamos pra nós mesmas e aos poucos estamos fazendo as coisas acontecer e dando nosso nome”, destaca Mariana.

Da ponte pra cá: muito talento e pouca oportunidade

Ao apostar na identidade periférica como bússola para o sucesso, a pluralidade das diversas culturas, cores e ritos move a garimpagem de antigas peças de roupas e tendências do brechó. “A gente observa muito o que acontece ao nosso redor. Podemos mostrar que não é porque a gente tá num lugar afastado que a gente tá dormindo, a gente sabe fazer moda, empreender. E a gente cria o nosso estilo, nossa linguagem nesse trabalho. Muita gente vê e consegue identificar. Ficamos muito felizes por isso”.

Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC
Muambei expondo peças na UFABC

Itaquá é do tamanho do mundo

A pouco mais de quarenta quilômetros do centro de São Paulo, a rotina de Itaquá não é a única fonte de inspiração para o grupo que busca na poesia armada dos Racionais Mc’s a razão e o norte para o sucesso.

Alia consumo consciente, pautado na reutilização de roupas a preços democráticos, para promover aquecimento da economia local e resgatar a autoestima e valorização de quem está à margem. “Nós usamos muito a citação dos Racionais Mc’s ‘É o estilo favela, e o respeito por ela’. Essa frase representa muito o nosso trampo. Nós que vivemos no extremo leste, por muitas vezes fomos consumir no Centro coisas que são originais da quebrada. Nosso primeiro impulso ao criar o brechó, foi trazer isso de volta pros nossos”.

Apesar disso, relembram os percalços enfrentados no começo, sobretudo, o estranhamento causado pelo conceito de reutilização das peças. Encontraram na sustentabilidade, e nos impactos causados pela indústria têxtil, motivos para vender a ideia: “Nos deparamos com algumas resistências e trabalhamos bem essa questão da conscientização. Fomos até pesquisar um pouco mais pra dar embasamento sobre sustentabilidade. Muitas pessoas aqui pensam que vendemos roupas novas por conta da nossa abordagem e estilo. É nesse momento que explicamos que é possível ter uma beca daora que carrega o peso de uma época por um preço bacana e que, além disso, você acaba contribuindo para a produção menor de dióxido de Carbono, já que o mercado da moda em média produz cerca de 1,5 tonelada Co2 ao ano”.

Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar

Passado o primeiro ano de atividade, período de grande risco segundo especialistas  – que causa o fechamento de mais da metade de empresas no Brasil, hoje, as jovens empreendedoras sonham alto. Sem tirar os pés do chão, como todo filho nascido e criado na periferia. “ Os planos são muitos. Desde o começo pensamos em expandir e criar uma marca nossa, fazer do negócio um império de quatro manas pretas, gerar empregos e continuar valorizando o empreendedorismo na quebrada. Mas como nada é fácil e tudo é dinheiro, ainda são planos distantes. Cada dia trabalhamos mais pra conseguir alcançar esse objetivo”.

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