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Compulsão alimentar: saiba identificar e como controlar

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Comer é um dos maiores prazeres da humanidade e isso tem uma explicação: quando as pessoas comem algo que gostam, o nível de dopamina e serotonina (hormônios do prazer) em seus cérebros aumenta. É por isso que em situações de ansiedade, por exemplo, as pessoas têm a tendência de se aliviar na comida.

O problema é quando esse prazer se torna algo compulsivo. Passar por episódios esporádicos de gula e comer além da conta de vez em quando é algo normal, mas como saber se a alimentação fugiu do controle?

Comer em grandes quantidades de uma só vez, mesmo sem fome, comer escondido, na tentativa de fugir do julgamento de terceiros, comer para sentir-se emocionalmente bem, beliscar toda hora e sentir-se culpado depois são alguns sinais que podem indicar Transtorno Compulsivo Alimentar (TCA).

Assaltar a geladeira toda hora é um dos comportamentos de pacientes com compulsão alimentar

Segundo o médico psiquiatra Dr. Alexandre de Azevedo, coordenador do Grupo de Estudos em Comer Compulsivo e Obesidade do Hospital das Clínicas, dieta restritiva é o principal gatilho desencadeador da compulsão alimentar. “É preciso aprender a se dar a oportunidade de comer “de tudo” porém “não tudo” ao mesmo tempo. Fazer restrição alimentar é um grande erro”, afirma.

Para esclarecer mais sobre o assunto, confira a seguir a entrevista com o psiquiatra:

Como saber que se trata de compulsão alimentar ou apenas prazer em comer?

O Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) é caracterizado por episódios recorrentes de descontrole alimentar (compreendido como episódios de perda de controle durante a ingestão alimentar, ou comer exagerado mesmo sem estar faminto ou mesmo episódios de comer tanto “até passar mal”). Para se caracterizar o TCA como doença, o padrão de episódios de descontrole alimentar deve recorrer pelo menos 1 vez por semana e estar presente continuamente durante 3 meses. A descrição clínica do comer compulsivo é comer vorazmente em um curto período de tempo com a sensação de perda de controle sobre o quê e o quanto se come. Contudo, há descrições mais amplas em que se torna difícil separar episódios claros de comer compulsivamente ao longo de um dia. Além disso, o indivíduo apresenta o sentimento de acentuada angústia por não conseguir controlar a sua alimentação, além de sentimentos de culpa, arrependimento e fracasso. A presença de sintomas depressivos e ansiosos costuma ocorrer também.

Quais as consequências mais graves da compulsão alimentar?

As principais consequências são psicossociais. Usualmente há tendência ao isolamento e a pessoa tenta evitar contato social pelo constrangimento pelos exageros alimentares.  Por vezes, ajudar com frases como “você precisar virar a página”, “você deve dar a volta por cima” e outras, podem reforçar negativamente a sensação de fracasso do indivíduo em não conseguir sozinho manter o controle.

Há uma idade média em que esse comportamento é mais comum?

A idade média de novos casos está entre os 20 e 30 anos de idade. Porém tem sido cada vez mais frequentes novos casos em criança e adolescentes, embora não seja possível ainda precisar em números este aumento de prevalência nesta população.

O que diferencia a bulimia da compulsão alimentar?

A bulimia nervosa também é caracterizada por episódios de compulsão alimentar; contudo, devido ao grave sofrimento relacionado à distorção de imagem corporal, associa-se à perda de controle alimentar, comportamentos inadequados compensatórios na tentativa de evitar o possível ganho de peso determinado pelo descontrole, como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes e diuréticos, jejuns prolongados e exercício físico exagerado. No Transtorno Compulsivo Alimentar, não há distorção de imagem corporal e não há métodos compensatórios inadequados, embora permaneça o sofrimento psíquico pela perda de controle alimentar.

A compulsão alimentar pode gerar um descompasso nutricional?

 Na verdade, não. Como as refeições não compulsivas costumam ser apropriadas, a frequência de recorrência de episódios de compulsão alimentar não seria suficiente para determinar uma desorganização nutricional clinicamente identificável.

Quais as formas de tratamento? E como buscar o equilíbrio depois de ser diagnosticado com esse transtorno?

 O tratamento é a psicoterapia comportamental incluindo estímulo de mudança de hábitos e reeducação alimentar. Medicações têm seu papel no tratamento do TCA, porém sempre combinado à psicoterapia e à terapia nutricional. Se é possível pensar em medidas preventivas, citaria duas principais: prevenção de obesidade desde a infância e adolescência e, a mais importante, nunca realizar dietas restritivas. A restrição alimentar é reconhecidamente o principal gatilho desencadeador, em pessoas predispostas ao TCA.

Hoje em dia o ato de comer é uma das maiores preocupações sociais. Muitas vezes, está relacionado à culpa e arrependimento e acaba minando a sensação de prazer. Em sua opinião, a sociedade coloca pressão demasiada na alimentação?

Sem dúvida. Na verdade a pressão sobre a escolha de uma alimentação “saudável” é secundária à pressão em se ter um corpo de aparência “saudável”, ou seja, magro. A partir da necessidade imposta em se ter um corpo magro, que em teoria representaria saúde, as pessoas seriam “obrigadas” a escolher uma alimentação estigmatizada como “saudável”. O erro é acreditar que a estética magra de um corpo representaria saúde e que os falsos conceitos nutricionais difundidos representaria uma alimentação saudável.

Quais as dicas você daria para aquelas pessoas que gostam muito de comer não perder o controle?

Compreender que o prazer em comer está relacionado ao saborear determinados tipos de alimentos e não à quantidade desses alimentos. O prazer deve estar relacionado ao sabor. É possível sim alimentar-se de maneira diversa evitando a classificação de alimentos proibidos e permitidos; isto é um grande erro. É preciso aprender a distribuir melhor os alimentos, respeitando a adequação da refeição e se dar a oportunidade de comer “de tudo”, porém, “não tudo” ao mesmo tempo. Fazer restrição alimentar é um grande erro.