Comunidade é o foco de companhia teatral da região da Luz, em SP

Por: Aline Gattoni Comunicar erro

Minha pauta era sobre uma companhia de teatro instalada na Luz, a alguns metros da cracolândia, em São Paulo. Dirigi-me para a área quatro dias após acontecer ali uma megaoperação policial de combate ao tráfico.

Busquei pelo imóvel 43 da Rua dos Gusmões, endereço que me havia sido passado, mas o número parecia não existir. Eu também moro na região –ou “na quebrada”, como muitos gostam de dizer–, mas algo ali estava diferente.

O fluxo, local de concentração de usuários de crack, estava disperso. Foi então que me deparei com uma enorme estrutura com contêineres, no meio de uma praça. O local era aquele.

“Isso aqui é uma ocupação”, explicou meu entrevistado, Pedro de Oliveira. Ele é o diretor técnico da Cia. Mugunzá de Teatro, grupo formado há nove anos por integrantes das escolas de teatro Macunaíma e Célia Helena.

“No meio do ano passado, decidimos sair de um galpão e procurar espaço público ocioso. Em 2016, entramos em contato com a prefeitura regional pedindo esse terreno para o teatro”, relembra Oliveira. “Disseram que não rolava porque era muita burocracia.” Assim, o grupo partiu para sua segunda estratégia.

Os integrantes solicitaram à Secretaria Municipal da Cultura um evento no local com duração de dois meses, batizado de “Festival Nacional de Performance – Arquiteturando a Cidade”. “A gente chamava esse projeto de ‘contragolpe’”, conta. “Sabíamos que quando entrássemos não sairíamos mais.”

Visão noturna dos contêineres na Luz

Manutenção pela e para a comunidade

Hoje, os sete membros da companhia, além de colaboradores, cuidam do Teatro de Contêiner Mungunzá, montado a partir do próprio esforço. O centro cultural de mil metros quadrados funciona ao redor de 11 contêineres marítimos modulares. “Não podíamos fazer construção de alvenaria. Montamos praticamente em uma noite”, diz o diretor de 29 anos.

Há uma ampla área externa com playground e uma horta hidropônica criada por um morador local e mantida pela comunidade. “Fizemos questão de deixar esse espaço ao ar livre”, afirma ele. Durante minha visita, algumas crianças da comunidade abriram o portão, entraram e começaram a brincar nos cerca de cem tambores de aço do parquinho.

No centro cultural, acontecem espetáculos teatrais e de dança, shows, exposições, contação de histórias, intervenções, aulas de capoeira, projeções de cinema.

Público assiste a espetáculo no Teatro de Contêiner Mungunzá

Segundo Oliveira, o motivo da escolha deste terreno é simples. “É uma região cultural e de fácil acesso, um espaço histórico para as companhias de teatro. Além disso, tem a questão social da cracolândia.” Para o grupo, envolver-se com a comunidade e oferecer oportunidades ao entorno é prerrogativa.

As ações ao ar livre são gratuitas. O teatro tem preço popular, com teto de R$ 30. Na lanchonete, cada um paga o que quer –ou o que pode. “Pedimos concessão de espaço por três anos”, diz. “O prazo é ideal para sentirmos se nosso impacto na região é positivo.”

O diretor, que também é matemático, bateu de porta em porta pela Luz explicando o que fazia a Mungunzá e por que ali estava. “Se não há a força do pessoal do entorno, o projeto não se legitima.”

A Craco Resiste

No âmago da companhia está justamente o sentimento de inserção na comunidade. Assim, após inúmeras ações policiais na região, surgiu o coletivo A Craco Resiste.

A ideia é vigiar a área contra a intervenção policial violenta. Questiono se o grupo não deseja que a cracolândia termine –daí o nome. “Não é porque não queremos que acabe”, responde Oliveira. “Mas queremos que haja dignidade.” Ele admite que participar de confrontos físicos faz parte. “Eu apanho bastante. Estar aqui nessa ocupação é guerrilha e luta diária.”

Vista panorâmica do terreno ocupado pela companhia

Aberto oficialmente em março deste ano, o centro cultural está se consolidando. Desde a criação do espaço, já passaram por ali cerca de 5.000 pessoas. Na Virada Cultural, foram 800.

“Não visamos lucro. Somos héteros, brancos e de classe média”, afirma meu entrevistado. “Isso aqui é para eles se empoderarem. Não é um espaço da companhia, é um espaço da cidade.”

Entendi o que ele estava querendo dizer. Um menino, que até então estava brincando no playground, veio correndo em minha direção e me abraçou. “Tchau, tia”, disse. “Eles são pura violência e carinho”, observou Oliveira. “Tchau, garoto”, eu pensei. “Espero encontrá-lo novamente –e, mais uma vez, longe do fluxo.”

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