Após 20 anos, este pequeno mamífero, considerado o jardineiro da natureza, retorna da extinção
O segredo do engenheiro invisível que molda as margens dos rios
Pequeno e discreto, o rato-d’água é um mamífero semiaquático fundamental para a saúde de rios e riachos, atuando na manutenção da vegetação das margens e na criação de abrigos para outras espécies, mas sofreu declínios de mais de 90% desde a década de 1990 na Grã Bretanha, o que levou à criação de projetos de reintrodução e restauração de habitats para recuperar a biodiversidade aquática.

O que é o rato-d’água e por que ele é tão importante?
Conhecido em inglês como water vole, o rato-d’água é um pequeno roedor que vive em rios, córregos, canais e lagoas de fluxo lento. Apesar do nome, ele não é uma rata comum, mas uma espécie própria com corpo mais roliço, focinho arredondado e cauda relativamente curta e peluda.
Na ecologia, o termo engenheiro do ecossistema descreve espécies que modificam o ambiente de forma marcante. O rato se encaixa bem nessa definição, pois suas tocas escavadas e o consumo de vegetação aquática criam micro habitats usados por insetos, anfíbios, aves e outros pequenos animais, aumentando a diversidade nas margens.
Como diferenciar o rato-d’água das ratas comuns?
A confusão entre o rato-d’água e a ratazana marrom urbana ainda prejudica a imagem desse mamífero nativo. O roedor aquático tem corpo compacto, cara redonda e orelhas pouco visíveis, enquanto a ratazana apresenta corpo alongado, focinho pontudo e cauda longa e quase sem pelos.
Também existem diferenças importantes na alimentação e no impacto ecológico, que ajudam na identificação no campo. Veja abaixo os principais contrastes entre essas duas espécies.
- Formato do corpo: rato-d’água mais atarracado e robusto; ratazana mais esguia.
- Rosto: cara arredondada no rato-d’água; rosto afilado na ratazana.
- Cauda: cauda com pelos curtos no rato-d’água; cauda quase nua na ratazana.
- Dieta: rato-d’água majoritariamente vegetariano; ratazana onívora e oportunista.
Por que o rato-d’água desapareceu de tantas áreas?
Organizações de conservação britânicas apontam o rato-d’água como um dos mamíferos de declínio mais rápido do país, chegando a ser considerado extinto localmente em muitos trechos de rios. A combinação de perda de habitat, poluição e novos predadores levou as populações a níveis tão baixos que a recuperação natural se tornou improvável.
Entre as principais causas estão a retificação de rios, drenagem de áreas úmidas e remoção da vegetação de margem, que reduziram abrigos e alimentos. A introdução do vison-americano (American mink), um mustelídeo invasor, aumentou a pressão de predação. Em cenários de mudanças climáticas, cheias súbitas e secas prolongadas ainda inundam tocas, afogam ninhadas e alteram a vegetação aquática de que o animal depende.
Como funcionam os projetos de reintrodução do rato-d’água?
Os projetos de reintrodução buscam restabelecer populações viáveis de rato-d’água e conectar rios e riachos. No rio Wey, na região de Haslemere, um grupo inicial de 150 indivíduos foi libertado em trechos selecionados após preparo do habitat, controle de predadores e engajamento de comunidades locais, etapa vista como essencial para o sucesso.
Esses programas seguem etapas bem definidas, que vão da análise prévia da área até o acompanhamento da reprodução e dispersão dos animais. A lista a seguir resume as fases mais comuns.
- Avaliação do habitat: checagem de profundidade, fluxo, cobertura vegetal e presença de predadores.
- Restauração prévia: plantio de vegetação ribeirinha, criação de refúgios e controle de espécies invasoras.
- Libertação gradual: soltura em pontos diferentes para reduzir riscos concentrados.
- Monitoramento pós-soltura: uso de câmeras, avistamentos e análise de fezes e tocas.

Como o rato-d’água se relaciona com o castor-europeu?
Na Grã Bretanha, a reintrodução do castor-europeu mostra como outro engenheiro de ecossistemas pode ajudar o rato-d’água. As represas dos castores criam áreas alagadas que regulam o fluxo dos rios, reduzem enchentes, filtram poluentes e mantêm água em períodos secos, o que aumenta a resiliência hídrica da paisagem.
Estudos do projeto River Otter Beaver Trial, em Devon, apontam mais peixes, anfíbios, aves selvagens e ratos-d’água nas áreas influenciadas por castores. Quando vistos em conjunto, os dois projetos indicam que restaurar espécies chave em rios e zonas úmidas é uma estratégia direta para fortalecer a biodiversidade e enfrentar impactos da crise climática.