‘Não é Não!’ espalhará tatuagens contra assédio em 15 estados

Para 2020, a expectativa do coletivo é distribuir 200 mil tattoos contra o assédio sexual no Carnaval

Por: Heloisa Aun

Mais do que distribuir tatuagens feministas no Carnaval, o Não é Não! busca, há quatro anos, conscientizar as pessoas sobre o que é assédio sexual por meio de uma mensagem simples e direta, que dá nome ao coletivo de mulheres. Em 2020, a ação chegará a 15 estados do Brasil — em 2019, eram nove no total. O grupo é parceiro da campanha #CarnavalSemAssédio, criada em 2016 pela Catraca Livre com o objetivo de lutar por respeito durante a folia.

O Não é Não!, que surgiu em 2017 no Rio de Janeiro, fará sua estreia nos próximos dias no Piauí, na Paraíba, no Amazonas, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo. Os novos estados se juntam aos que já estavam presentes no último ano: Rio, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás, Paraná, Pará, Bahia e Pernambuco.

Crédito: Luiz Varanda / Não é Não!O coletivo teve início em 2017 no Rio de Janeiro

“Nestes 15 estados, temos uma equipe e voluntárias para fazer a distribuição, mas também há outros locais interessados em levar as tatuagens para as mulheres. Órgãos de cidades no interior do país, como Secretarias da Mulher, nos procuraram. Ainda estamos entendendo como será feita a distribuição, mas provavelmente teremos uma pequena quantidade em outros locais também”, afirma Luka Campos, uma das cinco idealizadoras da campanha e integrante do núcleo nacional do projeto.

Segundo Luka, logo no segundo ano de campanha, ela e as demais responsáveis pelo coletivo entenderam que seu grande objetivo era atingir mais mulheres e estar em mais corpos pelo país. A expansão ano após ano veio justamente para abarcar as lutas de todas as mulheres e disseminar informação. “A gente entende que as mulheres negras sofrem mais com a violência de gênero, assim como as que estão no interior do interior do Brasil, por exemplo.”

Atualmente, o Não é Não! é formado por cinco mulheres no núcleo nacional, que estão no “centro de uma mandala”, como Luka define. Em cada um dos estados da campanha, há duas embaixadoras, que fazem a ponte com a rede local. Já na rede local, há voluntárias que ajudam em todo o processo operacional, além de blocos, bandas e marcas locais. O trabalho do grupo é executado diariamente com cerca de 40 mulheres, que atuam de forma horizontal.

Crédito: Bitar e Paiva / Não é Não!Além de distribuir tattoos, a campanha busca conscientizar sobre casos de assédio

História do Não é Não!

O ponto de partida para a criação do Não é Não! foi um caso de assédio sexual no pré-Carnaval do Rio de Janeiro, em 2017. Uma das integrantes do coletivo estava dançando, quando um homem tentou beijá-la e, ao receber um “não”, a segurou pelo shorts. Ao comentar sobre o caso entre amigas, outras histórias similares surgiram no grupo. “Então, veio o questionamento: ‘Por que não falamos sobre isso?’”, relata Luka.

A ação teve início no mesmo ano, apenas no Rio, onde distribuiu gratuitamente 4 mil tatuagens temporárias pelos blocos da cidade. “No Carnaval, a gente fica na rua, com menos roupa, bebendo, então estamos mais vulneráveis. A ideia é que as tatuagens formem uma rede de apoio para cuidarmos umas das outras e promovam um debate sobre o assédio sexual”, diz.

Após a repercussão inicial do movimento, tanto nas ruas como nas redes sociais, o coletivo decidiu criar uma campanha de financiamento em 2018, com a qual arrecadou R$ 20 mil e distribuiu 26 mil tattoos nos maiores Carnavais do Brasil. E não parou por aí: ao entenderem que o grupo deveria se aproximar de outras mulheres, a campanha cresceu e, em 2019, chegou a nove estados, onde foram distribuídas 112 mil tatuagens. Para 2020, a expectativa é espalhar 200 mil tattoos pelo Brasil.

Crédito: Lucca Mezzacappa / Não é Não!A ação chegará, em 2020, a 15 estados do país

Percepção do assédio no Carnaval

De acordo com a idealizadora do Não é Não!, a reação das pessoas ao longo dos anos de campanha mudou, principalmente, nos lugares em que atua desde o início, como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. “A maioria das mulheres que frequentam blocos de Carnaval já conhece a campanha e pede tatuagem assim que chegamos”, diz.

No entanto, ainda há comportamentos mais agressivos por parte dos homens, em especial nas cidades em que a campanha está em seu primeiro ano.

“Hoje, alguns homens falam que querem apoiar a causa e pedem para usar a tatuagem, mas a gente reforça que há outras maneiras para eles ajudarem, como na campanha de financiamento coletivo, na entrega de tatuagens para mulheres, não assediá-las, repreender amigos ou desconhecidos que estão sendo violentos de alguma forma… Muitas vezes, eles estão em lugares que nós, mulheres, não estamos”, explica.

Da mesma forma, Luka sente que os casos de assédio nesses locais também diminuíram. “Vemos alguns estados em que os casos caíram, enquanto em outros cresceram. A gente sabe que isso é apenas um pedacinho do problema. Em termos nacionais, a violência contra a mulher só cresceu neste último ano, certamente reforçada por este governo que não nos respeita”, ressalta.

“Mesmo que haja evolução, temos uma longa caminhada pela frente, que envolve, inclusive, as esferas tradicionais, da política institucional. Por isso não podemos contar com isso como sinal de vitória, até porque o aparelho do Estado não divulga números de denúncias ou não as computa da forma que deveria”, conclui.


Todos os conteúdos da campanha #CarnavalSemAssédio são apoiados oficialmente pela 99.


Imagem Carnaval Sem Assedio

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