Café RH: o que podemos aprender com o diretor de RH do McDonald’s

Marcelo de Freitas Nóbrega é o diretor de Recursos Humanos da Arco Dourados, empresa que administra a marca Mc Donalds em toda a América Latina. Em um bate papo informal com o WallJobs, Marcelo contou um pouco sobre as estratégias de RH usadas em uma das maiores multinacionais do mundo. Confira

Marcelo Nóbrega, diretor de RH da Arcos Dourados
Marcelo Nóbrega, diretor de RH da Arcos Dourados

WJ: Quais são os principais atrativos para um jovem iniciar uma carreira na Arcos Dourados?

MN: Por sermos o primeiro emprego de muitos e o maior empregador de jovens do país, temos um desafio permanente para atrair pessoas talentosas. E para sermos bem-sucedidos nisso, buscamos enriquecer essa experiência, dando “mais bagagem” para nossos funcionários e formando melhores profissionais. Temos três pilares importantes para chamar a atenção dessas pessoas: modernizar a empresa, valorizar a inovação e ter um bom plano de desenvolvimento de carreira. Para isso, investimos anualmente cerca de R$ 40 milhões de reais em treinamento, pois queremos formar cidadãos, além de bons profissionais. Oferecemos muito mais do que um salário, como oportunidade de crescimento dentro da empresa e diversos benefícios e incentivos: vale-transporte, assistência médica, assistência odontológica, Seguro de Vida em Grupo e Assistência Funeral. Também temos programas de incentivo com reconhecimentos que vão desde remuneração extra a bolsas de estudo, e parcerias com instituições renomadas como a Fundação Instituto de Administração (FIA), Universidade de São Paulo (USP), Fundação Getúlio Vargas e IOS, para possibilitar que nossos colaboradores possam se aperfeiçoar com os melhores cursos disponíveis no mercado, com conteúdos de TI, Empreendedorismo e Gastronomia, por exemplo.

WJ: Tem Job Rotation?

MN: No início, o jovem vai passar um tempo no restaurante, onde vai colocar a mão na massa e conhecer todas as funções da unidade, aprendendo a usar os diversos equipamentos, montar uma casquinha, servir o cliente e até cuidar da limpeza, assim ensinamos nossa excelência operacional para ele. Quando o jovem voltar para o escritório, vai passar por diversas áreas (RH, Finanças, Marketing, TI…), aprendendo um pouco sobre cada uma. Cada estagiário também tem um projeto e um mentor para acompanhá-lo durante o período, além de ter acesso a diversos cursos. A Arcos Dourados investe muito na parte comportamental do jovem, pois isso definirá o sucesso de uma carreira no mundo corporativo. É muito importante saber como se comportar diante de novas situações e inovações do mercado, onde, cada vez mais, tudo acontece de forma acelerada.

O McDonald’s é uma das empresas que mais emprega no país
O McDonald’s é uma das empresas que mais emprega no país

WJ: E existe alguma possibilidade de carreira internacional?

MN: Por ser uma empresa latino-americana, existe essa possibilidade. Mas, normalmente, ela ocorre nos níveis gerenciais da companhia. O presidente da Divisão Norte da América Latina, por exemplo, é brasileiro, bem como temos alguns gerentes da Argentina aqui no Brasil.

WJ: Qual a diferença entre a Arcos Dourados e o McDonald’s dos EUA? Afinal, o que é a Arcos Dourados?

MN: A Arcos Dorados é uma empresa de origem Argentina e é a maior franquia McDonald’s do mundo, sendo responsável pela operação dos restaurantes da marca em 20 países da América Latina. Ela deve sempre seguir as diretrizes de marketing da empresa americana e manter em seu menu alguns produtos que são comuns ao McDonald’s em todo o planeta. Entretanto, vale ressaltar que o modelo de gestão no Brasil e praticamente tudo que envolve a parte gerencial é independente.

WJ: O que a empresa espera dos candidatos?

MN: Queremos candidatos que questionem o status quo. Que sejam inovadores, criativos, que tenham visão de empreendedor e que, principalmente, estejam dispostos a colocar a mão na massa. Um ponto fundamental é o comportamental. Não esperamos estagiários com amplo conhecimento técnico, pois somos uma grande escola, aqui conseguimos ensinar e treinar. É importante que ele tenha vontade de aprender e compartilhar o conhecimento com toda a equipe.

WJ: Bom, agora que sabemos o que a empresa procura, conta pra gente o que a empresa não quer nos candidatos.

MN: O que não queremos é arrogância e falta de vontade.

WJ: Você tem algum case de um ex-estagiário que esteja em um cargo executivo?

MN: Sim, temos muitas pessoas aqui que começaram como estagiários e chegaram a grandes cargos. Sem contar que 40% dos nossos diretores e gerentes foram atendentes em restaurantes do McDonald’s. Para crescer aqui, é só trabalhar duro.

WJ: O que você gostaria de falar para o público jovem?

MN: Se você quer trabalhar em uma multinacional reconhecida no mundo todo, que oferece um sólido plano de carreira e oportunidades de crescimento e está entre as melhores empresas para trabalhar na América Latina, entre em contato conosco, pois o McDonald’s é o lugar certo para você.

WJ: Qual o segredo para estar por tantos anos entre as melhores empresas para se trabalhar?

MN: A resposta é: Amo muito tudo isso. As pessoas que trabalham aqui tem um grande alinhamento cultural com o DNA da empresa. Ainda assim, as pessoas aqui não se prendem apenas a fazer o que amam, por isso elas entendem as necessidades da empresa e sempre saem da sua zona de conforto.

Outra questão é a análise de dados, que é muito importante para o RH moderno. Temos mais softwares para analisar perfis, inadimplências, entre outras métricas. Tudo isso nos ajuda a entender o funcionário cada vez mais. Um grande exemplo disso, foi quando derrubamos a falácia que o jovem não tinha compromisso com nada e faltava sempre aos finais de semana. A partir disso, os gerentes queriam que déssemos um bônus a mais para quem viesse no final de semana. Com a análise de dados descobrimos que, na verdade, eles faltam todos os dias igualmente, e aí, cruzando essa informação com outros dados, descobrimos a origem: eles faltam sempre um dia antes ou um dia depois das sua folgas. Com isso fomos protagonistas e barramos esse projeto de bônus extra, economizando muito tempo e dinheiro para a empresa. Utilizamos dados para nos ajudar a entender melhor todas essas questões para termos embasamento na hora de tomar decisões. Não adianta só falarmos que o RH tem que tomar certas posições se ele não tem dados para comprovar suas decisões, porque aí tudo virá achismo.

WJ: Como sabemos, o turnover do McDonalds é muito alto, como você lida com isso?

MN:  A questão é estudar os dados de uma maneira estratégica através de uma análise em diversas camadas: Loja, Cargo, Horário, Região entre outras. O número é alto na primeira camada, que é o cargo de atendente, porém, nos níveis acima, o turnover é de 6%, que é um nível abaixo do mercado. O que acontece no McDonalds é que o cargo de atendente é o primeiro emprego de muitas pessoas, onde formamos os jovens não só para trabalhar para o McDonald’s, e sim para sua carreira. Fazemos isso tão bem que, hoje, grandes empresas nos dizem que contratam ex funcionários nossos de olhos fechados.

Outra questão a se considerar é que, por ser um primeiro emprego, podemos enxergar como uma experimentação, ou seja, é normal esse turnover, pois o jovem muitas vezes nunca trabalhou e muitas vezes ele espera algo diferente do primeiro emprego ou, simplesmente, ele queria uma experiência menor.

Porém, faz parte, nós fazemos nosso papel como formadores desses jovens e nós os ajudamos a fazer suas primeiras conquistas profissionais e pessoais como, comprar um skate, uma bicicleta, ajudar a família, pagar a faculdade, e nos orgulhamos disso, participamos da sua carreira.

Outro motivo é o nosso grau hierárquico, pois para subir de cargo de atendente a treinador, quando abrem essas posições, a concorrência é de 60 para 1, isso é mais concorrido que o vestibular da fuvest.

WJ: Falamos muito de RH estratégico. Isso no Brasil é uma falácia ou é algo implementável?

MN:  É mal entendido, o RH estratégico é o que deve ser feito para aquela organização naquele momento, pensando a curto, médio e longo prazo.

O RH deve pensar no propósito da empresa e como funciona a empresa para saber onde ele deve ter uma atuação mais estratégica. Numa empresa pequena, por exemplo, a folha de pagamento não é algo tão importante, o que dá espaço para o RH focar em outras áreas,  porém, numa empresa de trinta mil funcionários talvez seja algo totalmente importante. O RH deve estar alinhado sempre com os negócios e  o objetivo da empresa, que muitas vezes não é, necessariamente naquele momento, dar lucro. O objetivo pode ser fechar alguma coisa, é aí que você percebe quanto quem está no RH é realmente estratégico.

Gerentes que são líderes de pessoas muitas vezes acham que entendem de RH, porém em geral eles não entendem e o RH, muitas vezes, não mostra para eles o porquê de eles não entenderem. O papel do RH no McDonald’s é ensinar os executivos a serem melhores líderes, treinando eles a um ponto onde não seja mais necessário ter o RH.

Para manter o nível de excelência em padronização, todos os países tem ao menos 5 sanduíches padrão no cardápio das suas franquias.
Para manter o nível de excelência em padronização, todos os países tem ao menos 5 sanduíches padrão no cardápio das suas franquias.

WJ:  Como passar uma mesma cultura para tantas pessoas?

MN: São 40 anos com o sistema taylorista muito bem estruturado, para o bem e também para o mal, onde você entra como atendente, passa a ser treinador e por aí vai. Todos que crescem e entram na organização tem que ter catchup na veia. Todos aqui têm a mesma cultura graças a esse sistema, com isso conseguimos criar uma empresa em que seu principal concorrente não é quem produz os mesmos produtos, e sim restaurantes de comida por quilo.

Inclusive, temos concorrentes que tiram funcionários nossos e não dá certo, porque eles não conseguem copiar nossa cultura ou porque inserem esses funcionários em uma cultura totalmente diferente.

WJ:  Qual é a sua principal dor na hora de recrutar os jovens?

MN: Hoje nossa principal dor para recrutar jovens estagiários é, principalmente, essa parte burocrática que envolve contrato e convênio de estágio.

WJ:  Qual a sua dica para quem está começando a carreira na área de RH? Você acredita que exista alguma tendência que os colegas de profissão deveriam começar a estudar?

MN:  Você deve estudar people analytics, habilidades numéricas e estatísticas. Os profissionais têm que ter um pensamento analítico, pois isso acaba dando base para entender melhor as pessoas e te tira do “achismo”.Isso não te afasta das pessoas, e sim te ajuda a se aprofundar mais. E isso de forma alguma deve te tirar a obrigação de ser mais humano com as pessoas na empresa.


Marcelo Nóbrega é executivo com mais de 25 anos de experiência em empresas dos setores financeiro, de petróleo, bens de consumo, serviço de transporte aéreo e alimentício. É especialista em coaching de executivos, gestão da mudança e desenvolvimento organizacional e de lideranças. Fez bacharelado e mestrado em Ciência da Computação pela Universidade de Columbia e doutorado em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ. É coach Certificado pela Universidade de Columbia e autor do livro “Você Está Contratado!”. Foi nomeado pela Você RH em 2015 como Melhor RH do Ano no Setor de Varejo.