Adélia Sampaio: 1ª mulher negra a dirigir longa-metragem no país

'O cinema é uma arte elitista. Mas eu, pobre, preta e com o primeiro grau escolar completo entrei na 'dança' para me tornar cineasta', afirma

No cinema Metro Passeio, centro do Rio de Janeiro, o filme russo “Ivan, o terrível” atraía a atenção do público. Eram meados da década de 1950 e, entre os espectadores, estava uma garota de 13 anos, chamada Adélia Sampaio, pela primeira vez em uma sala como aquela.

“O convite veio da minha irmã. Quando a luz apagou, eu tive vontade de correr, mas diante de mim surgiu uma tela iluminada com pessoas em movimento. Naquela hora pensei: quero fazer isso na vida”, afirma a cineasta, hoje aos 73 anos, que se tornou a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, o “Amor Maldito”, de 1984.

Adélia nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, Adélia estudou até a quarta série do ensino fundamental. Cresceu ao lado da mãe, que era empregada doméstica, e da irmã mais velha – o pai abandonou a família.

Com apenas quatro anos, se mudou para o Rio de Janeiro, pois a antiga patroa da mãe faleceu e uma das filhas da mulher decidiu levá-las para a cidade. “Mamãe, coitada, caiu numa cilada, era como escrava. Mas a senhora a tranquilizava dizendo que ia colocar a gente na escola para estudar”, lembra.

No entanto, assim que chegaram à capital fluminense, Adélia e sua irmã foram levadas para um internato. Após seis meses sem se ver, chegou o dia em que a mãe foi buscá-las no local para levá-las à casa da “senhora”. Algum tempo se passou e, um dia, a patroa mandou a empregada ir à feira. Sem avisá-la, arrumou a mala da cineasta e a colocou em um avião para ir até Belo Horizonte, de onde foi levada para uma cidade chamada Santa Luzia, em outro orfanato. Dos seis aos 13 anos ela permaneceu sozinha, sem saber quando poderia ver a mãe e a irmã novamente.

“Foi violento, doído e desolador. Me lembro de guardar o sapato que cheguei lá porque acreditava que só ele poderia me ajudar a encontrar minha mãe”, relata. Sete anos se passaram até que a mãe da cineasta conseguiu juntar o dinheiro necessário para buscar a filha.

“Ao quitar a dívida da escravidão, ela saiu da casa da ‘senhora’, alugou um quarto em Laranjeiras e, com a ajuda de um amigo, fazia ‘banquetes’. Então, tirou a minha irmã do orfanato e a colocou para trabalhar e estudar. Minha irmã trabalhava como secretária e revisora da empresa ‘Tabajara Filmes’, que trouxe para o Brasil os filmes russos”, completa.

Assim, já de volta ao Rio de Janeiro, a diretora e a família conseguiram se estabelecer na cidade, longe dos abusos da antiga “senhora”. Depois de se casar e ter dois filhos, Adélia começou a trabalhar na área que sonhava: o cinema. Ela virou telefonista da DiFilme em 1968, quando estreitou os laços com quem atuava no Cinema Novo. Mesmo após o marido ser preso e torturado pela ditadura militar, a mineira não desistiu de seus planos em adentrar neste meio.

Antes de se tornar diretora, Adélia desempenhou inúmeras funções dentro do set

Cinema, uma arte elitista

“O cinema é uma arte elitista. Mas eu, pobre, preta e com o primeiro grau escolar completo entrei na ‘dança’ para me tornar cineasta. Isso só foi possível porque a minha irmã, Eliana Cobbett [primeira mulher produtora de filmes no Brasil], fazia a produção executiva dos meus filmes”, diz.

Mas, antes de chegar à direção, Adélia precisou desempenhar inúmeras funções nos sets de gravação. Foi continuísta, claquetista, assistente de produção, assistente de direção, diretora de produção e assistente de montagem – tudo isso em mais de 70 produções.

Questionada sobre suas maiores referências ao longo da carreira, a cineasta cita dois filmes feitos por mulheres: o curta-metragem “Memória do Carnaval” (1976), de Alice Gonzaga, e o longa “O Ébrio” (1946), de Gilda de Abreu.

Já em 1979, Adélia conseguiu abrir uma pequena produtora, na qual realizou seu primeiro curta, intitulado “Denúncia Vazia”. O filme é baseado em uma história verídica de um casal de velhinhos que não conseguem pagar o aluguel e acabam cometendo suicídio. Depois, Sampaio fez outros curtas, como “Adulto Não Brinca”, “Agora um Deus Dança em Mim”, “Na Poeira das Ruas” e “Scliar, a Persistência da Paisagem”.

Durante toda a carreira, Adélia vivenciou inúmeras situações de machismo e racismo dentro do set, principalmente ao tentar dar mais visibilidade para profissionais negros. “Afinal, era uma preta no comando de tudo”, ressalta.

Essa falta de representatividade de mulheres e pessoas negras no cinema persiste até hoje. De acordo com uma pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), entre os filmes de grande público no Brasil (mais de 500 mil espectadores), dos anos 1970 a 2016, apenas 2% foram dirigidos por mulheres.

‘Amor Maldito’

Primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher negra no Brasil, “Amor Maldito”, de 1984, baseado em fatos reais, conta a história do amor entre duas jovens mulheres, a executiva Fernanda Maia (Monique Lafond) e a ex-miss, filha de um pastor evangélico, Suely Oliveira (Wilma Dias). Porém, Sueli se cansa do relacionamento e envolve-se com um jornalista. Após engravidar do amante, ele a abandona. Em desespero, a jovem se joga da janela do apartamento de Fernanda, que passa a ser acusada de homicídio.

‘Amor Maldito’, de 1984

O processo para a produção de “Amor Maldito” foi “lento e sofrido”, nas palavras da cineasta. O filme teve que ser todo rodado em um sistema de cooperativa entre os técnicos e atores, com apenas uma ajuda de custo paga para cada um, uma vez que a Embrafilme, estatal brasileira produtora e distribuidora até 1990, classificou o tema da obra como absurdo e não ofereceu qualquer financiamento.

À época, as produções eram lançadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, porém, na capital paulista nenhum cinema aceitou colocar o longa na programação. Então, ela decidiu procurar o dono do Cine Paulista, que gostou do filme e propôs que ele fosse anunciado como pornochanchada – gênero dominante nos anos 1980 – para que a divulgação pudesse acontecer. “Magalhães propôs para travestir o filme de pornô. Eu conversei com o elenco e todos concordaram. Queríamos que o público visse e entendesse nosso filme, acima de tudo”, afirma.

Apesar das barreiras, o filme conquistou o crítico Leon Cakoff, da Folha de S.Paulo, que publicou um texto elogiando a obra. O artigo fez com que o público fosse assistir ao longa e o dono do cinema decidiu exibi-lo em mais uma casa.

A mulher que reescreve a própria história

Depois de lançar seu primeiro e único longa como diretora, Adélia Sampaio seguiu na área em outros trabalhos, inclusive para ser assistente de direção de espetáculos teatrais de Miguel Falabella.

Para ela, mesmo após tantos anos, a representatividade das mulheres e dos negros no cinema cresceu muito pouco. “Agora temos Yasmin Tainá, Sabrina Fidalgo, Clemente, Viviane, e muitas outras, mas ainda é pouco”, reflete.

A cineasta, ainda hoje, convive com a tentativa da sociedade ocultar sua trajetória e importância para o cinema nacional. “Costumo dizer que passam uma borracha em minha história e eu calmamente a reescrevo”, diz.

Mas sua luta representa muito para quem passa a conhecer um pouco de sua vida. “Em uma palestra de faculdade, uma jovem negra se levantou e disse: ‘Não quero perguntar nada à senhora. Quero declarar que, desde que nasci, procuro um espelho para me guiar e neste momento achei. A senhora é o espelho que eu procurava”. Isso me derrubou. Fiquei atônita, feliz e com a certeza de que valeu a pena qualquer perrengue ou qualquer dor”, afirma.

Apenas nos últimos anos que Adélia passou a ser homenageada em festivais de cinema do país e convidada para dar palestras, tendo sua trajetória reconhecida. Depois de co-dirigir o filme “AI-5 – O dia que não existiu”, com o diretor Paulo Markun, lançado em 2001, ela não pensa em parar. “Tenho dois curtas em andamento e longas em busca de apoio. Quero deixar esse legado para meus netos e para a geração deles”, finaliza.