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Após sofrer violência sexual dentro do avião, jornalista denuncia empresa aérea

Crime ocorreu durante viagem entre Etiópia e Inglaterra; confira o relato

Por: Redação | Comunicar erro

Em todo o mundo, a luta da mulher por igualdade de direitos e respeito ganhou força com a popularização das redes sociais. Foi o caso da jornalista pernambucana Juliana Holanda, que por meio de um relato no Facebook pôde expor um trauma compartilhado entre milhões de mulheres – independente de sua etnia, credo, cor ou nacionalidade – após viver uma situação de violência sexual.

Tudo começou quando a jornalista embarcou em um avião da empresa aérea Ethiopian Airlines, em Addis Ababa, na Etiópia, com destino a Londres. Sentada ao lado de um homem, divididos por um assento desocupado, Juliana escutava música em seu fone de ouvido após uma cansativa maratona de viagens de mais de 24 horas. Após as luzes da aeronave se apagarem para o repouso dos passageiros, Juliana reparou em uma estranha movimentação do sujeito ao lado. Não teve dúvida quando ele virou e passou a se masturbar em sua direção.

Reprodução
Juliana Holanda entrará com uma ação contra a empresa etíope por danos morais

Ao abrir os olhos, percebeu que o homem se aproximava tentando tocá-la. Rapidamente se levantou e tentou buscar ajuda da tripulação. Bebeu água, em meio a um choro misturado de raiva, vergonha e impotência. Sem testemunhas, as comissárias alertaram que não havia muito que fazer. Sentou-se em um novo lugar durante o resto da viagem. Mas a distância não foi capaz de apagar as cenas do abuso.

Chegando ao seu destino, Juliana saiu escoltada por um grupo de brasileiros que conhecera antes da viagem. Uma semana depois, decidiu entrar em contato com a Ethiopian Airlines. Passados 30 dias, recebeu um email da empresa, afirmando que a responsabilidade era dela por não ter entrado em contato com a polícia inglesa. Procurou então a Heathrow Police Station, que conseguiu identificar o agressor, que foi interrogado, mas solto por falta de provas.

O Catraca Livre entrou em contato com Juliana, que por telefone afirmou ter conseguido ajuda de um advogado após a publicação do relato nas redes sociais.

Agora, a jornalista disse que entrará com uma ação contra empresa etíope. “O que mais causou indignação foi o tratamento da empresa, o desrespeito com toda a situação. É importante levar isso à frente porque pode acontecer com qualquer pessoa, já que não dão a mínima para o direito da mulher”. A ação será movida por danos morais.

[tab: Confira o relato de Juliana]

“Passei alguns dias até ter coragem de escrever esta história. Sei que é muita exposição, mas é um absurdo que as mulheres continuem sendo tratadas desta forma em pleno século XXI. Até quando seremos silenciadas diante de abusos e de agressores? Por favor, COMPARTILHEM, me ajudem a divulgar.

Sexta-feira, 3 de julho de 2015. A data deveria ter entrado na minha vida como a chegada na Inglaterra para realizar um curso de qualificação profissional e acadêmica. O que eu não contava é que também seria o dia em que eu sofreria uma violência sexual durante a viagem.

O voo ET 700 da Ethiopian Airlines saiu de Addis Ababa 01h20 da manhã e chegou em Londres 06h50 (ambas referências constam na passagem e estão no horário de cada local). Eu estava viajando há mais de 24 horas e apesar de muito cansada não consegui dormir nesse voo. Fiquei apenas de olhos fechados, escutando música no fone de ouvido. Foi a minha sorte. Eu estava na poltrona da janela (34L). Um homem estava na cadeira do corredor e a poltrona entre nós estava vazia. Algumas horas após a decolagem, as luzes estavam apagadas para os passageiros dormirem. O homem que estava ao meu lado começou a se masturbar virado em minha direção. Notei o movimento da cadeira e abri os olhos sem acreditar no que estava acontecendo. Nesse momento, ele estava tentando pegar em mim.

Tirei o cinto de segurança, me levantei o mais rápido que pude e saí correndo para a frente do avião. Contei o que havia acontecido para a aeromoça e tive que insistir para sentar em outro lugar. Pedi para falar com a pessoa responsável pelo voo e não chamaram. Comecei a chorar de susto, raiva, vergonha, impotência, tudo misturado. Chamei outra aeromoça, contei o que tinha acontecido, pedi água e pedi para chamar a responsável pelo voo. Me deram água, não chamaram ninguém. Na terceira tentativa, a responsável chegou.

Começou a me perguntar o que tinha acontecido ali mesmo, na frente das pessoas. Eu expliquei. Ela perguntou se eu tinha testemunhas. Eu disse que as luzes estavam apagadas e as pessoas ao redor estavam dormindo. Ela disse que sem testemunhas ela não poderia fazer nada. Para chamar a polícia quando chegássemos em Londres, eu precisaria de testemunhas ou de ter sido estuprada para ter evidências físicas do ataque.Ela foi até o local para ver quem era o homem, voltou e disse que ia escrever uma ocorrência para a empresa. Passei o resto do voo nesse lugar distante do agressor, me sentindo totalmente incapaz.

Na saída, fui escoltada por um grupo de brasileiros que eu havia conhecido antes do voo. Eles me acompanharam por todo o aeroporto porque tivemos que percorrer o mesmo caminho do agressor. Precisei de uns dias para me recuperar do ocorrido. Uma semana depois, escrevi para a Ethiopian Airilines. Foi um e-mail coletivo para mais de 20 endereços que encontrei no site. Não tive nenhuma resposta oficial da empresa. Apenas um funcionário ficou consternado com a situação e me escreveu pedindo desculpas. Cerca de um mês depois do incidente, no dia 30 de julho, recebi um e-mail da empresa dizendo que a culpa era minha, porque eu que não quis chamar a polícia nem levar o caso adiante.

Ainda na Inglaterra, entrei em contato com a polícia do Reino Unido. Prestei queixa formal na Heathrow Police Station. A policial que trabalhou no caso conseguiu identificar o agressor e ele foi preso hoje e levado à delegacia para prestar depoimento. Como ele disse que passou o voo inteiro dormindo, ele foi solto e vai ficar por isso mesmo.

Ainda estou procurando um advogado para colocar a Ethiopian Airlines na justiça. Eles merecem seja penalizados por tratar as mulheres tão mal e por permitir que um crime dessa natureza ocorra em um de seus aviões. Uma empresa que não se responsabiliza pela segurança de seus passageiros não merece estar no mercado. Que tipo de empresa diz que uma mulher precisa ser estuprada para ter acesso a seus direitos? Me sinto duplamente abusada. Primeiro, pelo agressor. Segundo, pela Ethiopian Airlines.”

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