As Bahias retrata violência contra LGBTTT’s em novo clipe

Em entrevista, As Bahias e a Cozinha Mineira falam sobre o atual momento do país, afetividade e representatividade trans na política

Por: André Nicolau | Comunicar erro
Com apenas dois discos independentes lançados, o grupo já teve seus méritos reconhecidos. Em 2018, ganhou dois troféus no 29º Prêmio da Música Brasileira: “Canção Popular – Grupo” e “Canção Popular – Álbum”, com o disco “Bixa”.

Em um país cujo debate sobre gênero se limita à estigmatização de cores, a bandeira do orgulho trans, representada pelas tonalidades azul, rosa e branco, se tornou símbolo de resistência.

Nesta terça-feira, 29, é lembrado o Dia da Visibilidade Trans no Brasil. Talvez em um dos cenários mais urgentes para a reivindicação de seus direitos, diante do avanço da transfobia que, nos últimos dez anos, atingiu a maior taxa de mortes de travestis, transexuais e transgêneros no país: uma vítima a cada 48 horas.

Realidade, no entanto, que não impediu o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de assinar, no segundo dia de 2019, a Medida Provisória de nº 870/19, que retirou a população LGBT da lista de políticas e diretrizes destinadas à promoção dos Direitos Humanos.

E se no Brasil dos novos velhos tempos, existir se tornou sinônimo de resistência, é nos palcos da vida, e além dele, que as Bahias e a Cozinha Mineira se faz presente.

Na última sexta-feira, 25, o trio formado por Assucena Assucena (vocal), Raquel Virginia (vocal) e Rafael Acerbi (guitarra) lançou o primeiro single e videoclipe do novo trabalho, “Das Estrelas”,  que faz parte do terceiro álbum do grupo, a ser lançado pela Universal Music.

O clipe, dirigido por Rafael Carvalho, retrata a violência contra pessoas LGBTTT- Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

Em cena, a atriz Renata Carvalho protagoniza um aparente caso de amor cujo desfecho descortina o cenário de violência, preconceito e solidão tão presente no mundo transgênero.


Além dos palcos 

Para promover o debate além do palcos, o trio saiu às ruas de São Paulo propondo uma reflexão. E, ao citarem a frase “Amai ao próximo como a ti mesmo”, questionavam anônimos: afinal, o amor é universal? A ação fez parte da campanha de lançamento do novo clipe e resultou comoventes depoimentos e relevantes reflexões sobre o assunto.

Para encerrar, a Catraca Livre trocou uma ideia com a banda sobre o atual momento do país, afetividade e representatividade trans na política. Confira a conversa:

  • Semanas antes do segundo turno das eleições, uma travesti foi morta a facadas no centro de São Paulo, sob gritos de “Bolsonaro presidente”. Num cenário que sinaliza o retrocesso de pequenas vitórias conquistadas nos últimos anos, o que esperar do Brasil dos dias atuais?

Rafael: O Brasil é o país no mundo com a maior taxa de assassinatos de pessoas Trans e travestis. Um país com enormes taxas também de violência a população negra.

Todas os avanços conquistados no universo dos direitos humanos são fruto de lutas muito antigas que se somam no processo histórico. Não será diferente agora.

Existe uma postura visível e cada vez maior de recrudescimento a todas as pessoas que “desviem” de um eixo heteronormativo e cisgenero de vida. Isso significa a não aceitação de qualquer outra forma de existencia. De negação a cidadania e a própria existência a essas pessoas

Serão anos difíceis daqui pra frente porém nada de muito novo para essa população que mesmo em governos progressistas continuou morrendo e sofrendo as mesmas violências. Lógico que agora a situação é pior e poder piorar mais com um governo que praticamente institucionaliza abertamente a sua lgbttfobia e racismo.

Como artistas representantes diretos de um eixo LGBTT da música, temos noção da importância do que representamos e da relevancia em continuar levantando nossas bandeiras através do nosso discurso e da nossa arte.

  • O clipe de “Das Estrelas”, além de retratar a questão da violência contra a população LGBTTT, também aborda a relação afetiva que envolve o universo trans. Quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres em um relacionamento?

Assucena Assucena: O maior desafio é ter um relacionamento, porque 99,9% das mulheres trans não tem relacionamento, e se tem, não é estável e público. Os parceiros ou parcerias geralmente escondem o fato de se relacionarem com uma mulher trans. Publicizar um relacionamento como esse, pode levar o limite do assassinato de vidas trans.

  • Em 2018 o Brasil elegeu as candidatas trans Erika Malunguinho e Erika Hilton (Bancada Ativista) em São Paulo e Robeyoncé Lima (Juntas), em Pernambuco, a um cargo no poder legislativo estadual. O que representa esses nomes em um momento político tão hostil ? 

Raquel: É extremamente significativo que minorias políticas estejam representando nossas falas e nossos interesses nestes espaço de poder!

Pessoas Trans que sofrem mazelas onde temos o alarmante dado de que o Brasil é o que mais mata travestis em todo planeta, faz-se fundamental a presença destas mulheres e isso significa uma conquista sem precedentes para pautas trans.

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Autor: André Nicolau

Repórter de Urbanidade e editor da seção Emprego no site

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