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Aula de surdo

Por: Redação

Portadora de síndrome de Down, Fernanda Aparecida Pires, 30, encontrou refúgio na música -aprendeu a tocar flauta doce. Em 2007, o prazer porém, virou uma decepção. Seu pai, Sérgio, um motorista particular, não conseguia mais mantê-la na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). “Não conseguia mais pagar o transporte dela”, lamenta. Além de Fernanda, ele tem de manter outra filha, Cristina, que, durante o parto, sofreu uma convulsão cerebral e perdeu a autonomia -a convulsão afetou seus movimentos e a sua memória.

Fernanda ajuda diariamente a cuidar da irmã, dando-lhe banho e comida. A mãe, Ednéia, tem hérnia de disco e não consegue ficar muito tempo em pé.

Sua vida ficou restrita à casa. Até que, no ano passado, ocorreu algo que lhe pareceu um milagre. Exatamente na rua em que Fernanda mora, em Pinheiros, abriu uma escola de música (Projeto Guri) -e de graça. “Mudou minha vida”, conta. Não sabia que estava a caminho de mais uma decepção. Fernanda não se incomodou com a falta de uma professora de flauta doce. Começou a estudar baixo e percussão, tudo isso a poucos metros de sua casa.

Fez amigos “normais” e tocava em apresentações na praça em frente à escola. Eram momentos que ajudavam a compensar o isolamento doméstico.”Sinto-me livre. É como se meu corpo se sentisse mais leve, melhor.” A música também serviu de consolo emocional. Ela namorava com um jovem (Felipe), também portador de síndrome de Down, com quem estudou na Apae. “Ele é muito mulherengo”, reclama, com um toque de humor.

Para este ano, seu projeto era dedicar-se ao aprendizado do surdo. “É uma emoção aquele som, aquela batida.” Foi surpreendida, neste mês, com a informação de que não apenas não podia aprender surdo nem qualquer instrumento no Projeto Guri, programa criado para gerar inclusão social pela música.

Disseram-lhe que, por ter mais de 18 anos, não podia mais frequentar a escola. “Não entendem que minha filha tem uma idade mental de criança.” O pai não sabe a quem apelar. Só lamenta que viu Fernanda perder um prazer.

Fernanda ainda tem esperanças de voltar para as aulas musicais. Enquanto isso não acontece, ela tenta desenvolver as habilidades artísticas. Uma delas é o desenho. Ela guarda em uma pasta todas as pinturas -e a arte já é reconhecida na família. Na casa do irmão mais velho -Sérgio, em Presidente Prudente, interior de São Paulo- há uma tela de quase dois metros quadrados, pintado por ela. “Quando eu conto que ela tem síndrome de Down, as pessoas não acreditam”, orgulha-se o irmão.

O tempo também é preenchido pela confecção de pulseiras de miçanga. Sempre que possível, ela sai pela rua onde mora e tenta faturar com sua produção. Cada desenho ou cada pulseira saem ao custo de R$ 2. Às vezes, dependendo do cliente, ela consegue vender a R$ 5.

É apenas um passatempo até a hora de voltar a tocar -afinal, na sua ingenuidade dos meandros da burocracia, ela não conseguiu entender por que não poderia aprender a tocar surdo.

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