Dizer que o videogame gerou o massacre de Suzano é irresponsável

O que levou Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro a cometerem tais crimes bárbaros?

Por: Maurício Costa | Comunicar erro
suzano videogame
Crédito: reproduçãoOs videogames são muito mais um reflexo da sociedade violenta, do que a causa dela

Muito foram apontados culpados pelo massacre de Suzano (SP), que resultou na morte de 10 pessoas. Mas um deles em específico é a saída perfeita para lavarmos nossas mãos e, talvez por isso, tenha sido o mais citado nas redes sociais: o videogame.

Em meio às declarações de pêsames e solidariedade que tomaram conta da internet nesta quarta-feira, 13, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que “os jovens de hoje em dia estão muito viciados em jogos violentos”.

A frase do general induz seu eleitorado a pensar que os games são uma das causas de uma sociedade violenta. Se isso fosse verdade, precisaríamos saber se Hitler jogava PlayStation ou XBox.

A reflexão sobre o caso deveria ir por outro lado: afinal de contas, por que os jovens de hoje em dia estão viciados em violência?

Os games são apenas um reflexo da demanda sanguinolenta que se instaurou em nossa sociedade.

  • Por que programas de investigação policial são um sucesso?
  • Por que reportagens como as do massacre em Suzano dão mais audiência do que publicações sobre amor, sobre empoderamento, sobre solidariedade?
  • Por que jogos de violência fazem mais sucesso que outros?

A resposta é muito complexa e nada definitiva. Mas podemos fazer algumas análises e esmiuçar os fatos na tentativa de entender o que levou Guilherme Taucci Monteiro, Luiz Henrique de Castro e outros agressores a cometerem tais crimes bárbaros.

BULLYING

Primeiro a gente tem que chegar a um consenso: bullying não é mimimi. Não importa se você sofreu bullying na infância e tornou-se um adulto de sucesso. Como diria sua própria mãe, “você não é todo mundo”.

Precisamos sair da análise micro e levar a um âmbito macro.

O bullying ridiculariza, gera repressão, exclui. E nem todo jovem consegue assimilar isso numa boa – muito pelo contrário.

Uns criam dentro de si uma espécie de motivação vingativa: mostrar que os jovens que cometeram bullying estavam errados e, portanto, merecem punição. Como nem sempre há uma punição para o bullying, as vítimas optam por resolver com as próprias mãos.

FACILIDADE DO ACESSO ÀS ARMAS

Temos uma lei penal dura com relação ao porte de armas. Mesmo as alterações de Jair Bolsonaro (PSL) no Estatuto do Desarmamento, em vigor desde 2003, não facilitaram o acesso às armas da forma como se previa. Foi muito mais comedido.

Então, por que há tantas armas nas mãos de pessoas como Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro?

Existe um oceano de armas ilegais nas mãos de criminosos, muitas vezes repassadas por milicianos, passíveis de apreensão. E se não há um controle sobre isso, é aí que deveria estar o foco da polícia.

Mas muita gente poderia perguntar: ora, se não fosse uma arma de fogo, eles poderiam estar com armas brancas. Sim, mas o resultado seria muito diferente. O número de mortos e feridos seria menor. A arma de fogo é o meio mais fácil e certeiro para matar.

Há, ainda, quem defenda que, se funcionários da escola estivessem armados, o dano poderia ser menor.

Pesquisas e especialistas em criminalística dizem o contrário. Em entrevista ao Correio Braziliense, a especialista em segurança pública e professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), Marcelle Gomes Figueira, rechaça esse argumento.

“Se você aumenta o acesso às armas, a tendência é que possa ter mais eventos envolvendo armas de fogo. É uma relação muito direta. (…) A sociedade já tem uma grande quantidade de armas e a violência está relacionada à disponibilidade dessas armas. Já temos uma lei penal dura e o endurecimento não tem trazido resultados”, afirma.

O HOMEM E A VIOLÊNCIA

Quando analisamos casos similares aos de Suzano que aconteceram no Brasil, um ponto em comum chama a atenção: todos (t-o-d-o-s) os crimes foram cometidos por homens.

Realengo, Medianeira, Janaúba, Goiânia, João Pessoa, São Caetano do Sul, Taiúva e Salvador. Todas essas oito cidades, além de Suzano, passaram por episódios de massacre dentro de escolas. Em 100% dos casos, os assassinos foram homens.

A violência sempre esteve muito atrelada à condição do macho alfa. A sociedade exige que o homem tire satisfações, resolva tudo na porrada, mostre-se mais forte que o outro, seja superior. Caso contrário, é fraco, é marica, é pau mandado.


Falta-nos fazer um mea culpa. Deixamos a sociedade chegar a um ponto em que a violência é normalizada. Talvez por isso apontar o videogame como algoz seja tão fácil: evita que olhemos para dentro de nós mesmos e enxerguemos a podridão que nos consumiu.

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Autor: Maurício Costa

Coordenador de Tempo Real. Libriano com traços piscianos. Amante da praia e do concreto. Rolês no centro de São Paulo são os meus preferidos.

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