‘É uma luta diária’, diz trans que criou rifa para mastectomia

Antes de realizar a transição de gênero, Carlos Vitor dos Santos teve depressão e tentou se suicidar duas vezes

Por: Heloisa Aun Comunicar erro
carlos, homem trans, usando faixa nos seios
Crédito: Arquivo PessoalO sonho do jovem trans é realizar a cirurgia e poder se olhar no espelho sem camisa

Segunda-feira, 6h20 da manhã. Carlos Vitor dos Santos, de 22 anos, sai de casa, entra na van disponibilizada por sua empresa em Cruzeta, cidade de 7 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte, onde mora, e parte rumo ao município vizinho, São José do Seridó, localizado no mesmo estado. A rotina se repete até sexta-feira, e a dificuldade para sair de casa também, mas não por causa do cansaço. “É uma luta diária. Viver é complicado e exige muita força”, afirma o rapaz, que é transexual, em entrevista à Catraca Livre.

Carlos faz o possível para esconder o peito, parte de seu corpo que o incomoda e traz recordações da falta de identificação com o gênero de nascimento e do apoio praticamente inexistente de sua família. “Às vezes é necessário usar duas camisas ou a faixa [binder] por cima da ferida causada pela fita adesiva [grudada no corpo para diminuir o tamanho dos seios]”, relata.

Nascido e criado em um sítio na zona rural do município, o grande sonho do jovem é fazer a mastectomia masculinizadora, ou seja, retirar o que tanto mal lhe faz e não precisar mais se machucar diariamente. Para realizar a cirurgia, ele está vendendo uma rifa entre amigos, parentes e conhecidos. Publicada numa rede social, a história gerou grande repercussão e fez com que sua prima criasse uma vaquinha online para que mais pessoas, de outras cidades e estados do país, o ajudem.

O valor necessário a ser arrecadado para a cirurgia é R$ 10 mil, mas cada pessoa pode contribuir com o dinheiro que quiser. Quer colaborar com a campanha? Saiba mais neste link.

‘Eu sou um menino’

Aos sete anos de idade, Carlos já dizia a todos que era um menino. “Quando eu falava isso, perguntavam porque eu não tinha o ‘pintinho’ igual dos meninos”, lembra. Também nesta época, ele andava sem camiseta e, ao ganhar bonecas, cortava ou raspava o cabelo delas para transformá-las em garotos. “Minha mãe chegou a me bater, pois eu fazia xixi em pé, e ela insistia em fazer penteados femininos em mim, mesmo que eu tirasse no mesmo minuto. Não queria o meu cabelo daquele jeito.”

A infância conturbada e sem apoio psicológico resultou em uma depressão aos 9 anos. “Eu fui imposto a coisas que não queria, que me deixavam triste. Eu tive depressão porque me apaixonei por uma menina e, na escola, disseram que eu estava apaixonado por um menino. Eu só chorava, chorava… E já queria morrer naquela idade”, conta, emocionado.

Segundo o jovem, durante o processo de autoaceitação na infância e na adolescência, ele não tinha conhecimento sobre o que é ser trans e não sabia o que estava acontecendo. “Eu me sentia um E.T. até chegar nessa conclusão. As pessoas insistem em falar que isso [ser trans] é uma escolha. Quem escolhe sofrer?”, questiona. A mudança para a cidade o fez partir em busca de informação e entender, finalmente, que era uma pessoa trans.

O potiguar iniciou a transição para o gênero masculino, com terapia hormonal, quando já tinha mais de 18 anos, no final de 2016. “Eu fiz minha transição sozinho.” Por ser maior de idade, sua mãe não o questionou a respeito da decisão. Isso não quer dizer que ele tenha recebido algum apoio das pessoas de seu círculo social. Muitos amigos se afastaram, diziam que era “besteira” e que não iam chamá-lo pelo nome social.

“Minha mãe não aceita até hoje. Ela tolera, porém, não me chama pelo meu nome [social], fala comigo em público como se eu fosse uma menina. Eu não sou uma menina. E minha irmã é igual a ela”, explica. “Eu me considero uma pessoa sozinha. Mas eu não preciso de ninguém para apoiar. Eu estou só e vou concluir só.”, completa. Mesmo assim, ele mora ao lado dos pais porque, independentemente de tudo, “os ama muito”.

O único parente que de fato sempre apoiou o rapaz é sua prima, Tielly Geovana, que já chegou a impedi-lo de cometer suicídio. “Ela me viu em uma situação horrível, segurou minha mão e disse: ‘Não, você vai continuar e vencer’.”

Para Carlos, o mais difícil de todo o processo foi contar para sua mãe, com quem nunca teve uma relação muito profunda. “A gente sempre brigou muito”, afirma. Até hoje, ela não aceita o gênero com o qual o filho se identifica. “Um dos piores momentos foi quando eu pedi ajuda na minha cirurgia e praticamente ninguém da minha família me ajudou. Foram poucos os que me deram a mão de fato.”

“A transição é dolorosa, especialmente quando você não tem apoio. Eu vou viver por mim e a minha cirurgia é uma das coisas que eu mais quero, independentemente se vão me julgar. É meu sonho, é minha vida, são minhas regras”, conclui.

carlos, homem trans, usando faixa nos seios
Crédito: Arquivo PessoalCarlos usa uma faixa [binder] para esconder os seios

Um homem trans em Cruzeta

Carlos é o único homem trans entre os 7 mil habitantes de Cruzeta, sendo que a grande maioria deles o conheceu antes da transição. Por tal motivo, ele é vítima de agressões recorrentes, como olhares de julgamento ou por ainda hoje o tratarem no feminino e pelo nome de registro. “Já chegaram a falar que eu estou possuído pelo demônio. Eu não estou nem aí. Se eu não for feliz, se eu não for eu mesmo, quem vai ser por mim? Ninguém.”

A violência, no entanto, também já foi sentida na pele. No Carnaval deste ano, ele foi espancado porque estava sem camisa. “É doloroso, é triste. As pessoas não têm empatia, parece que sentem prazer em ver o outro mal. Eu aprendi a não absorver isso. Eu sei quem eu sou e a minha masculinidade não será afetada por isso.”

De acordo com ele, ser homem trans é “ser homem duas vezes” por conviver em uma sociedade cheia de padrões, misógina e arrogante. “Não é porque eu nasci assim que tenho que ser assim. Isso não existe. Não nasce homem, torna-se homem. Não nasce mulher, torna-se mulher. Vai além de sua genitália. Ser homem não é ter um pênis”, enfatiza.

Suicídio

Perder seu melhor amigo há nove anos, ver outra amiga morrer algum tempo depois, não ser aceito pelos pais, ser vítima de julgamentos diários, andar na calçada de sua cidade e as pessoas atravessarem a rua como se ele fosse um “monstro” e acreditar que não conseguiria realizar a cirurgia para a retirada das mamas. Todos esses fatos desmotivaram Carlos ao longo dos anos e o fez tentar se suicidar duas vezes.

Apesar de tudo, ele conseguiu se motivar novamente sozinho. “Eu botei na minha cabeça o seguinte: vou fazer a cirurgia para mim. Se alguém quiser me aceitar, aceite, se não quiser me aceitar, não aceite”, reflete o jovem.

Além disso, o rapaz ressalta que está solteiro há algum tempo também devido ao preconceito das pessoas. “Elas se importam muito com o que você tem entre as pernas. O que importa é quem você é. Eu sou Carlos, independentemente  do que eu tenho ou não. Não preciso que ninguém me aceite, mas eu quero que me respeitem, porque a minha existência não vai ser silenciada por ninguém.”

marcas no corpo do rapaz, causadas pela fita adesiva
Crédito: Arquivo PessoalUsada para esconder os seios, a fita adesiva causa ferimentos no corpo do potiguar

Mastectomia

O salário de R$ 998 que Carlos recebe não é o suficiente para juntar dinheiro e fazer a mastectomia. Sem outra possibilidade, ele teve de pensar em uma estratégia para conseguir se olhar no espelho novamente. Foi assim que surgiu a ideia de vender a rifa, que abateria apenas metade do valor da cirurgia. “Muitas pessoas nem estão comprando pelo prêmio [composto por um relógio, um boné e R$ 100], é mais para me ajudar. A outra metade do valor vai ser no ‘Deus nos ajuda’. Eu acredito que vai dar certo. Eu estou correndo atrás do meu sonho.”

arte da rifa
Crédito: Arquivo PessoalO prêmio da rifa é composto por um relógio, um boné e R$ 100

Para ajudar, sua prima criou uma vaquinha online. Caso eles arrecadem mais do que o necessário, o rapaz trans planeja doar o restante para uma ONG de direitos dos animais. “Eu tenho muito carinho pelos animais. O meu gato, por exemplo, é o meu antidepressivo, porque ele me dá atenção, me consola. Eu me sinto amado.”

A mastectomia, para o potiguar, vai muito além da estética, como muitas pessoas acreditam. Segundo ele, será o dia mais feliz de sua vida, pois poderá se olhar no espelho sem camisa, tocar em seu peito sem ficar agoniado, ir à praia, tomar banho de piscina. “Eu quero parar de usar fita, eu quero parar de me machucar. Eu só quero paz”, finaliza.

Por: Heloisa Aun

Repórter de Cidadania na Catraca Livre. ("nossas costas / contam histórias / que a lombada / de nenhum livro / pode carregar" - Rupi Kaur)

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