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A história de sorte da travesti que chegou à terceira idade

'A vida das pessoas é entremeada por sorte. Eu sou um resultado de sorte', diz Thaís de Azevedo

Por: Lucas Galdino

Aos 67 anos, Thaís de Azevedo pode se considerar uma mulher de muita sorte. Tanto pode, que se considera. A travesti da terceira idade é a exceção à regra quando falamos sobre expectativa de vida de mulheres trans no país, uma vez que a idade média nacional para pessoas cis é estimada pelo IBGE em 75,2 anos, enquanto para as mulheres “T” a estimativa cai para menos da metade: 35 anos.

Apesar de “sortuda”, Thaís não teve uma vida tão fácil assim e também viveu (e vive) à margem da sociedade. Sofreu preconceito antes mesmo de entender quem era; foi expulsa do local de trabalho por ser travesti; enfrentou a ditadura; saiu do país e encarou o mundo da prostituição. Ainda assim, com todos os altos e baixos de suas quase sete décadas de vida, a técnica em enfermagem e socioeducadora do Centro de Referência da Diversidade (CRD) tem orgulho de ter chegado onde chegou hoje.

Thaís de Azevedo, 67 anos, é travesti e socioeducadora do Centro de Referência de Defesa da Diversidade, no centro de São Paulo

Antônio Gabriel

Nascida em Várzea da Palma, interior de Minas, Thaís é a mais nova dos 13 irmãos nascidos de uma família nada tradicional para a época. Isso porque seu pai, um homem branco e rico, fora deserdado após ter se casado com uma mulher negra e pobre. Foi denominada Antônio Gabriel de Azevedo assim que nasceu e, até seus 14 anos, tudo era como mandava o roteiro: uma infância feita de banhos no rio e montarias a cavalo “no pelo”. Vivia uma vida fabulosa, sem grandes problemas e zero preconceito, como ela mesma defende. Até que chegou a hora de ir para o Rio cursar o colegial – o mesmo que o Ensino Médio de hoje – na casa de uma tia, onde ela se deparou pela primeira vez com a discriminação.

Enquanto morava no interior de Minas, Thaís jamais sofrera nada e era tratada com naturalidade por seus irmãos mais velhos e pela comunidade da qual fazia parte, mesmo sendo uma criança com um lado feminino aflorado ou quando brincava de bambolê e pulava corda, brincadeiras banais hoje, mas que eram voltadas exclusivamente para meninas naquela época. Época essa em que não só as brincadeiras eram generificadas, ou seja, designadas de acordo com o seu gênero, uma vez que, em meados dos anos 1960, homens não entravam na cozinha por se tratar de “um lugar de mulher”, por exemplo.

Com a mudança para o Rio de Janeiro, a história passou a ser outra e as palavras “viado” e “gay” começaram a fazer parte do seu dia a dia, tornando a Cidade Maravilhosa não tão maravilhosa assim. O fato de ser uma mulher negra piorava as coisas, ainda mais porque Thaís estudava em um dos colégios particulares mais caros da época.

Negra, afeminada e novata, sofrera com os alunos e até mesmo com os professores. Ficou isolada e se sentia dentro de uma bolha. Mas era em sua nova casa que Thaís mais sofria. Sua tia era extremamente homofóbica e, para tentar ridicularizá-la, como o menino cis que ainda era, demitiu uma de suas empregadas e a botou para fazer faxina. Atitude inadmissível para um homem. Onde já se viu um marmanjo fazendo trabalho de uma mulher?

Mas engana-se quem imagina que Thaís se importava. “Adorava fazer faxina, me dava status de mulher”, comenta. Seu único incômodo era magoar seus irmãos, a quem Thaís sempre se reporta com imenso carinho e gratidão, e que moravam com ela no Rio. Por vergonha, decidiu fugir. Mas não só.

Morre Antônio Gabriel, nasce Thaís

No meio tempo em que sofria com o machismo, a homofobia e o racismo dentro de casa e da escola, aos 14 anos Thaís conhecera um taxista na porta do colégio e logo se tornaram amigos. Alguns muitos passeios de carro depois, o relacionamento entre os dois se tornou uma espécie de namoro. O homem, quase 30 anos mais velho, a levou para a casa de uma senhora que vendia quentinhas nas “zonas”, ruas fechadas por tapumes no centro do Rio de Janeiro onde muitos homossexuais e travestis faziam programa durante a noite.

Em troca de casa e comida, Thaís ia vender as quentinhas para esta mulher, também cuidava da casa da senhora e ajudava nos estudos de seu filho, um garoto de nove anos de idade. Mas logo desistiu _ da rua porque o assédio nas zonas a deixava desconfortável e da casa porque se sentia uma escrava. “Eu só tinha 14 anos e era extremamente inocente, aquela vida de trabalho gratuito era degradante”, lembra. Pudera, vindo de uma família extremamente protetora, a proximidade com a vida marginalizada da prostituição e do serviço doméstico a troco de teto a assustou.

Ao sair do primeiro “emprego” trocou seis por meia dúzia: a rua pelo bordel. Não para trabalhar como prostituta, na casa ela era uma “faz-tudo” também: lavava, engomava, trocava os lençóis assim que as garotas terminavam o programa; fazia um serviço, como ela mesmo diz, “sobre-humano”, com direito a deformação no tórax e perda de peso – aos quase 15 anos, com seus mais de 1,70 m, Thaís pesava apenas 49 kg. Mas, apesar de todas as mazelas, existia um porém. No bordel, ela podia assumir finalmente sua identidade, e foi a partir daí que começou a tomar hormônio, deixar o cabelo crescer, ir “matando” aos poucos o Antônio e passando a dar vida e forma à Thaís.

Aos 17, a mineira foi indicada para uma vaga de copeira em uma butique, mas era tão bonita que a dona da loja a convidou para ser vendedora. “No primeiro dia eu ‘bar-ba-ri-zei’ nas vendas e recebi o convite para continuar na vaga”, se gaba. Com um mês, conheceu um cliente paulistano que a “roubou” para trabalhar como vendedora e manequim em sua loja, no Shopping Ibirapuera. Lá ficou por três anos.

Das passarelas às ruas

Por conta de seu porte magro e alto, sua cor e sua elegância, Thaís roubava a cena dentro do centro comercial, por onde desfilava com as roupas da loja para promover a marca, atraindo assim homens e mulheres à sua vitrine. Sua estratégia de marketing causava inveja nas outras vendedoras, inclusive sua gerente, que acabou por espalhar no shopping que ela era travesti. A fofoca causou tanto alarde que as mulheres fizeram um abaixo-assinado contra Thaís, além de mandar homens à sua loja para agredi-la.

Com sua carreira de vendedora-modelo na butique do centro comercial barrada pela transfobia, a garota, agora aos 21 anos, trabalhou por um tempo como vendedora em uma loja na rua Augusta, mas o salário era baixo e acabou se deparando pela primeira vez com a prostituição como forma de trabalho. E foi na rua Minas Gerais, em Higienópolis, que fez seu primeiro programa. “As meninas me indicaram o rapaz, o local, tudo”, lembra.

Thaís foi expulsa do shopping onde trabalhava como vendedora após descobrirem sua identidade de gênero

Aos sábados e domingos, Thaís fazia seus programas na Minas Gerais, fez uma grande amiga, Sueli, e também se deparou com a Operação Tarântula, que caçava travestis durante o regime militar (1964-1985). Comandada pelo delegado Guido Fonseca, a operação declarava que toda travesti devia ser levada à delegacia para que fosse fichada e tivesse sua foto tirada “para que os juízes pudessem avaliar seu grau de periculosidade”. A coisa foi ficando tão fora de controle que Sueli, já na mira de Fonseca, foi para a Europa atrás de uma vida mais digna dentro da prostituição, enquanto Thaís continuava em sua jornada dupla: vendedora e prostituta.

Certo dia, Sueli liga para a colega aqui no Brasil e a convida para se juntar a ela na França. Algum tempo depois, a instabilidade social pesou e logo Thaís está na França, apenas com cem dólares em mãos e um francês fluente – aprendido em sua infância com seus irmãos -, mas sem prática. Encontrou a amiga e, ao passar dos anos, foram almejando um status alto dentro da prostituição, pois, diferentemente das travestis europeias, as brasileiras tinham atributos femininos reais, como peito, cabelo, “enquanto lá elas eram homens que apenas colocavam uma peruca, passavam maquiagem e iam se prostituir”, descreve.

Puta assistencialismo

Nos anos 1980, Thaís foi ficando conhecida na sociedade europeia. Viajou para diversos países, como Suíça, Espanha e Itália, cursou moda e seu lado assistencialista foi se aflorando. Por ter fluência em francês, a travesti começou a ser tradutora não-oficial das garotas pegas pela polícia. “Salvei muitas meninas porque as defendia diante dos policiais e juízes, e garantia-lhes os direitos para não sofrerem tanto com a deportação”, conta.

Esse comportamento social se manteve quando voltou para o Brasil, no fim dos anos 1980, quando o país saía da ditadura militar e entrava de cabeça – junto com o resto do mundo – na epidemia da Aids. O que Thaís classifica como um inferno maior do que o regime militar. “Eu morava no Arouche e tinha uma padaria que a gente vivia por lá, tomava café, pegava fiado… com o boom da Aids, começou o preconceito. Serviam café pra gente em copos descartáveis”, lembra. Além da discriminação, a travesti se viu sozinha no mundo poucos anos depois, isso porque, no início dos anos 1990, todos os seus amigos faleceram devido a complicações da doença.

Triste, Thaís voltou a trabalhar em butiques grã-finas. Mas aquilo começou a irritá-la porque ela passava os dias ouvindo os lamentos de mulheres ricas, mas que não eram problemas reais. Foi então que teve um insight e decidiu ajudar quem realmente estava precisando: seus iguais.

“Com o boom da Aids […] Serviam café pra gente em copos descartáveis”

Descobriu a Casa da Brenda Lee, um centro de acolhida criado pela travesti Brenda Lee, para cuidar das meninas que estavam em estado terminal por decorrência da Aids. O espaço chegou a acolher quase 50 mulheres transexuais em estado grave, mas faltavam voluntários. E não era só lá. O Hospital Emílio Ribas, hoje referência na área de HIV/Aids, naquela época até baixa de médicos teve por conta da falta de informação sobre o contágio do vírus. “As pessoas não entendiam como se infectavam com o HIV, tudo o que se sabia era que as pessoas estavam morrendo feito moscas”, recorda.

De início, Thaís ajudava na limpeza como voluntária, à noite, de duas a três vezes na semana, lavava o banheiro do centro de acolhida, dava banho no leito. Foi aprendendo tudo sozinha no dia a dia, até que ganhou uma bolsa para estudar enfermagem. Em 1994, já formada como técnica, e ainda inquieta, foi à Alemanha entender como estava a situação da Aids no mundo. Voltou de lá em 1997 conhecendo o alívio no peito, chamado antirretroviral, uma esperança para a população LGBT, que agora sofria também com o estigma da doença.

Thaís trouxe travestis da Europa para começar um trabalho de assistência social – mesmo não sabendo que era isso que estava fazendo. Trabalhou no Chá Positivo, grupo de convivência para pessoas que vivem com HIV/Aids, amigos e familiares, no Grupo Pela Vidda, difundindo a informação de que dava pra se viver com HIV, sem deixar a Casa da Brenda Lee para trás.

Em 2008, após a criação do Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD), uma parceria do Grupo Pela Vidda com a Prefeitura de São Paulo, Thaís passou a ser socioeducadora do espaço, que é destinado ao acolhimento e à inclusão social da população lésbica, gay, bissexual, travesti e transexual, oferecendo atendimento psicossocial, orientações e encaminhamentos jurídicos necessários à superação da situação de violência e vulnerabilidade e contribuindo para o fortalecimento e o resgate da cidadania dessa parcela marginalizada da sociedade.

Na exposição “Respira SP 2016 – O Feminino na Cidade”, Thaís posa ao lado de uma cópia de seu passaporte, onde ainda consta o nome de registro

Hoje, além de atuar no CRD, a travesti da terceira idade está longe de parar. Sempre que pode – e é convidada – participa de uma mesa de debates ou palestras, em locais geralmente normativos, para difundir informação acerca das mulheres transgêneras, com a finalidade de “preparar aquele terreno” para as próximas que virão. Em 2016, foi uma das modelos da exposição “Respira SP 2016 – O Feminino na Cidade”, exibida nas galerias do Conjunto Nacional, em São Paulo.

E sobre ser o ponto fora da curva estatística, Thaís bate na tecla da sorte, mas lembra que a vida das pessoas transgêneras é um constante risco. “Tive situações de risco, de vulnerabilidade até chegar aqui, mas o tempo todo fui uma mulher de sorte. Tenho sorte desde o dia em que nasci”, finaliza.

  • Neste Mês da Mulher, o Catraca Livre vai prestar homenagens diárias a personagens do gênero feminino que nos inspiram. Saiba mais sobre a campanha #MulheresInspiradoras e leia outros perfis aqui.

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