Horta comunitária é cultivada por moradores de rua

Casa Porto Seguro é um centro de convivência para moradores de rua. Lá, cerca de 150 pessoas podem participar de diferentes atividades; veja histórias inspiradoras de conviventes do local

Por: Redação
Victor Sousa
Seu Zé está em situação de rua há cerca de oito anos

Apesar da proximidade do metrô Armênia e da avenida Cruzeiro do Sul, a região da rua Porto Seguro lembra São Paulo antiga. São ruas repletas de pequenas casas, cortiços, bares, galpões e mercearias. A ausência de carros e prédios dá um ar nostálgico e melancólico ao local.

Dentro da Casa Porto Seguro, um centro de convivência para moradores de rua, é possível ver outra cena incomum da cidade. São homens trabalhando na terra, cuidando de uma horta. Com enxada e rastelo em punho, eles plantam sementes de alimentos que vão comer no futuro.

Victor Sousa
Anderson procura reabilitação social na casa de convivência

Plantando o futuro, esquecendo o passado 

José Alves dos Santos, 58, o “Seu Zé”, veste camisa social branca, calças e botas sujas de barro e está martelando os novos canteiros da horta. Enquanto isso, Anderson Araújo, 36, planta sementes de cenoura.

Os dois encontram-se em situação de rua. Seu Zé nasceu em Pombal, Paraíba, e trabalhou na construção civil por 28 anos. “Gastei todo o dinheiro que ganhei”, comenta. Anderson Araújo, 36, filho de italiano com baiana, nasceu em São Paulo, era feirante de frutas e, entre altas e baixas, frequenta a casa de convivência há 10 anos.

Victor Sousa
Seu Zé tem que peneirar a terra seca que costuma ser utilizada em obras ou jardinagem

De repente, Seu Zé interrompe as brincadeiras e piadas. Ele crítica a maneira que as sementes são colocadas. “Sou exigente na hora de trabalhar”, explica.

Fica claro que ele é o cabeça da horta, que serve cenouras, cebolinhas, chás, tomatinhos, vagem entre outros legumes e verduras. Ela rende 5 dias de salada por mês para os mais de 150 conviventes do local – uma economia de R$ 200 mensais no fechamento das contas.

Não é apenas comida

Mas a salada não é o único benefício da horta. Seu Zé conta que é uma verdadeira terapia. “Na Paraíba eu trabalhava com terra. Aqui, esqueço as coisas erradas”, diz.

Para Anderson, a horta ajuda a refrescar a mente. “Tem dias que entro embaixo do pé de limão e xingo tudo. Fica tudo aqui. É bom se sujar de lama, lembra o interior”.

O educador Rodrigo Alves, 29, que acompanha tudo diz que o ambiente é diferente de uma sala de aula. “Aqui todo mundo sabe o que faz”, comenta.

E a tranquilidade do local impressiona. Durante todo o tempo, o silêncio é brevemente interrompido apenas pelos vagões do metrô e ônibus que passam distantes.

Sem agrotóxicos

Apesar de utilizar terra seca de construção, que precisa ser peneirada, a horta não utiliza agrotóxicos e é protegida por pés de tabaco e pelos cuidados dos conviventes.

A ideia é triplicar a produção com a instalação de jardins suspensos para hortaliças e com a terra de compostagem que a casa vai receber do programa Composta São Paulo, da Prefeitura.

Moradores de rua como protagonistas

Além da horta, a Caso Porto Seguro permite que os conviventes lavem suas roupas -em três dias por semana, devido ao racionamento de água-, façam higiene pessoal, tomem café da manhã e almocem.

Eles também podem participar de aulas de alfabetização, Ensino Fundamental e Médio, atividades de capoeira, xilogravura (que tem parceria com o Programa Extramuros da Pinacoteca), arte em mosaico com o lixo que é jogado da rua, yôga, entre outras.

Apesar de ser bancada por uma mantenedora evangélica, um convênio entre a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e a Associação Evangélica Beneficente (AEB), não existe vínculo direto da religião nas atividades da casa – apenas um culto aos sábados que, como as outras atividades, não é obrigatório. A casa recebe homossexuais e usuários de drogas sem discriminação e realiza trabalhos de reinserção social.

Toda última sexta-feira do mês acontece uma assembleia na qual os conviventes e funcionários discutem os temas e decidem o futuro da casa. Além de regras, os encontros criaram um manual de conduta, que inclui até itens contrários à homofobia.

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Varal com roupas dos conviventes

Dinei Spadoni, gestor da casa há 1 ano, explica que a casa tem propostas diferentes dos albergues. “As regras são decididas por eles. Não posso decidir nada sozinho. Eles precisam se apropriar e se reconhecer”, comenta o gestor.

Porém, decidiu retirar a televisão do local que, segundo ele, hipnotizava os frequentadores. “Eles têm que viver os conflitos e as brigas, não podem fugir”, comentou Dinei.

O sol do meio dia afasta o vento gelado do inverno de São Paulo, anunciando o almoço. Hora de experimentar a salada plantada no local.

Veja três histórias inspiradoras de frequentadores da Casa Porto Seguro.

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Paulo segurando a Constituição Federal.

Paulo Ricardo Andrade, 57, está em situação de rua e é estudante de Direito, na Faculdade São Paulo, onde não comenta sobre a sua vida pessoal. “Mantenho um distanciamento. Só interrompo quando abordam a questão das pessoas na rua ou sobre alcoolismo”, diz.

Nasceu na Vila Maria, zona norte de São Paulo, e trabalhou em grandes empresas como torneiro mecânico nos anos 80 e 90. Aos 30 anos começou a usar crack e, de lá para cá, nunca mais parou, exceto no período em que foi preso por assalto.

Ele ficou nove meses na 28ª DP e mais de dois anos em Franco da Rocha. Na cadeia, tomou gosto pela leitura. “Comecei lendo a bíblio, depois conheci Maquíavel, Marx”, comenta.

Ministra uma oficina de direitos e deveres na Casa Porto Seguro. “Aqui não sou diferente de ninguém, pelo contrário. Fui mais longe do que muitos”, comenta. “O princípio fundamental da oficina é o resgate da dignidade e respeito, que todo ser humano tem direito”, explica.

A roda de conversa envolve os direitos básicos, do consumidor, civil, criminal e social. Para ele, o programa Braços Abertos da Prefeitura de São Paulo foi bom para os usuários. “Antes os policiais invadiam os quartos de hotéis para agredir, roubar e levar as drogas”, comenta.

“Todos querem uma segunda chance, quando a pessoa está na rua, sem banho, fedendo é porque precisa de ajuda”, opina. Para ele, um quarto e refeição é uma boa ajuda. Um verdadeiro recomeço. Para ele, o usuário não é caso de polícia.

E uma boa política para as drogas é entender que a dependência já está instaurada, é preciso limitar, dosar, diminuir para tentar sumir com a figura do traficante.

Victor Sousa
Sidney Dos Santos, 48, pedagogo e candidato a deputado federal.

Filho de carroceira e vendedor de bilhetes de lotérica, Sidney nasceu e viveu em cortiços do Brás e Belém.

Aos 25 anos, começou a trabalhar como carroceiro e ficou em situação de rua. “Entre 2000 e 2004 foi o período mais difícil, cortava e contaminava a pele”, disse. Como tinha ensino médio, começou a realizar pequenos trabalhos no Conselho Tutelar da Mooca. Viveu por 1 ano em hospital ocupado por movimentos de moradia, quando o aconselharam a se eleger para o Conselho Tutelar.

“Eu tinha medo do preconceito, mas comecei a fazer a campanha e fui eleito e reeleito. Prendi 6 mil pedófilos. Tinha mil casos por ano somente na minha mesa”, lembra. Seu interesse pela leitura surgiu nos livros que pegava como carroceiro.

Pamela

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Pamela, 27, realiza trabalhos contra a homofobia na Casa Porto Seguro.

Ela faz parte do projeto Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo. “Quero mostrar que temos uma vida normal. Existe muito preconceito em empresas na hora de contratar”, explica.

“Os homossexuais ou travestis em situação de rua podem sofrer violência por pessoas que passem perto e até dos próprios moradores de rua”, lembra.

Ela nasceu em São José do Rio Preto e veio para São Paulo em 2007. já foi convivente da casa, mas conseguiu se organizar e sair da situação de rua.

Segundo ela, o projeto contra homofobia está dando certo dentro da Casa Porto Seguro. “Aqui é como na vida, sempre tem um ou outro obstáculo. Mas as ofensas entram por um lado e saem pelo outro”, comenta.

“Estamos batendo de frente como constrangimento e quebrando o preconceito”, concluí.

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