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Inimigo número 1 da ditadura: saiba quem foi Carlos Marighella

Com a estreia do filme de Wagner Moura, saiba quem foi o líder político que foi assassinado em 1969 e incomoda a extrema direita brasileira até hoje

Por: Redação

Nesta quinta-feira, dia 4 de novembro, data que marca os 52 anos do assassinato de Carlos Marighella, estreia o filme sobre o guerrilheiro, político, escritor e poeta brasileiro. ‘Marighella’ é a estreia de Wagner Moura na direção e tem Seu Jorge como protagonista, além de Bruno Gagliasso, Adriana Esteves, entre outros atores conhecidos do grande público.

carlos marighella
Seu Jorge e Wagner Moura em ‘Marighella’

Inspirado na biografia de mais de 800 páginas escrita pelo jornalista Mário Magalhães, o longa se centra nos últimos cinco anos de vida de Marighella, de 1964 até sua violenta morte em 1969, numa emboscada feita por agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) durante a ditadura militar.

Mas afinal, quem foi Carlos Marighella?

marighella
Carlos Marighella

Marighella nasceu em Salvador, na Bahia, em 05 de dezembro de 1911. Ele foi o primogênito dos sete filhos de Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos e de Augusto Marighella, operário e imigrante italiano. Augusto veio ao Brasil fazer companhia à sua mãe, que saíra da Itália para São Paulo depois de tornar-se viúva.

Desde criança, Carlos foi incentivado por seu pai nos estudos, se alfabetizando com apenas quatro anos de idade. Augusto fomentava a leitura de Carlos com livros nacionais e importados, o que o ajudou a percorrer sua vida escolar, completando no ensino secundário o estudo de Ciências e Letras. As ideias anarquistas e o sonho sobre a emancipação dos trabalhadores também foram herdadas do pai.

Maria Rita do Nascimento e Augusto Marighella, pais de Carlos Marighella

Seu talento na escrita também surgiu durante a infância. Em 1929, quando cursava o 5º ano no Ginásio da Bahia, ficou famoso ao responder uma prova de física – sobre o estudo do reflexo da luz nos espelhos – com um poema que ficou exposto na escola até o golpe de 1964. Leia abaixo:

Prova em Verso

Doutor, a sério falo, me permita,
Em versos rabiscar a prova escrita.

Espelho é a superfície que produz, Quando polida, a reflexão da luz.
Há nos espelhos a considerar
Dois casos, quando a imagem se formar.

Caso primeiro: um ponto é que se tem;
Ao segundo um objeto é que convém
Seja figura abaixo que se vê,
O espelho seja a linha beta cê.

O ponto P um ponto dado seja,
Como raio incidente R se veja.

O raio refletido vem depois
E o raio luminoso ao ponto 2.

Foi traçada em seguida uma normal,
O ângulo I de incidência a R igual (…)

Política, militância, prisões e torturas

Marighella
Marighella

A vida política e militante de Marighella teve início em 1929, quando ingressou na Escola Politécnica da Bahia para cursar Engenharia Civil.

A primeira vez em que foi preso foi em 1932, aos 20 anos, quando participou da ocupação da Faculdade de Medicina em favor do movimento constitucionalista de São Paulo, e contra o interventor da Bahia nomeado por Getúlio Vargas, Juracy Magalhães. Ficou apenas dois dias na carceragem, mas esse episódio deu rumo a toda sua trajetória.

Em 1934 abandonou o curso de engenharia civil da Escola Politécnica da Bahia para ingressar no PCB – na época dirigido por nomes históricos como Astrojildo Pereira e Luís Carlos Prestes. A partir de então, tornou-se militante profissional da sigla. Nesse mesmo ano, se opôs ao que viria a se tornar, em 1937, o período ditatorial conhecido como Estado Novo, liderado por Getúlio Vargas.

Ficha de filiação ao Partido Comunista do Brasil

Em 1935, quando tinha 24 anos, tentando sair da mira da polícia do governador Juracy Magalhães (interventor nomeado por Getúlio Vargas), embarcou num navio para o Rio de Janeiro.

Em 1º de maio de 1936 foi preso por subversão e ficou encarcerado por um ano e dois meses sendo submetido a 23 dias de tortura com murros, chutes, surras de cassetete e chicote, queimaduras de cigarro, alfinetes enfiados debaixo das unhas das mãos e até puxões dos testículos que eram amarrados com uma corda.

Marighella saiu da prisão em 1937 e retomou as atividades no PCB, que foi posto na clandestinidade por Getúlio Vargas após a proclamação do Estado Novo quando se mudou para São Paulo.

Sua terceira prisão ocorreu em 1939 quando novamente foi torturado, permanecendo na prisão durante seis anos e passando pelos presídios de Fernando de Noronha (PE) e da Ilha Grande (RJ), que durante o Estado Novo se transformaram em “depósitos” de presos políticos.

Em 1945 foi beneficiado com a anistia do processo de redemocratização do país. Ao ser libertado escreveu um dos seus poemas que ficaram mais famosos, um soneto chamado “Liberdade”.

Luta armada

Em 1946 foi eleito deputado federal constituinte pelo PCB baiano, mas em 1947 o partido foi cassado. Ele então voltou à clandestinidade e ocupou diversos cargos na direção partidária. Convidado pelo Comitê Central do Partido Comunista da China, passou os anos de 1953 e 1954 naquele país, a fim de conhecer de perto a então recente revolução comunista chinesa.

Em maio de 1964, dias após ocorrer o golpe militar, foi baleado e preso por agentes do DOPS dentro de um cinema, no Rio. Libertado em 1965 por decisão judicial, no ano seguinte decidiu se engajar na luta armada contra a ditadura e escreveu o livro “A crise brasileira”.

Começou a fazer a luta política dentro do partido para convencer dirigentes e militantes a optar pelas armas como uma forma de despertar a insurreição popular. Marighella pediu desligamento da Comissão Executiva, mas continuou como secretário-geral em São Paulo, esforçando-se para levar o partido para a luta armada.

Por divergências políticas, foi expulso do PCB em 1967 e, com dissidentes do partido, no ano seguinte fundou o grupo armado Ação Libertadora Nacional, a mais estruturada das entidades que combateram o regime militar através das armas. O grupo organizou assaltos a bancos, carros-fortes e até a um trem-pagador, para levantar recursos para a luta, além de sequestros de autoridades diplomáticas para trocá-las por presos políticos.

Em 20 de novembro de 1968, a capa da revista Veja estampava um cartaz de ‘procura-se’ com a seguinte descrição: Chefe Comunista; crítico de futebol em Copacabana; fã de cantores de feira; assaltante de Banco; guerrilheiro; grande apreciador de batidas de limão.

Em setembro de 1969, aconteceu o mais emblemático dos sequestros orquestrados pela ALN: o embaixador norte-americano Charles Elbrick, que  acabou sendo solto em troca da liberdade de 15 presos políticos.

Morte

Com a intensificação do regime militar, os órgãos de repressão concentraram esforços em sua captura. Em 1967, o líder revolucionário aliou-se a um convento em Perdizes por acreditar que a proximidade entre a religião e o povo era essencial para fazer a revolução a partir das bases.

Devido ao engajamento político dos dominicanos, os órgãos de repressão do regime militar intensificaram o monitoramento das atividades do convento através de escutas telefônicas ou de agentes infiltrados, o que levou à descoberta da ligação entre os dominicanos com Marighella.

Daí em diante, a equipe policial do delegado Sérgio Paranho Fleury, um dos maiores torturadores do regime militar, desenvolveu a operação ‘Batina Branca’ para investigar o convento culminando com a prisão e tortura dos freis Ivo e Fernando que diante da violência a qual foram submetidos acabaram dando pistas sobre Marighella.

Com as informações, os agentes armaram uma emboscada que matou o líder do movimento na noite de 4 de novembro de 1969, na alameda Casa Branca, na capital paulista. Marighella estava desarmado e foi metralhado ao se aproximar de um fusca, onde estavam os dois frades dominicanos.

A morte de Marighella marcou a história da resistência armada urbana à ditadura militar no Brasil. A ALN continuou em atividade até o ano de 1974.

Marighella foi considerado o sucessor de Che Guevara pela Agência de Inteligência Americana (CIA). Já para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), ele era o “Inimigo Público Nº 1” da Ditadura.

Em 2012, por meio da Portaria 2.780, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, oficializou a anistia post mortem de Carlos Marighella no Diário Oficial da União.

Vida pessoal

Depois de anos preso, Marighella teve um breve relacionamento com Elza Sento Sé, uma baiana que se mudara para o Rio de Janeiro e trabalhava na empresa de energia Light. Do romance, nasceu Carlos Augusto Marighella, em 22 de maio de 1948.

Sua paixão da vida inteira foi Clara Charf, militante comunista brasileira e ativista pelos direitos das mulheres, com quem ficou de 1948 até sua morte em 1969. Não tiveram filhos e juntos viveram na clandestinidade e militaram pelo comunismo e contra a ditadura militar.

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