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Mike Vieira: o pastor metaleiro e skatista de Curitiba

à frente de congregação, pastor Mike Vieira aborda temas como política, drogas, aborto e violência

Por: Tuka Pereira
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O pastor Mike Vieira, da comunidade Congrega Church de Curitiba, cresceu dentro da igreja. Com pais pastores, quando mais novo (hoje tem 38 anos) rodou toda América Latina com sua banda de Metal para levar as palavras do Evangelho às pessoas. Em uma de suas andanças conheceu uma organização cristã Internacional (Steiger Missions School) e passou a se dedicar ainda mais à religião, sempre defendendo causas progressistas.

Pastor Mije Vieira
Crédito: Gui PeracetaAos 38 anos, casado e pai de um menino de três, o líder religioso curitibano defende causas sociais consideradas controversas pela igreja

“Passei uma temporada na escola de missões deles, na Nova Zelândia, onde me conectei com Deus de maneira surreal. Temas que hoje estão em pauta, nós já estávamos discutindo há muitos anos. Ao retornar ao Brasil, senti de Deus o chamado para trabalhar com skatistas e abri um estudo bíblico em uma pista de skate particular que ficava próxima ao salão que meu pai alugava para fazer suas reuniões de oração”, contou.

A pista fechou e ele convidou os adolescentes a continuar os encontros no salão. Assim ele iniciou o projeto intitulado 180graus que depois veio a se chamar “Congrega Church” (nome dado pelos próprios adolescentes).

Em 2012 decidiu retornar à Steiger Missions School, desta vez na Alemanha, e missionou em países europeus como Albânia, Kosovo, Hungria e Turquia. Estas viagens lhe serviram como um grande aprendizado sobre questões que lhe impulsionam atualmente como líder religioso tais como a necessidade de amparar comunidades periféricas e as minorias.

Formado em jornalismo e com pós-graduação em Comunicação Cultura e Arte pela PUC/PR, ele decidiu não seguir adiante na profissão, e, ao invés disso, trilhar um caminho religioso. Para ele, é dever de líderes religiosos debater e esclarecer sobre temas como a desigualdade social, o direito a liberdade de gênero, a pobreza, a superlotação do sistema carcerário – sobretudo de negros e pobres, o aumento da violência contra as mulheres, o racismo estrutural e a destruição do meio ambiente.

“Todos esses temas precisam ser dialogados e vistos a luz do evangelho em uma sociedade que está em movimento. A minha postura como cristão é de não ficar em silêncio diante de crimes contra mulheres e os LGBTs. Reconheço plena cidadania para LGBTQIA+. Não podemos achar que as pessoas são menos cidadãs por sua orientação sexual. (…) Defendo o casamento civil, porque defendo a plena garantia de direitos para esta população. À igreja, cabe o acolhimento e não julgamento”, explica.

Sobre o aborto, ele afirma se tratar de uma questão de saúde pública e que descriminalizá-lo, não significa estimular ou naturalizar a prática, mas sim entender que existe uma situação na qual a mulher é a maior vítima.

“Já vi casos onde filhas de pastores e religiosos abortaram por medo de contar aos seus pais sobre a situação, correndo um grande risco de morte sem ao menos a família ter conhecimento sobre a situação. A criminalização não reduz o número de abortos praticados e leva a uma quantidade enorme de morte de mulheres, especialmente pobres e negras, criando traumas com danos irreparáveis. A criminalização afasta o diálogo e gera medo, fazendo com que a mãe tome decisões precipitadas. O caminho da descriminalização significa, em vez de punir, cuidar”.

Seu ponto de vista a respeito das drogas também é coerente com todas as outras questões que aborda à frente de uma Igreja na qual a maior parte dos fieis são jovens:

“Morei em países onde algumas drogas eram legalizadas e, quando descriminalizaram, houve uma desarticulação do tráfico abrindo espaço para políticas de educação, conscientização e tratamento no caso do uso abusivo, que gera vício. Eu, como pastor, preciso estar preocupado com a vida. Nossos jovens estão morrendo enquanto outros enriquecem a partir da vida destas pessoas. Eu fico com acolhimento e o cuidado, instrução e diálogo, para que vidas sejam transformadas”.

Para o pastor, a igreja deve acolher todas as pessoas com a função de levar a espiritualidade, já o Estado tem o dever de cumprir leis e promover o acesso ao direito dos cidadãos. No entanto, ele acredita que o atual momento político pelo qual o Brasil passa, emite um grande sinal de alerta em relação à autonomia do Estado e que estamos caminhando em direção a um grande retrocesso:

“Existe um movimento mundial para que o estado possa ser um Estado Teocrático. Temos inúmeros exemplos onde as leis são baseadas em livros sagrados. O Brasil segue o mesmo caminho, tentando incluir leis bíblicas do velho testamento em suas leis. A Bíblia Sagrada tem sido utilizada para dar golpes em países democráticos usando senhas como: “Deus, família, lei e ordem, corrupção, pátria” levando o país para um retrocesso atacando nosso Estado Democrático de Direito”, lamenta.

Pastor Mike afirma que é justamente a Bíblia que o leva a tomar partido de ações libertadoras. “É a Bíblia que me leva a reconhecer que a dignidade do ser humano é um fator imperativo em qualquer decisão. É a Bíblia que me leva a reconhecer a igualdade de gênero e dos direitos civis. Tudo o que se tem na era moderna, no que diz respeito aos direitos adquiridos, vem do movimento cristão”, diz.

Ele acredita que a Igreja precisa sair das quatro paredes e perceber que existe um mundo fora dela e que o isolamento tem gerado “cristãos” bitolados que sem percebem o quanto estão afastados da missão de Cristo que é a de promover o amor ao próximo, a paz e a justiça. No entanto, se orgulha do trabalho realizado dentro de sua congregação: “Posso falar pela nossa comunidade, e graças a Deus, fico muito feliz que  nela os membros sabem definir “quem é o oprimido e quem é o opressor”, declara.

Há mais de 15 anos, pastor Mike realiza visitas a presos e, em 2018, foi à carceragem da Polícia Federal para conversar com ex-presidente Lula, que estava preso em Curitiba. Esta visita fez com que o religioso se tornasse alvo de declarações de ódio de cristãos através das redes sociais.

“Estive junto dele, lendo a palavra e, principalmente, salmos. Conversamos muito e oramos juntos. Levei espiritualidade em um momento tão simbólico. Fiquei impressionado como após esta visita, líderes religiosos disseram a mim, que ele não merecia esta atenção.  Mesmo com todas as declarações de ódio que recebi, vindas de cristãos em redes sociais principalmente, este desafio me trouxe inúmeros amigos e novos membros para nossa comunidade, que estavam perdidos e não acreditavam mais na instituição religiosa”, conta.

Sua igreja desenvolve projetos dentro do sistema carcerário, levando arte e esporte para dentro do presídio – a iniciativa se transformou no documentário “Skate in Prision”. Nas escolas das periferias da capital paranaense, realiza oficinas de skate, grafite e, com ajuda de parceiros, ministra workshops de fotografia, rap e dá orientações profissionais.

“Também fazemos a coleta e distribuição de cestas básicas para famílias em necessidade, junto a nossa comunidade, atendemos refugiados vindos principalmente da Venezuela, dando suporte até que consigam emprego, moradia e documentação e promovemos eventos diversos para que a população possa ter acesso à diferentes formas de cultura, como exposições de artistas locais, shows, debates etc”, finaliza.

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