Os rios de SP estão sujos, mas qual a solução?

A questão da despoluição é antiga, mas também recente; alguns exemplos de outras cidades podem ajudar na tomada de decisões

Por: Redação
petria chaves
Os rios da cidade, como o Tietê, vivem escondidos em meio ao concreto e acabam recebendo esgoto clandestino de moradias e indústrias.

Recentemente, uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo registrou o aparecimento de algumas “ilhas de areia e sujeira” no percurso do rio Pinheiros. Segundo o órgão governamental responsável, o acúmulo dos resíduos não representava sujeira demais nem água de menos – em relação à seca do Sistema Cantareira – e seria apenas uma consequência do assoreamento do rio.

Apesar da explicação, a aparência das ilhas é de sujeira e o pensamento de quem as vê não demora para cair em um tema caro aos paulistanos: a despoluição dos rios da cidade.

Histórico

Desde 1978, com a criação do Programa de Tratamento de Esgotos para a Grande São Paulo (Sanegran), que os governos estadual e municipal se preocupam em combater os problemas de saneamento básico da cidade. Desde então, pelo menos mais três projetos grandes foram colocados em prática.

O problema parece ser claro para especialistas e gestores: o saneamento da cidade deve ser tratado da forma correta para evitar que canais de esgoto levem poluição aos rios. Mas todas as tentativas de despoluição ou de reestruturação da rede feitas em tempos recentes fracassaram ou tiveram resultados negligenciáveis – explicados por empecilhos ora políticos, ora tecnológicos.

Exemplos e soluções

Apesar das dificuldades, despoluir um rio urbano é possível. A seguir, separamos alguns exemplos.

Rio Sena, Paris, França

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O sena passando por Paris.

O Sena sofreu séculos com a poluição industrial e com o recebimento de esgoto doméstico. Passou a ser alvo de preocupações ambientais desde a década de 1920, mas só em 1960 que os franceses passaram a investir na revitalização do local, construindo estações de tratamento de esgoto. No começo, havia apenas 11 em funcionamento. Em 2008, duas mil. A meta é que em 2015 o rio esteja 100% despoluído. O governo criou leis que punem poluidores e recompensam quem cultiva nas margens. Hoje já existem cerca de 30 espécies de peixes no rio, mas o processo para que isso acontecesse foi lento.

Rio Tâmisa, Londres, Reino Unido

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Tâmisa, em Londres.

Com quase 350 km de extensão, o as águas do Tâmisa deixaram de ser consideradas potáveis ainda em 1610. Somente em 1964 e 1984 ações de revitalização começaram a surtir efeito. Foram criadas duas estações de tratamento de esgoto, alimentadas por um incinerador que queimava os resíduos encontrados no rio. Hoje, dois barcos percorrem o Tâmisa de segunda a sexta e retiram 30 toneladas de lixo por dia.

Rio Tejo, Lisboa, Portugal

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Crédito: Osvaldo GagoO Tejo, símbolo português.

800 milhões de euros foram investidos na despoluição do Tejo. A revitalização, que contou com obras de saneamento e renovação da rede de distribuição de águas e esgotos, só foi encerrada em 2012. Tudo começou com a criação da Reserva Natural do Estuário do Tejo, em 2000. O plano envolveu a construção de infraestrutura de saneamento de águas residuais e renovação de condutas de abastecimento de água.

Rio Cheonggyecheon, Seul, Coreia do Sul

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De esgoto a parque, o Cheonggyecheon renasceu.

Os 5,8 km do rio que corta Seul foram totalmente revitalizados em apenas quatro anos. Em 2003, a cidade colocou em prática uma nova política de transporte público que contava com a construção de diversos parques lineares e áreas verdes. A temperatura em Seul diminuiu 3,6°C e as águas do rio passaram a ser bombeadas do Rio Han, outro que passou pelo processo de despoluição. Hoje ele conta com cascatas, fontes, peixes e é ponto de encontro para a população.

Rio Reno, várias cidades da Europa

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O Reno passando por Dusseldorf, Alemanha.

O rio nasce nos Alpes Suíços e passa por seis países europeus até desaguar no Mar do Norte, na Holanda. Durante anos, recebeu dejetos de zonas industrias, o que o levou a ser conhecido, em 1970, como o grande esgoto a céu aberto da Europa. Em 1987 foi criado o Programa de Ação para o Reno, que contou com a construção de estações de tratamento monitorado de água. Como resultado, 95% dos esgotos das empresas são tratados e 63 espécies de peixes vivendo no rio hoje.

Rio Cuyahoga, Cleveland, Estados Unidos

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O Cuyahoga corta o centro de Cleveland.

Localizado no estado de Ohio, tem 160 km de extensão. Em junho de 1969, uma mancha de óleo e outros produtos químicos se espalharam e incendiaram o rio. Uma no depois foi assinada uma lei que previa a revitalização de todos os rios do país. Cleveland investiu mais de 3,5 bilhões de dólares para a purificação da água do Cuyahoga e dos seus sistemas de esgoto – com previsão de investir mais 5 bilhões nos próximos 30 anos. Hoje ele é parte fundamental do ecossistema da região, sendo lar e fonte de sustento de diversos animais.

Canais de Copenhague, Dinamarca

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Os canais atravessam a capital dinamarquesa, conhecida por ser “verde”.

Copenhague é hoje a cidade que mais luta pela sustentabilidade urbana e seus canais fizeram parte desse processo. Os canais recebiam água da chuva misturada com esgoto doméstico e industrial. Em 1991, surgiu o plano de despoluição das águas e da remoção da área industrial ao redor do rio. Assim, as galerias pluviais foram reconstruídas, os reservatórios de água foram estabelecidos em pontos estratégicos da cidade e o encanamento dos esgotos foi aperfeiçoado. O lixo, por sua vez, passou a ser reciclado e incinerado. Hoje os habitantes e turistas podem, inclusive, tomar banho nas piscinas públicas artificiais criadas pelo governo.

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