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Paraisópolis quer orquestra filarmônica

O projeto arquitetônico já está pronto; agora Gilson está atrás de recursos para a orquestra filarmônica

Por: Redação

Numa ribanceira da favela de Paraisópolis, desocupada por um incêndio que queimou os barracos, está surgindo uma improvável iniciativa: a sede de uma orquestra filarmônica.

Por trás dessa iniciativa, há um personagem mais improvável ainda, um incentivador da música erudita: migrante baiano, filho de uma mulher surda-muda que teve 14 filhos, hoje espalhados pelo Brasil, Gilson Rodrigues, 26 anos, por muito tempo, dormiu debaixo da mesa de um bar em Paraisópolis. “A orquestra é meu grande sonho”, diz.

O próprio Gilson só gostava de samba e pagode. Mas, indo a concertos, foi se convencendo de que os moradores iriam, como ele, descobrir a riqueza da música erudita.

O projeto arquitetônico já está pronto e, agora, Gilson está atrás dos recursos para montar a orquestra, cuja meta é descobrir talentos na própria comunidade. “Tudo isso começou com a impossibilidade.”

Depois que aquela área, batizada de “grotão”, pegou fogo, começaram a pensar o que fazer ali. Por causa da inclinação acentuada, ninguém aparecia com uma boa ideia. “Diziam que o máximo que se podia fazer era colocar grama”, conta Gilson, presidente da Associação de Moradores de Paraisópolis.

Rapidamente, porém, o terreno seria reocupado por novos barracos e a comunidade perderia a chance de ter uma área comum.

Gilson já tinha desenvolvido em Paraisópolis projetos de música que foram bem aceitos.

“Mas o pessoal gosta mesmo é de rap, samba ou pagode.” Gostaria de ver gente apreciando música erudita, como ocorre em Heliópolis.

Mas uma coisa é pagode, outra é montar toda uma orquestra, que exigiria ensaios periódicos.

Estudante de direito, Gilson aprendeu a fazer contatos tanto com lideranças políticas dos mais diversos partidos -o projeto de reurbanização de Paraisópolis é desenvolvido com apoio dos governos estadual, federal e municipal- quanto com empresas. Foi assim que conseguiu uma rádio comunitária legalizada e levou bancos, grandes lojas e companhias aéreas para a favela.

Conseguiu estabelecer uma boa rede de contatos -até porque muitas dessas empresas, inicialmente desconfiadas da vizinhança, perceberam, com o resultado das vendas, que estavam fazendo bons negócios entre os chamados “emergentes”.

Com o projeto doado, a prefeitura aceitou colocar a sala de concertos no plano de urbanização, aproveitando a ribanceira até então vista como imprestável -e, com isso, a cidade, ao fundo do palco, vai se transformar numa paisagem.

Leia a coluna na integra no jornal Folha de S.Paulo.

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