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Pastora Odja Barros: desconstruindo o machismo no cristianismo

Pastora Odja Barros se dedica a dar um olhar feminista para o cristianismo

Por: Tuka Pereira
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Ao longo da história, interpretações machistas dos textos bíblicos foram usados para dar às mulheres uma posição social inferior as classificando como coadjuvantes, submissas ou pecadoras. Por conta disso, é importante ressaltar o papel da religião não apenas na propagação da ideia de subalternidade, mas também sua responsabilidade na perpetuação de papeis sociais de sexo, na objetificação e na violência contra a mulher.
Pastora Odja Barros
A teóloga Odja Barros realiza uma releitura bíblica a partir de uma perspectiva feminista

São justamente estas questões que a pastora, professora e teóloga Odja Barros, da Igreja do Pinheiro, em Maceió (AL), faz questão de abordar e desconstruir através de um olhar feminista para o cristianismo. Para ela, são nítidos os efeitos negativos na vida das mulheres que possuem origem nas raízes patriarcais da interpretação bíblica e é fundamental a proclamação de uma fé cristã mais justa e igualitária.

“Me dedico ao trabalho de releitura bíblica a partir de uma perspectiva feminista e de gênero, desconstruindo discursos que usam o nome da fé, de Deus e da Bíblia para legitimar e perpetuar tais violências. Dediquei minha formação acadêmica para me apropriar das ferramentas da interpretação bíblica para enfrentar estes discursos que são geradores de muita opressão e sofrimento para mulheres na religião cristã.  Este tem sido o enfoque da minha atuação pastoral e teológica”, explica.

Nascida em Aracaju, Sergipe, há 50 anos, pastora Odja é casada há 31 e é mãe de duas filhas, uma de 28 e outra de 25 anos. Ela acha graça o fato de tantas pessoas considerarem estranho que uma pastora feminista defensora de uma agenda anti-patriarcal, tenha uma família de um modelo tão tradicional. Mas não se abala.

Sua experiência pessoal religiosa começou aos 15 anos quando passou a integrar um grupo de juventude católica franciscana que a levou a cogitar a vida religiosa na doutrina. Aos 17, no entanto, conheceu a Igreja Batista e abandonou a tradição católica se direcionando para a protestante. Aos 18, já estava casada e estudando no Seminário Teológico, junto com o marido, que também se dedica ao ministério pastoral.

“Descrevo minha experiência religiosa como um chamado do mistério divino. Não tive nenhuma influência familiar. Na adolescência, comecei a buscar uma experiência mais transcendente. Neste primeiro momento já tinha grande paixão pelo conhecimento das Escrituras, ao qual me dediquei posteriormente em minha formação. Penso que meu chamado sempre foi algo que me fizesse romper com a repetição de histórias ao meu redor, sobretudo em relação às mulheres. Casar, ter filhos, trabalhar, etc.. Eu sentia um desejo de algo além, mas não sabia discernir bem o que era. Não tinha uma família de pessoas muito letradas. Nunca tinha acesso a muito conhecimento. Mas, era uma menina pobre que sonhava em estudar e fazer outro caminho. Penso que a religião naquele momento me ofereceu outra possibilidade, outro tipo de transcendência”, conta.

Aos 23 anos, já estava liderando uma igreja batista junto com o marido e fazia parte da equipe pastoral da mesma igreja em que está até hoje. “São 27 anos de vivência pastoral com esta comunidade de fé, que foi também um espaço formador e transformador para mim, como mulher, pastora e teóloga. Foi só posteriormente, em meus estudos de especialização em Bíblia, que descobri a leitura feminista da Bíblia e isso, foi a coisa mais revolucionária que me aconteceu”.

Para a teóloga, sua pastoral bíblica feminista extrapola a igreja. Ela considera a Bíblia uma obra cultural, não apenas religiosa e, portanto, o trabalho que realiza com a releitura feminista do livro tem compromisso com a construção de novas relações de gênero na família e na sociedade no geral.

“Cultura do estupro, feminicídio, violência doméstica, são frutos de uma herança maldita plantada por uma leitura cristã trazida por grupos missionários colonizadores que venderam uma cultura sexista, racista e patriarcal disfarçado de doutrina cristã. Por isso, não separo o trabalho que faço fora ou dentro da religião”.

Entre suas maiores preocupações como líder religiosa está a situação de dupla violência enfrentada pelas mulheres no Nordeste: a violência da pobreza e a violência da cultura machista. No entanto, outras questões foram se unido a essa: as violências de gênero, enfrentadas pelos grupos LGBTQI+, a violência racista, enfrentadas pelas mulheres negras periféricas e a violência sexual contra as crianças.

Ela não acha que religião e política não se misturem, pois a fé não pode ser apenas espiritual. “Até porque nossos corpos que vivem, respiram, amam e padecem hoje, aqui e agora. E, é na  luta política que podemos transformar realidades aqui e agora”, explica.

Mas ela ainda vai mais a fundo no debate: “Jesus de Nazaré, a meu ver, foi um militante político, defensor de direitos humanos. Não gastou a vida dele, isolado, olhando para o céu. Tinha os pés bem fincados no chão da vida. Jesus se misturou com o povo e suas lutas e sofrimentos. Enfrentou a religião que se aliançou ao Estado Romano. E propôs uma política de resistência em pequenas comunidades. Todo conteúdo pregado por Jesus sobre Reino de Deus é religioso e, também político. Sua mensagem nos convoca a sonhar e construir um reino de vida e justiça, igualdade para todas as pessoas”, finaliza.

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