CORONAVÍRUS
Tudo o que você precisa saberÚltimas notícias e tudo que você precisa saber

Popó, o ‘guardião’ do Cemitério da Consolação

Francivaldo Gomes começou como coveiro e hoje é o guia que sabe de cabeça onde estão sepultadas as histórias da necrópole mais antiga da cidade

Por: Felipe Blumen

“Fala qualquer nome de rua que vier na cabeça.” É assim que Francivaldo Gomes, mais conhecido como Popó, gosta de provocar os grupos que guia pelo Cemitério da Consolação, onde trabalha como administrador e monitor de visitas há doze anos.

felipe blumen
Popó em frente à escultura “Vencedores”, que o lembra de seu professor, o historiador Délio Freire

“Peixoto Gomide”, “Barata Ribeiro”, “Dona Antônia”, “Capote Valente”, “Cristiano Viana”, “Joaquim Eugênio de Lima”, “Marquês de Paranaguá”, “Caio Prado”, “Benedito Calixto”. Cada resposta é rebatida por Popó com uma pequena biografia, o ano de falecimento e a localização do túmulo dentro do cemitério mais antigo de São Paulo.

Com voz de radialista e um sotaque misturado, é assim que trabalha o cearense esperto e bem-humorado de 47 anos quase completos – 34 dos quais passados na capital paulista. Natural de Crateús, no sertão do Ceará, Popó veio a São Paulo para trabalhar na construção civil. “Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar”, canta para contar que ergueu alguns prédios conhecidos da cidade.

Aluno e professor

Foi em 2000 que Popó começou a trabalhar no cemitério. Sua função era a de sepultador, cargo popularmente conhecido como “coveiro”. Mas logo nas primeiras semanas ele começou a se interessar pelo que acontecia também fora dos túmulos.

Popó observava de longe as visitas guiadas pelo historiador e administrador do cemitério Délio Freire dos Santos. “Eu ouvia o que ele falava, disfarçando para ele não ver e pensar que eu estava folgando”, lembra. “Aí anotava na mão os artistas e as esculturas que me chamavam atenção, tomando cuidado para o suor não apagar, e depois ia perguntar para o professor”.

Depois de tirar dúvidas com o historiador, Popó ainda ia à Biblioteca Mário de Andrade checar as informações. Essa foi sua rotina até 2002, quando Freire adoeceu. Com a saída de seu professor, o sepultador assumiu o lugar de “guardião da história e da arte funerária do Cemitério da Consolação”, como gosta de falar.

O guardião

Hoje, Popó guia cerca de 150 visitas por mês pela necrópole. Os visitantes são estudantes de história e de artes, que se encantam com as esculturas que ornamentam os 8.500 túmulos e mausoléus do cemitério.

Mas o guia também tem suas preferências. Das histórias que o cemitério conta, a que mais lhe agrada é a de Santo Antoninho, garoto que queria ser padre, mas faleceu aos 12 anos em 1930. Sua fama de milagreiro atrai milhares de devotos anualmente para seu túmulo – um deles, inclusive, foi o cantor Marcelo Costa, que deu a Francivaldo o apelido de Popó.

Das esculturas, Popó também guarda uma com carinho especial. “Vencedores”, obra feita em 1921 pelo artista italiano Luigi Brizzolara, que retrata um ancião passando a tocha para um jovem. “Essa escultura representa muito para mim porque eu me vejo nela recebendo a tocha do cemitério do meu professor Délio Freire”, conta, emocionado.

O trabalho de Popó é contar histórias, “mas eu queria fazer ainda mais pelo cemitério, divulgar o que tem aqui dentro, chamar mais pessoas para conhecerem o local”, lamenta. “O cemitério da Consolação conta a história da cidade. Nós temos um Père-Lachaise aqui em São Paulo e pouca gente sabe”.

felipe blumen
No mapa, algumas das atrações mais interessantes do cemitério. Para saber a localização exata (ruas, terrenos e quadras), pergunte ao Popó (clique na imagem para ampliar)

Compartilhe:

1
Morre Gilberto Dimenstein, jornalista e fundador da Catraca Livre
É com profunda tristeza que a Catraca Livre anuncia o falecimento de seu fundador, Gilberto Dimenstein, aos 63 anos de …
2
Entenda a operação da Polícia Federal de combate às fake news
O combate às fake news ganhou um novo e importante capítulo nesta semana com a Polícia Federal realizando uma série …
3
Witzel é alvo da PF; Zambelli antecipa operação em entrevista
A Polícia Federal iniciou nesta terça-feira, 26, a Operação Placebo, que apura desvios na Saúde do Rio de Janeiro nas …
4
‘Na Fila do SUS’ retrata o sucateamento da saúde pública em plena pandemia
 'Na Fila do SUS' é uma websérie em formato original com seis episódios que estreia disponível exclusivamente, na plataforma online …
5
Governo libera uso da cloroquina para pacientes em estado leve da covid-19; classe médica discorda
Após pressão do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde cedeu e ampliou o  protocolo para uso da cloroquina e …
6
Felipe Neto no Roda Vida: confira os principais momentos do programa
Convidado do Roda Viva, da TV Cultura, na noite desta segunda-feira, 18, o youtuber Felipe Neto afirmou que faz um …
7
Flávio Bolsonaro rebate acusação feita por Paulo Marinho sobre o caso Queiroz
O senador Flávio Bolsonaro rebateu a acusação feita pelo empresário Paulo Marinho em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo …
8
Entenda os motivos do pedido de demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich
Antes mesmo de completar um mês à frente do Ministério da Saúde, o ministro Nelson Teich pediu demissão do cargo …