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Sem doses, cidades paralisam vacinação e governo Bolsonaro se omite

Dentre os municípios que não conseguem dar prosseguimento a imunização contra a covid-19 por falta de vacinas estão o Rio de Janeiro e Salvador

Por: Redação
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A campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil, que já começou tardiamente, está ameaçada pela falta de doses, segundo informações de autoridades de vários estados e enquanto isso o governo Bolsonaro se omite da responsabilidade.

Bolsonaro dando risada
Crédito: Agência BrasilSem doses, cidades paralisam vacinação e governo Bolsonaro se omite

Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello não garantiram as doses para que a continuidade do Programa Nacional de Vacinação fosse garantido. Ate o momento 10,7 milhões de doses da CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório Sinovac, e 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, importada da Índia, mas que também será produzida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), foram distribuídas, o que garante a imunização de 6 milhões de pessoas aproximadamente.

Desde 18 de janeiro, quando iniciou-se a vacinação contra covid-19 no país, 5 milhões de pessoas foram imunizadas. O ritmo é lento, justamente pela falta de doses, mas já em janeiro era possível que o governo tivesse garantido mais doses para ao invés de frear a vacinação antes da campanha completar um mês, ela fosse alavancada. Porém, isso não foi feito e agora, diversas cidades passam por dificuldade e já paralisaram a vacinação contra o novo coronavírus.

“Eu imaginava que isso pudesse ocorrer. Nada foi feito para que tivéssemos vacina. Houve uma política deliberada de se esperar que a própria doença imunizasse por efeito de rebanho”, afirmou o infectologista Hélio Bacha, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “É claro que isso não ocorreu, e então ficamos numa desvantagem perante o mundo muito grande”, acrescentou.

Rio de Janeiro

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM) anunciou em publicação em seu perfil no Twitter que a vacinação contra a covid-19 foi suspensa na cidade a partir desta terça-feira, 16. Segundo o prefeito, era esperada a chegada de mais doses da CoronaVac, o que não aconteceu.

“Recebi a notícia de que não chegaram novas doses. Teremos que interromper amanhã nossa campanha. Hoje vacinamos pessoas de 84 anos e amanhã de 83. Estamos prontos e já vacinamos 244.852 pessoas. Só precisamos que a vacina chegue. Nova leva deve chegar do Butantan na próxima semana”, escreveu Paes na manhã de ontem.

Segundo o monitor que acompanha o número de pessoas imunizadas na cidade, o Rio de Janeiro vacinou 244.852 pessoas até o momento. O cronograma da prefeitura determina que idosos de 83 a 84 anos sejam vacinados na atual etapa da campanha. Caso chegue o carregamento de vacinas produzidas pelo Instituto Butantan, de São Paulo, a vacinação deve ser retomada na próxima segunda-feira, 22, com idosos de 82 anos.

Municípios da região metropolitana, como São Gonçalo, Niterói e Duque de Caxias, já tiveram que interromper a vacinação – e Manaus, onde a infecção está descontrolada, a falta de imunizantes também atormenta autoridades e população

Bahia

Em Salvador a situação é semelhante. O secretário de Saúde da capital baiana, Leo Prates, afirmou que acabou, nesta terça-feira, o estoque da primeira dose de vacinas contra covid-19 na cidade. O Estado ainda vai vacinar idosos com idade a partir dos 83 anos, enquanto profissionais de saúde e idosos em instituições de longa permanência começarão a receber a segunda dose do imunizante.

Segundo Leo Prates, só foi possível aplicar a primeira dose nos idosos com 83 anos porque o governo do estado disponibilizou uma reserva técnica com mais vacinas. “Nós só estamos vacinando 83 ou mais graças a uma reserva técnica que o estado disponibilizou, de 8 mil doses, para a cidade. Caso não houvesse isso, as doses teriam acabado na semana passada. Devemos acabar as doses hoje. Devemos suspender a vacinação ainda no dia de hoje”, afirmou o secretário. Ele lamentou também que a cidade tem passado “muita dificuldade” para vacinar a população.

O secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, deu previsão de que um novo lote de vacinas deve ser enviado ao estado pelo Ministério da Saúde na próxima semana. Ainda segundo Leo, a Prefeitura de Salvador tentou comprar vacinas junto aos fabricantes, mas foi proibido pelo governo federal, a quem cabe adquirir e distribuir doses a estados e municípios. O secretário criticou o que chamou de falta de planejamento do Ministério da Saúde na estratégia de imunização.

“A gente tá com toda estrutura, tudo o que dependia do governo do estado e da prefeitura, estão prontos para [vacinar] o cidadão. Agora a parte do governo federal, que são as doses, ele não está autorizando estados e municípios a comprarem nem também está fornecendo. Nós vamos ser a primeira capital a terminar as doses, o Rio de Janeiro vai terminar as doses. Então, é um cenário bem complexo e difícil. Eu acho que se planejou mal a vacina”, lamentou.

Rio Grande do Sul

Cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre estão com a vacinação suspensa por falta de doses desde sexta-feira. Em Cachoeirinha, a prefeitura informou que desde a última sexta-feira, 12, ninguém está sendo vacinado. A cidade tem 812 doses em estoque, mas elas estão reservadas para a aplicação da segunda dose da imunização.

Em Guaíba, há apenas 100 doses que serão aplicadas em idosos acamados, com mais de 80 anos, ao longo dessa semana. Em Montenegro as doses também estão acabando. São 276 vacinas restantes que vão ser aplicadas durante esta semana em idosos com mais de 85 anos.

Mato Grosso

Os estoques da vacina contra covid-19 estão no fim nos municípios de Mato Grosso. Cuiabá e Rondonópolis já suspenderam a imunização e mantêm apenas a aplicação da segunda dose. Já Sinop e Cáceres devem parar nesta quarta-feira, 17. Barra do Garças, Lucas do Rio Verde, estão com o estoque chegando ao fim.

Até agora, o estado recebeu 191 mil doses de vacina desde o início da campanha, que começou em 19 de janeiro. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), o governo federal não deu previsão de novo envio de vacinas. O último lote da vacina foi recebido há mais de uma semana.

São Paulo

No estado de São Paulo, o mais rico e populoso em um país com 212 milhões de habitantes, as autoridades sanitárias também tiveram que adiar o início da vacinação para idosos entre 84 e 89 anos, para 1º de março por falta de doses. “As datas foram definidas de acordo com o número de vacinas disponíveis. E não são suficientes”, disse Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde de São Paulo, ao Uol.

Minas Gerais

Em Minas, segundo o governador Romeu Zema (Novo), foram enviadas 1.168.060 doses para as regionais de saúde e retiradas 1.032.697 pelos municípios, deixando assim cerca de 130 mil restantes.

Omissão do governo federal

O governo federal, tanto o ministro da Saúde, quanto o presidente não se pronunciaram sobre o problema. Em busca da solução, a compra de mais doses dos imunizantes, aprovação de registro emergencial para outras vacinas além da de Oxford e CoronaVac, governadores vão se reunir com Pazuello nesta quarta-feira. A reunião foi divulgada pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT).

“Na próxima quarta, teremos uma reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello e o Fórum dos Governadores do Brasil para tratar sobre o cronograma de entrega de vacinas até o mês de abril. Vamos falar também sobre o pagamento das UTIs em atividade de janeiro para cá, incluindo ampliação para atender crescimento de demanda. A outra pauta é a solução da farmacêutica União Química com a vacina Sputinik e outras alternativas de vacinas”, afirmou o governador que coordena trabalhos do fórum de governadores sobre a vacina.

Segundo o governador do Piauí, o fórum de governadores procurou os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e do Senado (Pacheco), Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para que os dois auxiliem no diálogo com Bolsonaro para que a MP que acelera a aprovação de vacinas para uso emergencial seja aprovada.

Até o momento, Bolsonaro não sancionou a MP, a Anvisa não liberou a Sputnik V, imunizante Russo que será produzido no país por uma farmacêutica privada, a União Quimica. O presidente não se pronunciou sobre a escassez de doses, nem o que fará para garantir a vacinação no Brasil.

O Ministério da Saúde promete milhares de doses nos próximos meses, porém em contratos ainda não 100% fechados, o que deixa a situação mais alarmante. Enquanto isso, o país sofre a morte de mais de 240 mil brasileiros.