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Um corpo nu é só um corpo nu

Por Débora Thomé e Renata Rodrigues, fundadoras do Bloco Mulheres Rodadas

Por: Redação
Foliões do bloco Mulheres Rodadas, do Rio

No último Carnaval, eu, Renata, decidi que gostaria de homenagear Luz del Fuego, a famosa vedete naturista que teve, como tantas outras mulheres que ousaram desafiar as convenções e os padrões de seu tempo, um final de vida inacreditavelmente trágico.

A fantasia era composta por um biquíni cor da pele e uma cobra ao longo do corpo. Fiquei apaixonada pela ideia, mas não contava com o choque que teria entre os 500 metros que separam a minha casa e o Largo do Machado, onde o Bloco Mulheres Rodadas inicia seu desfile todos os anos.

Era como se os homens com quem cruzei ao longo do caminho nunca tivessem visto um corpo, um par de seios. Eu fui invadida de uma maneira que nunca havia experimentado antes. Só me senti segura quando cheguei ao bloco e fiquei entre amigas.

Quando começamos o bloco _ e lá se vão mais de três anos, este será nosso quarto desfile _ não tínhamos muita ideia de onde tudo ia parar, mas sabíamos que queríamos dialogar, contestar o machismo da sociedade, em grande medida, no que diz respeito ao controle dos corpos.

Ao longo das últimas décadas, o mundo e o Brasil experimentaram muitas mudanças. As mulheres já podem se divorciar, congelar seus óvulos, optarem por não casar ou ter filhos, no entanto mamilos, bocetas e bundas parecem despertar um interesse adolescente nos homens, assim como no moralismo. A consequência disso é que, diante da afronta de um corpo nu, esse corpo passa a ser considerado disponível.

O nu faz parte das nossas vidas, ainda mais no Rio de Janeiro: usamos biquínis diminutos, os homens voltam da praia de sunga (indumentária considerada um escândalo para as pessoas de todo o mundo, exceto brasileiros) e chinelo. Isso nunca deu a nós, mulheres, o entendimento de que seus corpos poderiam ser violados, “afinal, estão à mostra mesmo”.

Neste ponto chegamos ao debate que propomos. Um corpo à mostra nunca foi, nem nunca será, um corpo disponível. Uma mulher dançando nunca será um corpo disponível. Uma mulher nua, com os mamilos expostos, dançando e brincando o Carnaval nunca será um corpo disponível. Ela é um corpo nu. E as duas informações – “nu” e “disponível” – não são equivalentes.

Existe um esforço do moralismo, do patriarcado, para esconder as mulheres, seja atrás de véus, saias compridas, burcas, perucas. As religiões adoram exercer seu poder por estes símbolos. Certamente, somos mais liberais no Brasil quanto à indumentária, mas existe um controle subliminar que segue existindo: a mulher não é obrigada a vestir uma saia longa, mas, se usar saia curta, “tá pedindo para ser estuprada”. A nudez só é aceita quando dedicada ao olhar masculino, logo a ele se tornando acessível, disponível.

No carnaval, a liberdade de aproveitar a folia para as mulheres só será completa quando esse binômio finalmente estiver desfeito. Um corpo nu é só um corpo nu. Estar à mostra não significa estar disponível para o toque, assédio ou violência. No Mulheres Rodadas, nosso corpo, não raro, é nossa bandeira: e que possamos hasteá-la com alegria, firmeza e em paz.

Campanha #CarnavalSemAssédio

Pelo terceiro ano consecutivo, o Catraca Livre promove a campanha #CarnavalSemAssédio com o objetivo de lutar por respeito na folia e pelo fim da violência contra a mulher. Quem está com a gente: a ONU Mulheres, a ONG Plan International, os blocos Mulheres Rodadas e Maria Vem Com as Outras, as redes Minha Sampa e Meu Recife, os coletivos Nós, Mulheres da Periferia, Não é Não e Vamos juntas? e as prefeituras de São Paulo e Salvador.

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