Dimenstein: Bolsonaro me fez sentir vergonha de ser brasileiro

Por: Gilberto Dimenstein | Comunicar erro

Como todos sabem, eu não queria Jair Bolsonaro na presidência. Nem o PT.
Mas ele foi eleito e, por uma questão prática, quero que ele dê certo.
Afinal, se ele der errado teremos mais crise econômica – ou seja, mais miséria e desemprego.

Mais: concordo com muitas das medidas defendidas por sua equipe econômica, mesmo as mais impopulares. Já disse e repito: a reforma da previdência terá meu apoio porque é uma medida vital para o Brasil.
Não gosto de Bolsonaro: considero-o uma mistura de mediocridade com arrogância.
Não gosto dele, mas amo meu país.
O que eu vi em Davos, na Suíça, me fez sentir vergonha de ser brasileiro.
Ele estava num dos ambientes mais sofisticados do planeta.
O problema não foi a duração do discurso. Mas a mediocridade.
Uma única frase definiu um dos mais importantes discursos da história.
Churchill disse no seu discurso de posse como primeiro-ministro do Reino Unido: “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”.
Não gosto de Bolsonaro, mas ali em Davos ele era presidente do meu país. Representava a imagem da minha nação que o escolheu.
Convidar a plateia para conhecer as belezas naturais do Brasil me pareceu uma convenção internacional da CVC para agentes de viagens internacionais.
Tudo era generalidades e superficialidades, misturadas com um toque de campanha eleitoral e asneiras do tipo  “ministério mais qualificado” da história do Brasil.
Um discurso lido num tom de um adolescente nervoso escolhido para falar em nome da turma na formatura. O que eu senti, ali, foi uma dose  pena, vendo a desadaptação de ser um ser humano num ambiente. Me fez lembrar situações em que eu estava constrangido em alguns lugares.
Para completar, o Brasil real invadiu Davos, com as reportagens sobre a ligação da família Bolsonaro com as milícias.
O presidente recusou-se a dar uma entrevista em que estariam os principais veículos de comunicação do mundo, desculpando-se com mentiras.
E terminou o dia, nessa farsa, dando uma exclusiva para a Record.
Tudo isso me fez sentir vergonha de ser brasileiro.

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Autor: Gilberto Dimenstein

Jornalista, educador e fundador da Catraca Livre.

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