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Com murais gigantes nas ruas, artista combina fotografia, colagem e pintura; leia entrevista

Raul Zito espalha suas fotografias pela cidade. Elas abordam temas do cotidiano, como o consumo de carne, os trabalhadores e a herança africana na cultura brasileira

Por: Redação
Reprodução/ Raul Zito
Painel da série “Trens”

A cidade como uma galeria aberta e a obra de arte desligada da autoria. Fotografias gigante que misturam-se com a superfície áspera dos muros e com a tinta.

O Catraca Livre conversou com Raul Zito, artista que mistura fotografia e pintura em murais colados nos muros da cidade.

Ele começou a grafitar em 1997 e explica que, na época, os grafiteiros não se enxergavam como artistas. “Tínhamos uma visão de ocupação da cidade, diversão e transgressão. Tudo era natural”, explica.

Paralelamente, Raul Zito começou a fotografar e tornou-se profissional – ainda na época dos filmes e cromos.

A vontade de expor as fotografias fez com que o artista unisse com o sentimento de ocupação da cidade do grafitti. Confira entrevista.

Catraca Livre: Como você começou a fazer os painéis? 

As primeiras colagens surgiram em 2006 e 2007.  De repente, bateu uma vontade de expor as fotografias de uma maneira solta, que não estivesse fechado à galerias e ao modo tradicional de exposição de fotografia. Ela tradicionalmente, o fine art é um modelo que nunca me interessou.

Então comecei a fazer colagens de fotografias analógicas e, aos poucos, fui querendo levar para rua de uma maneira bem solta, que não tivesse preocupação com a qualidade fotográfica.

Reprodução/ Raul Zito
Painel de Raul Zito

Assim, podem estar abertas em termos de custo e experimentação total. Eu precisava pesquisar alguma maneira de impressão que pudesse ser barata e não podia ter nenhum tipo de receio de trabalhar de maneira experimental: jogando tinta junto, rasgando, colando em lugares que sabia que não durariam por muito tempo.

Meu trabalho está ligado com a relação da fotografia com a pintura. Geralmente misturo a pintura com a fotografia e faço um recorte e vou complementando com a tinta.

As colagens de rua não são nenhuma novidade e consigo me reconhecer e desenvolver justamente na combinação da pintura com a fotografia. O choque dessas linguagens: o hiper realismo da fotografia e a coisa mais orgânica e gestual da pintura.

Isso vem de um sentimento de ocupação do espaço público que está aflorando. Talvez isso seja um gancho.  A busca pela arte de rua já existe faz bastante tempo e isso está aflorando bastante.

É muito bom que as pessoas queiram se sentir mais donas da cidade, não no sentido de propriedade mas de se sentir mais próximas do que é público.

CL: Qual é a sensação de ter as suas fotos expostas nas ruas?

 Tem a ver com a arte pública, esse lado público do trabalho. Ele fica anônimo. É uma imagem por si só, o que valoriza o trabalho em si e não a autoria – necessidade que existe em prol do mercado. E os murais acabam fugindo dessa lógica.

As pessoas que gostam vão pesquisar e é legal fazê-las investigar.  Mas a grande maioria passa batido. 

Por ser hiper real, acredito que os painéis tornam-se portais na cidade. As pessoas estão acostumadas com imagens e cada vez temos mais imagens presentes no cotidiano.

Todos estão mais próximos da produção da imagem, elas vêm imagem o dia inteiro, o tempo inteiro e também criam imagens no celular. A maioria das pessoas têm celular que tira fotos. A relação com a fotografia se espreitou e popularizou-se em larga escala.

Assim, a fotografia vai mapeando os lugares, alterando a arquitetura e criando esses portais na cidade.

CL: Na série Carne de seus painéis você mostra a relação das pessoas com a carne…

Eu fiz uma viagem pelo Brasil pro 10 estados, fazendo um livro sobre hábitos alimentares e fui em muitas feiras e muitos lugares do Nordeste. Percebi que a relação com a carne vai mudando de acordo com os lugares.

A carne é um símbolo de voracidade. Você morder a carne com sangue. Essa necessidade de ter a carne no dia-a-dia no prato está relacionada com uma agressividade nossa.

Ela é um símbolo de agressividade. Simbolicamente eu vejo como algo ruim, porque vejo como agressividade, com raiva. Essa ansiedade pelo consumo para mim está relacionada a essa agressividade.

Por isso quis fazer murais sobre a carne, sobre a relação do homem com a carne. Em uma das imagens, tem até um homem dormindo no meio de peças.
A carne como um símbolo do consumo e voracidade.

CL: E na série Trabalhadores?

A questão dos trabalhadores me interessa bastante. Esse braço humano um pouco invisível na cidade. Acredito que é um tema relevante para incentivar o olhar das pessoas e colocar em murais.

Levar o olhar das pessoas para os trabalhadores faz com que as pessoas prestem mais atenção de que toda a máquina da vida urbana depende de uma escala e também os valorizem.

Existe toda uma escala industrial. Mas a escala depende de trabalhadores e,mesmo que ligadas a uma máquina, são pessoas.

Eu quis trazer a sensação humana. O motorista de ônibus, o cobrador, o catador de material reciclável e a pessoa que vende coisas de maneira informal são humanos. Tudo isso depende de pessoas então quis trazer um olhar mais humano para essa escala. A importância de algo esquecido.

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Tags: #Cultura