‘Adolescência’: série retrata o peso da ausência paterna e pediatra alerta sobre consequências

Diante do sucesso da série da Netflix, pediatra comenta sobre a importância da paternidade ativa: “ser pai é muito mais do que sustentar”

27/03/2025 12:15

A nova minissérie britânica “Adolescência, da Netflix, tem causado alvoroço nas redes sociais ao tocar em feridas profundas: a masculinidade tóxica, o impacto das redes sociais e, principalmente, o relacionamento entre pais e filhos.

Na trama, o jovem Jamie Miller, de 13 anos, é acusado de assassinar uma colega de escola. Mas o roteiro vai além e convida o público a refletir sobre as pressões, os vazios e as referências distorcidas que moldam os adolescentes de hoje.

série "Adolescência"
“Adolescência”, da Netflix, expõe o preço da ausência paterna - divulgação/Netflix

Quais são as consequências da ausência paterna?

Para o pediatra e pai Dr. Paulo Telles, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o alerta vai além da ficção.

“Para ser pai, é preciso participar. O que a série mostra de forma dramática é o que já vemos em dados e na prática clínica: a falta de envolvimento paterno tem impactos emocionais, sociais e até econômicos”, destaca.

Embora o protagonista tenha uma família estruturada, em dado momento o próprio pai admite que acabou ficando ausente do cotidiano do filho por causa do trabalho. Além disso, ele demonstra não conhecer o próprio filho, que vivia isolado no quarto e não conversava com os pais.

Segundo o pediatra, ainda vivemos em uma sociedade que atribui à mulher, muitas vezes, a total responsabilidade pelos cuidados e educação dos filhos, deixando o pai com um papel de “ajudante” ou apenas provedor financeiro.

Em 2023, mais de 172 mil crianças nasceram no Brasil sem o nome do pai no registro. Estamos em 2025 e ainda precisamos afirmar o óbvio: ser pai não deveria ser opcional, nem se limitar a oferecer sustento. A criação e a educação dos filhos devem ser responsabilidades compartilhadas, e é fundamental que os homens compreendam seu papel como pais, que vai muito além do apoio financeiro”, reforça.

A paternidade ativa é essencial em qualquer fase do filho

Estudos já comprovam que a paternidade ativa está diretamente relacionada a melhores indicadores de desenvolvimento cognitivo, saúde mental e desempenho escolar.

Crianças com pais participativos apresentam menos problemas de comportamento, maior autoestima, maior empatia e melhores habilidades sociais.

Além disso, pais presentes impactam positivamente a economia. Menos evasão escolar, menos delinquência juvenil, menos gastos com saúde mental e assistência social. É um investimento com retorno certo, como já apontou até o prêmio Nobel James Heckman”, diz Dr. Paulo Telles.

Licença-paternidade: uma mudança urgente e possível

A licença-paternidade no Brasil tem duração de cinco dias úteis, contados a partir do nascimento ou da adoção da criança. No entanto, há projetos de lei em andamento que propõem sua ampliação.

A Constituição Federal estabelece esse período, que começa no primeiro dia útil após o nascimento. Porém, empresas participantes do programa Empresa Cidadã podem conceder uma extensão para 20 dias — os cinco dias iniciais mais 15 adicionais. Para isso, o funcionário deve solicitar a prorrogação dentro do prazo. Além disso, a adesão ao programa é opcional para empresas privadas e oferece benefícios fiscais. 

Enquanto países como Suécia oferecem até 480 dias de licença parental compartilhada, o Brasil ainda engatinha. Ampliar esse tempo não é apenas uma questão de justiça familiar, mas de inteligência social e econômica, como opina o médico.

O custo de ampliar a licença para 20 dias seria de R$ 99 milhões, uma fração mínima da arrecadação federal. O custo da omissão é muito maior”, alerta o pediatra.

Para Dr. Paulo Telles, o ponto principal é entender que o pai não nasce pronto: “É no cuidado, na troca de fralda, no colo de madrugada e nas consultas pediátricas que um pai vai se formando. E os ganhos são mútuos. Pais também têm alterações cerebrais positivas quando participam ativamente da criação dos filhos. Eles crescem junto com seus filhos.”

O recado que a série “Adolescência” dá, mesmo sem dizer diretamente, é claro: quando os pais não participam, o mundo (real ou ficcional) pode pagar um preço alto demais.