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Apocalypse: A dor e a delícia de ser uma idosa trans no Brasil

Ana Carolina Apocalypse ficou famosa e bombou na internet após publicar o resultado da sua transição de gênero iniciada aos 59 anos

Por: Maíra Campos

Com muita alegria, jeito descontraído e esbanjando simpatia, Ana Carolina Apocalypse, de 62 anos, ganhou fama nas redes sociais após divulgar um antes e depois de sua transição de gênero aos 59 anos.

Muito carinho nas redes sociais surgiu pela força e pela coragem de Apocalypse de “dar a cara à tapa”, como ela mesma disse em entrevista à Catraca Livre, na qual contou sua linda história de vida e como foi todo esse processo até viralizar na internet.

Crédito: Reprodução/Twitter e InstagramApocalypse: A dor e a delícia de ser uma idosa trans no Brasil

Primeiro, Ana fez questão de deixar claro que é uma pessoa comum, que trabalha e também tem seus boletos para pagar. Inclusive, ela nos concedeu a entrevista num papo descontraído, por telefone, enquanto trabalhava realizando entregas, na região da Rua Consolação, em São Paulo. “Eu sou uma pessoa humilde, preciso trabalhar, não tenho quem me dê nada, tenho que batalhar”, afirmou.

Nascida em 1958, Ana contou que sempre se sentiu mulher. “Sempre me vi como menina, roubava a lingerie da minha irmã, eu aprontava”, falou aos risos, e continuou: “Namorava com os meninos na escola, mas sempre assim, me colocando na figura de menino. Eu não entendia. Não tinha contato nenhum com movimento. Era aquela coisa, o que mais falavam na época era ‘veado’, ‘ah é veado, veado mesmo’, sempre me diziam. Eu nunca me importei, nunca me senti gay, eu sempre me senti menina e sempre me comportei normal, educada. Eu estudei, cheguei a fazer faculdade, trabalhei com eletrônicos, mas foi quando eu virei motorista de caminhão que eu passei a ganhar algum dinheiro, mesmo”, revelou.

Vivendo 59 anos como homem, Ana Carolina casou e teve uma filha, mas ela não era plenamente quem sentia ser. “Eu tenho uma filha, eu fui casada por 17 anos. Era um casamento até que normal, mas não era exatamente o que eu procurava. Eu me colocava numa situação de que eu tinha que ficar ali, tinha que ser o José Francisco. A Ana Carolina estava dentro de mim, mas eu não a deixava aflorar”, contou.

“Eu nasci num corpo, mas a minha mente é totalmente ao contrário. O meu tratamento hormonal foi pra isso, pra ir de encontro ao gênero que eu me identifico. Eu nasci uma menina presa num corpo masculino. Eu casei, tive uma filha, mas foi tudo natural. Eu tinha relação sexual com a minha esposa, mas não era o que eu queria mesmo”, explicou Apocalypse.

Transição de gênero

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Crédito: Reprodução/InstagramAna Carolina Apocalypse após colocar prótese de silicone

Sobre a transição de gênero, Ana fez todo o processo no Sistema Único de Saúde (SUS), em São Paulo, com a ajuda de sua família. “[Minha família] nunca me abandonou, como já disseram por aí”, fez questão de ressaltar.

Não foi fácil, são várias etapas, que ela considera “muito importante” para quem quer fazer a transição. “A gente tem o posto de atendimento do SUS, lá na rua Santa Cruz [zona sul da capital], e eu não sabia. Você chega lá, primeiro você passa com uma endócrino que vai primeiro olhar a sua saúde, vários detalhes, vai te pedir alguns exames”.

Para Apocalypse, primeiro houve o momento de decisão, que foi fundamental para conseguir o aval dos psicólogos e psiquiatras. “Quando eu fui lá, passei três vezes com a psicóloga. Eu não sabia nada, cheguei lá para aprender. Então fui com meu vestuário normal, de menino e me perguntaram: ‘Quem você é?’. Logo respondi: Eu sou a ‘Ana’, falei de mim como me sentia. Me perguntou se eu era casada e eu confirmei, ela [psicóloga] então falou que não ia me liberar porque achava que eu iria voltar atrás, me arrepender. Eu só pensei: ‘Ah meu Deus, pronto. Agora é uma pedra no meu caminho'”.

Mas Ana não se deu por satisfeita. “Depois disso eu pensei: ‘Quer saber de uma coisa…’. Eu fui e peguei uma blusinha que uma amiga tinha me dado, me arrumei toda e voltei lá. Quando ela me viu, já gritou: ‘AAAANA’. Eu segui muito educada com ela, me questionei se ela teria se convencido de que eu queria mesmo fazer, mas não perguntei nada, fui com calma trilhando meu caminho”.

“Depois de tudo isso, ela me disse que se convenceu e me deu a autorização para iniciar o tratamento hormonal, que demora dois anos. Até hoje, de vez em quando, eu vou lá, faço exames de rotina”, contou.

Para ela, o serviço disponibilizado pelo SUS é completo e deve ser seguido à risca. “As pessoas precisam fazer pra si, para serem felizes, não para atender expectativas dos outros. Jovens são muito apressados, querer aparecer, reclamam do tempo que demora para fazer a transição no SUS, mas eu acho importante, a gente precisa ter muita certeza, se conhecer muito bem. Fazer é mais fácil do que reverter. No SUS é completo, tem endócrino, psicóloga, psiquiatra, todos os médicos. É um perigo o pessoal ficar injetando hormônio sem acompanhamento”, alertou.

Ana não fez a cirurgia de designação sexual e explicou: “Eu tenho o direito de fazer a cirurgia íntima, mas eu tenho outras prioridades, agora. Preciso trabalhar, a cirurgia me demandaria ficar um tempo fora, para recuperação”.

O que ela mais queria era colocar uma prótese de silicone e conseguiu com a ajuda de sua filha. “No meio do ano passado eu me inscrevi numa clínica, que a minha filha me indicou. Um cirurgião que coloca silicone em pessoas do sexo masculino. Coloquei a prótese no hospital particular, gastei R$ 10 mil, o SUS não cobre o silicone, só a cirurgia íntima, mas eu queria muito o peito, realizei um sonho. Sou muito feliz com ele, realizada. Não dava pra usar vestido, decote era complicado, ia colocar meias enroladas pra fazer o volume?!”, brincou Ana, que afirmou estar realizada com a prótese. “Foram os 10 mil mais bem gastos de toda minha vida. Minha filha chegou a me perguntar se me chamava de pai ou de mãe, eu disse ‘mãe né’ e ela tem duas mães, mas eu sou divorciada agora”.

Transfobia

Apocalypse afirmou nunca ter sofrido transfobia. Para ela algumas situações que oprimem muitas pessoas nunca a abalaram. “Eu nunca sofri preconceito, sempre fui muito bem educada, trato todo mundo bem, sou divertida, acordo alegre, dando risada e vou dormir assim também. Não é que não tenha momentos tristes, claro que tem, mas não é o que mais aconteceu. Tem gente que me chama no masculino, principalmente na rua, mas sabe que eu não ligo não. Até entendo, tenho uma aparência masculina ainda, mesmo fazendo as unhas. Quero fazer harmonização facial até antes do que tenho vontade de fazer a cirurgia íntima”, disse.

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Crédito: Reprodução/InstagramAna Carolina Apocalypse arrasando com sua make e tomando aquela cervejinha

Sucesso na Internet

O sucesso nas redes sociais surgiu com a brincadeira que viralizou do FaceApp, em que as pessoas usavam o aplicativo para ver suas versões no sexo oposto. Depois de ver diversas pessoas mostrando suas fotos ela resolveu fazer a dela, mas com fotos reais e não criadas digitalmente. “Resolvi expor minha foto, antes e depois”. Ela revelou que a foto do antes “foi tirada quando estava procurando a vaga na transportadora de caminhão”.

“Na hora a foto viralizou. Quando vi falei: ‘Gente do céu’, eu não acreditei, foi aquela coisa, meu celular não parava, apitava e apitava a toda hora”, disse Ana.

Muito agradecida, Apocalypse sempre quer responder pessoalmente a todo mundo. “Mas a coisa foi crescendo, eu preciso trabalhar, não dou conta de responder tudo, mas eu queria muito. Valorizo muito o carinho que tenho recebido, me sinto prestigiada, lisonjeada é muito legal. Foi uma loucura em pouco tempo eu já tinha mais de 39 mil seguidores”.

Crédito: Reprodução/InstagramAna Carolina Apocalypse com seu cafézinho não quer guerra com ninguém

Ana Carolina Apocalypse logo ficou famosa na web e até perfis fakes fizeram dela. “Depois de pedir ajuda pro pessoal no Twitter para denunciar, com o apoio eu consegui derrubar os fakes, graças a Deus”, afirmou.

Nessa onda da fama, até informações falsas sobre a vida de Apocalypse começaram a circular na internet. “Chegaram a dizer que eu tinha sido abandonada pelos meus filhos e netos. Isso não é verdade, eu não tenho filhos, eu tenho uma filha e nunca fui abandonada por ela, nem destratada pela minha família, muito pelo contrario”, ressaltou.
Ela ainda fez questão de desmentir porque é uma “pessoa do bem”. “Se eu fosse uma louca da vida tinha usado isso pra pedir dinheiro, mas eu não sou isso. Fiz questão de desmentir”, frisou.

Ana tem uma visão “bem pé no chão” quanto à exposição. “Não espero nada da fama, sigo fazendo meu trabalho. Quero aproveitar tudo que tiver pra acontecer, mas também não fico esperando nada”.

Tempo

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Crédito: Reprodução/InstagramApocalypse: A dor e a delícia de ser uma idosa trans no Brasil

Apocalypse disse que esperou o tempo certo para tudo acontecer e não acredita que a idade foi um fator negativo. Ela não ligou para as críticas quando decidiu fazer a transição. “Eu esperei acontecer. ‘Ah, mas você já está velha’, ouvi de algumas pessoas. Não tem nada a ver, tudo tem seu tempo, tudo na minha vida aconteceu no tempo certo. Hoje estou aqui”, afirmou.

Ana não se considera referência para pessoas trans, sejam elas jovens ou idosas. “Não acho que eu seja referência pras pessoas, eu não tenho perfil de personalidade. Eu acho que cada um tem o seu jeito especial de ser, hoje o que é bom é a inclusão. Eu converso com muita gente, é muito triste ver pessoas que não conseguem ter a coragem que eu tenho, por causa do preconceito e tantas coisas”, afirmou.

“Bom vai ser quando ninguém tiver mais medo de ser quem é”, finalizou Ana Carolina Apocalypse.

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Por: Maíra Campos

Jornalista, crente na transformação da sociedade num lugar justo e igualitário. A louca do carnaval carioca, inimiga do fim de qualquer rolê, além de gorda e maravilhosa