Mãe não é tudo igual

Leticia, Rosangela, Juliana, Maria da Conceição e Gislayne. Para celebrar o Dia das Mães, a Catraca Livre convida você a conhecer a trajetória de cada uma delas e descobrir a realidade por trás do amor materno

O que a maternidade representa para você? Para Leticia, Rosangela, Juliana, Maria da Conceição e Gislayne significa coisas profundamente distintas, mas com um final semelhante: o amor.

De fato, ser mãe é um ato de generosidade e de dedicação ao outro, no entanto, este momento não pode ser resumido apenas a duas palavras utilizadas, por vezes, como clichês. É preciso olhar para a representatividade que os termos carregam para cada mulher que se torna mãe, pois são as complexidades das histórias que trazem sentido para o seu fim.

Para celebrar o Dia das Mães, a Catraca Livre convida você a submergir na trajetória de cinco mulheres para descobrir a realidade por trás do amor materno. A dor, a solidão, o cansaço, os erros, mas também a superação e os aprendizados que cada uma vivenciou em sua jornada de doação e de altruísmo.

Amor, dor e solidão

“A maternidade é uma escola e, depois que eu tive essa experiência, valorizei mil vezes mais a minha mãe, porque eu não tinha ideia do que ela tinha passado.”

Aos 24 anos, Letícia de Angelis decidiu ter seu primeiro filho. Preparou o quarto, o enxoval e as expectativas para o novo momento de sua vida. “Eu tentei durante 6 meses. Conhecia pouquíssimo sobre a gravidez. Ainda assim, decidi que queria ter essa experiência”, conta.

O sonho da maternidade perfeita foi interrompido horas antes do parto, por uma negligência médica e uma violência obstétrica que a machucou e quase levou o seu bebê à morte no momento em que nasceu.

Foram 16 dias em uma Unidade Intensiva de Saúde (UTI) até que Eduardo pudesse ir para casa. Letícia e o marido não contavam com o apoio de uma pessoa próxima que pudesse ajudá-la nos primeiros momentos, e a licença paternidade de cinco dias – conforme determina a lei – havia se esgotado enquanto o filho ainda estava hospitalizado.

Sozinha, ela relembra que viveu uma mistura de amor por uma vida gerada e de medo por um trauma não superado. Teve que aprender por conta própria os detalhes do cuidado diário que ninguém lhe contou. “Depois de chorar muitas vezes, aprendi a dar o banho certinho. Depois de o peito empedrar, doer e dar febre, aprendi que tinha que massagear durante o banho”, compartilha Leticia.

Ela reconhece que, ao contrário do que imaginava, a relação de afeto e amor com Eduardo foi construída dia a dia, a partir dos erros, das dificuldades e também das superações que mãe e filho enfrentaram juntos. “É incrível você criar uma pessoa e ver que o seu esforço está gerando resultado”. Para ela, o amor surgiu da jornada diária e não apenas do nascimento.

No entanto, a depressão pós-parto e o estresse pós-traumático também revelaram um outro lado de quem escolhe ter um filho. O despreparo, as mudanças no corpo, a dedicação constante e, principalmente, o cansaço. “Às vezes, tudo o que você quer é chorar, mas você tem que sorrir e brincar com o bebê”, desabafa.

Ainda assim, ela afirma não se arrepender de sua escolha, mas ressalta que é preciso ter coragem: “Não são só flores, tem os espinhos. Nem por isso deixa de valer a pena”.

Doação em tempo integral

Aprender com a vida e com o amor também foi a experiência de Rosangela Ferreira. Aos 29 anos, ela aguardou por nove meses a chegada de Caio, à época, com apenas 90 dias. A adoção era um desejo que compartilhou e amadureceu ao lado de seu marido desde o início do relacionamento.

Aos 4 anos de idade, Caio foi diagnosticado com autismo, e Rosangela desabafa que foi como se um buraco tivesse se aberto diante de si. “Mesmo em uma gestação normal, você imagina um filho perfeito. É o que você deseja e pede para Deus todos os dias. Quando a gente soube disso, foi muito difícil.”

Emocionada, ela conta que, com o apoio do marido, começou a estudar todas as formas de amar e de promover bem-estar para o filho. Inclusive, ela contrapõe o estigma de que autistas não demonstram sentimentos. “A gente consegue enxergar em cada palavra, em cada gesto, uma forma de ele demonstrar o seu carinho e seu amor por nós. Não é só com abraço”, afirma.

A mãe reconhece que a maternidade não é fácil, tem uma série de restrições, principalmente em relação à doação integral da mãe para o filho. Embora, para ela, a troca de afeto seja o que motiva a conexão entre eles. “Foi difícil, mas ele tem me mostrado como lidar com isso e, por isso, eu o amo mais a cada dia.”

Gêmeos aos 18 anos de idade

“Contam que você vai perder as baladas, que você vai perder a sua vida, que o seu corpo vai ficar diferente. É cada julgamento que se esquecem de te contar que ficar em silêncio com o seu bebezinho – com os meus bebezinhos – faz tão bem. Eu poderia comparar isso à melhor festa que eu já fui.” Para Juliana Lopes, a maternidade foi um pulso de vida.

Aconteceu aos 18 anos, quando estava prestes a ingressar na faculdade. O susto de uma gestação não planejada, em seu caso, veio em dobro: grávida de gêmeos.

Ela admite que tinha o desejo de ser mãe, mas não naquele momento. Decidiu, então, que assumiria a nova responsabilidade sem deixar de lado os planos que tinha traçado para o seu próprio futuro. Cuidou do quarto, do enxoval e do chá de bebê ao mesmo tempo em que frequentava as aulas e realizava os exames do curso de psicologia.

Inclusive, foi em plena sala de aula – em um de seus períodos no primeiro ano universitário – que a bolsa rompeu. Os gêmeos Victor e Davi nasceram prematuros e, em função disso, tiveram que passar uma longa temporada hospitalizados. “Um ficou internado 46 dias e o outro, 56. Durante esse período, eu ia para o hospital todos os dias”, fala, com emoção.

Crédito: Arquivo pessoalJuliana, Victor e Davi

Ainda que tenha sido uma jornada dolorosa, o tempo na ala hospitalar representou o elo entre a mãe e os filhos, sentimento que não conseguia dimensionar com exatidão quando eles estavam na barriga.

“Talvez pela imaturidade, pela ansiedade de ter tudo [carreira e vida social] e ver que – de alguma forma -, com eles, isso poderia ser interrompido pela pressão de que minha vida acabaria”, admite Juliana sobre os comentários e julgamentos que recebeu por ter sido mãe em um momento considerado inadequado pela sociedade atual.

A mãe de Victor e Davi, inclusive, destaca que lidar com as opiniões alheias foi uma das coisas mais complicadas da maternidade: “A senhora que está andando na rua acha que sabe mais sobre os seus filhos do que você. Acha que sabe o que é melhor para eles do que você. Isso me desestabilizava porque eu estava sendo a melhor mãe que eu poderia ser. Eu sabia disso”, desabafa.

Graças ao apoio e ao suporte que recebeu do namorado, da família e de seus amigos, ela conseguiu equilibrar os filhos e os estudos. Concluiu a faculdade e se formou psicóloga com um olhar ainda mais sensível para o mundo, para as crianças e para as outras mães que compartilham histórias semelhantes à sua.

Ao longo deste período, ela amadureceu, fez novos amigos e continuou seu namoro com o pai dos gêmeos, como qualquer outra jovem de sua idade. Apenas uma coisa mudou: ela quer estar ao lado de pessoas que vejam Victor, Davi e ela como um só coração. A vida passou a ser “eles” e não apenas Juliana.

Sobre a experiência da maternidade, ainda que a sociedade diminua o sentimento que uma mãe jovem tem, ela diz: “É um amor diário. É um amor que não tem hora, não tem tempo, não tem pausa”.

A ruptura pelo trabalho

A história de Maria da Conceição, em alguma medida, converge com a de Juliana. As duas tiveram que aprender a dividir a maternidade com a carreira. Uma por escolha, a outra por necessidade.

Foi em 1987 quando tudo aconteceu. Ela descobriu que estava grávida no mesmo período em soube que havia passado em um concurso público. Maria da Conceição conta que no momento em que teve a certeza de que seria mãe, ficou um tempo sentada na escadaria do laboratório apenas assimilando o que estava por vir. O mundo girou em sua cabeça, assim como em seu estômago.

Apesar da insegurança, ela foi chamada para trabalhar e tudo correu bem ao longo de sua gravidez tanto do ponto de vista da mulher, quanto da mãe e da profissional. Na verdade, mal sabia ela que o desafio maior de sua vida ainda estaria por vir: encarar o final da licença maternidade.

“Para mim foi muito difícil. Ali eu tive certeza de que não teria mais nenhum filho. Tive que deixar ele muito pequeno”, relembra. Mesmo depois de tanto tempo, ela se emociona ao rememorar os fatos de seu passado, demonstrando que, apesar dos anos, a maternidade para algumas mulheres é um ciclo sem ponto final.

Mãe solo, teve que aceitar o fato de que a carreira seria uma necessidade para que, juntos, ela e Julio Cesar pudessem construir uma história. “Éramos só nós dois mesmo e eu tinha que criá-lo. Foi o momento que eu tive que cortar o cordão umbilical [e trabalhar]”, comenta.

Foram momentos duros e doloridos. “Teve um dia que eu levantei às 4h da manhã. Na verdade, não dormi. Estava esperando o melhor horário para pegar o ônibus para levá-lo ao médico. Ele tinha febre e se queixava de dor de cabeça”, narra a mãe.

Maria da Conceição chegou ao Pronto Socorro de Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo, quando o sol nem sequer tinha raiado, mas o atendimento só veio no meio daquela manhã e de forma pouco efetiva. “Naquele dia eu falei: nunca mais vou levar o meu filho em um hospital público. Vou trabalhar ainda mais para pagar um plano de saúde.”

Até descobrir que Julio sofria com otite e sinusite, foram idas e vindas ao hospital. “O mais doido é que eu não podia ficar com ele durante o dia porque eu tinha que trabalhar”, comenta sobre a dualidade que vivia entre a necessidade e a vontade de crescer na profissão.

Hoje, 30 anos depois, graças aos esforços e à dedicação de Maria da Conceição, seu filho Julio está no exterior trilhando os mesmos caminhos que a mãe: cuidando de sua carreira.

Apesar da distância, ela diz que está feliz e realizada por ver que tudo valeu a pena. “Embora a gente tenha passado por muita necessidade, eu falava para ele que eu o amava e que ia ficar tudo bem”, conta. E destaca que o diálogo é um dos segredos de uma boa relação.

Quando o momento de ser avó chegar – ela aguarda ansiosa – uma das coisas que se comprometeu a fazer é compartilhar com a nora o seu passado: “Eu vou procurar falar para ela sobre as coisas que eu passei. Eu não tive as pessoas do meu lado falando. Vou procurar tranquilizá-la sobre o dia a dia de um filho”.

Optar pelo crescimento profissional não foi fácil, mas foi essencial para que Maria da Conceição pudesse crescer. Para quem nasce em uma realidade sem privilégios, vencer uma batalha é confortar o coração. “Faria tudo de novo por ele.”

Mãe e empreendedora

Os relatos mostram que aceitar ou escolher a maternidade requer coragem e resistência para construir uma relação com a criança que está por vir. Mas e quando o final não é este? E quando aquele bebê que você tanto esperou não chega ao seu colo? É quando a força para continuar tem de vir em dobro para lidar com a situação.

Gislayne Santos passou por isso em sua primeira gravidez. Aos oito meses de gestação, entrou em trabalho de parto por uma vida que não estava mais lá. Além de crises de ansiedade, a dor da perda de seu filho a fez desenvolver síndrome do pânico.

Os reflexos da experiência negativa também influenciaram sua segunda gestação com medo e inseguranças. “Eu queria fazer tudo e ao mesmo não queria fazer nada por medo da perda. Não estudei, não queria ler [sobre gravidez]”, conta a mãe.

Para a alegria e a tranquilidade de todos, Maria Alice veio repleta de saúde. Foi aí que as descobertas e as dificuldades compartilhadas também por outras mães, como Leticia, apareceram:

“Eu sempre achei que a amamentação fosse feita de forma instintiva, a criança ia pegar o peito e tudo ia fluir maravilhosamente bem. Que o amor viria na mesma hora, assim que eu olhasse para a carinha dela”, compartilha Gislayne sobre os primeiros momentos com a filha e a constatação de que o amor é como subir uma escada, avança e cresce a cada degrau.

Crédito: Arquivo pessoalGislayne e Maria Alice

Em paralelo às superações do dia a dia, Gislayne teve seu contrato de trabalho rescindido. Maria Alice tinha 30 dias, Gislayne era mãe e não tinha mais um trabalho fixo. Teve que se preocupar, então, com o que faria para ajudar seu marido no sustento da casa e, ao mesmo tempo, manter sua independência financeira e realização profissional.

Foi amamentando sua filha, atividade tão dolorosa em um primeiro momento, que o estalo veio à tona. Seu marido trabalhava com estamparia e confecção e, à época, ela tinha pedido que ele fizesse algumas peças personalizadas para Maria Alice.

A partir da constatação de que a moda infantil ainda está muito centrada em cores e modelos determinados por gênero, resolveu investir em camisetas engajadas para crianças e pais. “Eu descobri que eu poderia fazer isso para vender e foi daí que surgiu a Minitees”, conta.

Conciliar maternidade e o novo negócio foi desafiador desde o primeiro momento. Gislayne atribui à sua mãe grande parte do suporte para que isso tudo fosse possível.“Ela é a minha maior rede de apoio. Ela é o meu corpo inteiro, não só o meu braço direito”, fala, com orgulho.

Nem por isso ela esconde que tem dias complicados. “Tem horas que a frustração bate e você não tem tempo”, compartilha sobre as ocasiões em que o trabalho fica acumulado pela sobrecarga de tarefas como mãe e como empreendedora.

Ainda assim, Gislayne vê como uma jornada de força tudo o que vivenciou. Superar a perda de um filho, aprender a amar incondicionalmente outro, não deixar de lado os seus sonhos e olhar para trás com a certeza de que, hoje, nada mais pode te abalar.

“Ser mãe, para mim, foi o maior teste da minha vida. Antes eu me achava fraca, que não suportava nada e que era um ser humano médio. Depois que eu fui mãe pela primeira vez, descobri que não: Eu sou muito forte”.

Reportagem:

Alessandra Petraglia

Vídeos:

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Allan Hipólito
Gabriel Nogueira
Francine Costa

Design:

Camila Lustosa

Edição:

Paula Lago