Os alunos da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, sabem que o intervalo acabou quando ecoa, por todo o pátio, o som da música tema do clássico “Indiana Jones”. Intervenções como esta, que deixam o ambiente escolar mais leve e divertido, são idealizadas pela diretora do colégio, Paula Beatriz de Souza, 46 anos, que ocupa o cargo há 14 anos.

É assim, com dedicação e amor diários pela educação, que Paula conduz seus 28 anos de carreira. Ela é a primeira mulher transexual à frente da gestão de uma escola pública da rede estadual de SP, mas não quer ser o único exemplo. Sobretudo, quer ensinar aos estudantes o poder transformador do respeito à diversidade.

A educadora cresceu no Campo Limpo, zona sul, e também estudou em escola pública, mas compartilha um passado marcado pela discriminação.

“Quando eu estava na 5ª série tive que mudar de escola porque era agredida constantemente por colegas. Minha mãe me matriculou em uma escola particular, tradicionalmente católica, onde se poderiam ter vários choques e não se teve tanto assim”, conta. No ensino médio ela retornou para a rede pública, na mesma unidade que sofreu as agressões.

Créditos: Gabriel Nogueira/Catraca Livre

Paula Souza atua há 28 anos na educação

“Na época [ainda na década de 1980] minha orientação sexual era homossexual, pois eu ainda não tinha exteriorizado a Paula”, explica ela. Segundo a diretora, o processo de transição de gênero – a exteriorização, como se refere – começou aos 37 anos “por conta dessa sociedade tão fundamentalista, tão conservadora, tão machista, tão sexista e até hipócrita em relação à nossas questões”.

“Fui atrás e decidi expor a Paula para fora. Na verdade, eu não estava em um corpo que não me pertencia, às vezes têm essas colocações. Já era o meu corpo, só que por conta dessas questões maçantes [citadas acima] que a sociedade impõe, eu não me trajava com as roupas femininas, até por medo de ser agredida ou violentada”, desabafa.

Respeito à diversidade dentro da escola

“O desejo de ser professora veio desde a minha infância. Minha mãe foi servente de escola e também zeladora, então eu já vivia neste ambiente. Inclusive, minhas professoras da 1ª a 4ª série sempre me pegavam para ser a ajudante da classe, corrigir dos colegas”, conta orgulhosa sobre seu envolvimento com a educação.

Créditos: Gabriel Nogueira/Catraca Livre

Hoje com 46 anos, Paula se exteriorizou aos 37

Na E.E. Santa Rosa de Lima, que atende mais de 900 alunos dos 6 aos 10 anos, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, uma das missões é difundir o respeito à diversidade. “A gente tem que garantir em nosso projeto político-pedagógico essas questões da diversidade, não só pensando nas questões LGBT, mas também as questões do diferente”, avalia Paula.

“Acho que a palavra fundamental em todo o processo da educação e, principalmente em nossa escola, é o respeito. E quando se tem as dúvidas, vamos pesquisar, vamos estudar, vamos ler, vamos nos inteirar e nos informar para melhor atender essa população.”

Dificuldades da população trans no mercado de trabalho

Paula ingressou no cargo de diretora por meio de concurso. “No público não existem essas barreiras, de quanto você ser negra, ser mulher, ser deficiente, ser mulher trans ou travesti. Mas fico me indagando: será que em uma escola particular eu seria diretora? Teria a oportunidade de lecionar?”, ela questiona.

Créditos: Daniel Guimarães/Secretaria da Educação SP

O sonho de ser professora surgiu lá na infância

Importante abordar que, ainda, a população trans encontra dificuldade de se inserir no mercado de trabalho por conta do preconceito. “É isso o que acaba acontecendo com muitas. A sociedade ainda não nos vê como pessoa humana”, disse a educadora.

“Eu ocupando esta cadeira [na sala de diretora], esse espaço, eu consigo mostrar para a sociedade que eu sou uma pessoa humana, tenho a minha dignidade, a minha moral, minha ética e que todas as outras [pessoas trans] também têm”, afirma.

Mesmo favorecida com a retificação do seu nome, sexo, e por estar empregada, Paula não se esquece da luta, que é diária e contínua. “Não é uma luta só minha. Não posso me acomodar e deixar que as outras pessoas fiquem sem nada. Eu tenho esse papel enquanto cidadã”.

  • Assista a entrevista com a diretora:

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Jornalista e redatora, cobre assuntos de Educação e Universidades no Catraca Livre. É integrante da Mural, primeira agência de jornalismo das periferias de São Paulo.

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