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"Serviço" é o primeiro disco solo de Castallo Branco

Não são poucos os artistas que resolveram seguir seus próprios rumos e nos presentearam com belíssimos trabalhos. Para falar de alguns dos mais conhecidos e recentes, podemos citar Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos, ou então Cícero, ex-vocalista da banda Alice. Ainda mais recente que os dois, Rodrigo Amarante, outro ex-integrante dos Hermanos, também lançou recentemente seu primeiro trabalho completamente sozinho, o delicado e instrospectivo Cavalo – vale lembrar que o Little Joy era uma parceria entre ele, Fabrizio Moretti, dos Strokes e a multi-instrumentista Binki Shapiro. O que todos os três têm em comum é o rompimento, alguns mais discretos, outros mais ousados, com a estética que seguiam em seus projetos anteriores.

E é nessa mesma linha que chega o primeiro trabalho solo do ex-vocalista da banda R-Sigma, Castello Branco. Seu Serviço, debut-album com 12 faixas, mantém suas letras melancólicas e amorosas de antigamente, mas as músicas adotam, desta vez, um aspecto mais do campo, mais silencioso, ao contrário de antigamente, quando as guitarras e as viradas de bateria ocupavam tanto espaço quanto seus versos.

E é já na primeira música que essas características se evidenciam. Intro-ave é o ponto de partida perfeito para um disco que parece ter sido criado no quarto da casa, num dia calmo e sem grandes ansiedades, exceto aquela de encontrar o belo, o próprio, aquilo que mais expresse o que está por dentro. Com pouco mais de 30 segundos, ela faz a cama para a entrada da magnífica de Crer-Sendo, segunda faixa do disco. “Preciso amar de menos, de menos a mim e mais atento. Preciso amar atento, atento pra não ceder por dentro” é a frase que surge cortada pela melodia do violão. É esse mesmo tema, delicado e romântico – sabendo adequar os clichês a uma estrutura concisa  – que vai carregar todo o resto da obra.

Depois de duas faixas um pouco mais agitadas e com cara de samba, Necessidade e Tem Mais que Eu, chega a instrumental Entreaberta, quinta faixa do disco, que lembra muito a estética arrastada do Sou, primeiro disco do Marcelo Camelo, principalmente na quedas que a melodia sofre para os acordes menores, nas alterações brandas, mas bem pontuadas, que a harmonia vai sofrendo ao longo do tempo.

Palavra Divina, Quietude Extraordinária que conta com a participação de Alice Caymmi não tem letra, mas tem voz. Toda a melodia é construída tendo como base um violão e a voz da cantora que murmura um lamento triste ao longo de toda a canção, que tem menos de 2 minutos. E não é só neste momento o músico tem a colaboração de outros artistas. Castello contou também com a parceria de Ana Lomelino (do Tono), do guitarrista Gabriel Ventura (que faz parte das bandas Ventre e do próprio Cícero) e de Maria Eduarda.

A deliciosa Necessidade tem um ritmo parecido com algumas das coisas produzidas pela banda baiana Maglore, principalmente em seu último disco, o Vamos pra Rua. Semelhanças que se reforçam com o vocal arrastado, puxado pela melodia que mistura samba com uns sintetizadores calmos ao fundo, criando uma atmosfera que te vai te obrigar a repetir a música pelo menos mais uma vez.

Apesar do clima de outras músicas que se assemelham com algumas das novas produções dessa nova geração da MPB, Castello não se agarra à fórmulas para construir seu discurso. Ao contrário. Em várias delas é possível identificar referências estéticas de artistas da velha guarda, como o Clube da Esquina e a própria mistura que os Novos Baianos faziam dos ritmos brasileiros com o “rock”. Por falar em referências, não posso deixar de destacar a capa, que em alguma coisa me lembra um dos melhores – senão o melhor – trabalhos do cantor e compositor Marcos Valle, o disco Vento Sul, de 1972.

Com passagens que vão do samba ao instrumental silencioso e minimalista, do pop de KDQ à bossa de Céu da Boca, o disco constrói um retrato simples, mas completo, de um artista que começa a mostrar sua obra além dos véus escuros das guitarras e distorções. E é com todas essas nuances e tons diferentes, mas que se compõem brilhantemente na construção de um significado, que o disco vai chegando ao fim com Guerreiros, que pode ser imaginada finalizando um musical, um filme ou cantarolada por uma multidão, afinal “somos guerreiros nesse lugar, vindos de lugar comum, nossa voz, nossa luz, nossa”.

Antes de fechar as cortinas – ou a porta do quarto – chega Anu, a última faixa do disco. Também instrumental, a música, guiada por um violão e som de pássaros ao fundo é, sem dúvida, uma das mais introspectivas do disco. Com uma melodia que se aproxima do minimalismo, as notas harmônicas das cordas produzem um sentimento sem a necessidades de uma letra. Com o mesmo nome do pássaro preto, a faixa deixa a certeza de que o artista ainda tem um céu imenso para ser explorado e que precisamos de voos cada vez mais longos para conhecer ainda mais seu belíssimo e particular ponto de vista. Do alto.

Para fazer o download gratuito do disco, acesse http://www.castellobranco.nu/

E dá para ouvir também, sem pagar nada, no SoundCloud do Castello: https://soundcloud.com/castellobranco/

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Trabalha todos os dias para poder viajar um dia, viver tocando violão e se esquecer do trabalho. Mas ganha muito pouco para isso. Tá tudo errado.

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Lançamento do disco Serviço, do Castello Branco, ex-vocalista da banda R-Sigma.

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