A Rede Catraca Livre e o Instituto Pinheiro agradecem a todos os usuários que enviaram conteúdo inspirado no tema Setembro Verde para o Concurso Cultural Vale Catraca. As quatro produções vencedoras foram selecionadas pela equipe do Catraca Livre com apoio de Juliana Gatti, do projeto Árvores Vivas, Kico Santos e Fabio Nickolaus do site Cinema de Rua.

A obra “Pense Positivo” foi desclassificada do concurso uma vez que a originalidade da obra não  foi comprovada. A imagem “bomb tree” é uma composição existente, e já  foi utilizada em outras campanhas ambientais. Agradecemos a todos os participantes, e ao público do site Catraca Livre.

Primeiro Lugar: Marcello Nascimento de Jesus

Documentário " Saindo da Lixeira"  produzido pelo Grupo Alma Ambiental.. Para assistir o documentário completo, clique aqui.

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Segundo Lugar: Gabriel Martins

Créditos:

Setembro Verde: Gabriel Martins

Terceiro Lugar: Lêda Rezende

Crônica Setembro Verde

A noite estava calma. Dentro do que se consegue de calma – numa noite em meio a tanta urbanidade. Passara o dia entre carros e metrôs. O clima estava seco. Muito seco. Lacrimejava com facilidade. De onde viera isso era um acontecimento da ordem do impossível. Até do inacreditável. Mas não era momento para saudosismos ou comparações. Afinal mudara-se para onde escolhera bem lúcida e orientada – caso algum curioso Legal a questionasse.

Enfim. Prosseguiu o dia da rotina do jeito que a rotina se estabelecera – nem lembrava mais desde quando. E assim ficara. Apressada e lacrimejando. Já estava tão habituada que – por onde quer que colocasse a mão – já encontrava um lencinho descartável. Nomeara de “lágrimas químicas”. Sempre falava de si para si – melhor estas do que as emocionais. Deixa estar. E seguia o proposto.

A sala do atendimento onde trabalhava não tinha janelas. Não tinha janelas. Simples. Mas fora outra escolha lúcida. Ele avisara. Ou fica em sala com janelas e calor – ou sem janelas e ar condicionado. Não houve espera na decisão. Foi logo respondendo. Acho melhor sem janelas. E passava as horas funcionais dos dias ditos úteis – sem calor – envolvida por quatro assépticas paredes brancas. Muitas vezes fazia chistes consigo mesma. Lá vou eu para o meu lençol de concreto.

Era o oposto de lá de onde viera. A sala onde trabalhara por tantos anos – tinha uma janela imensa. A vidraça expunha a ausência da parede. Olhava para um azul sem tamanho. Do céu. Do mar. Sentia-se como num convés de um navio. Sentada para o atendimento – se girasse um pouco que fosse olhar – já via a água azul enfeitando mundo afora e mundo a dentro. Era lindo.

Em meio aos insistentes apelos da Memória – chegou em casa. Já no final do dia. Pingando o colírio. Os olhos estavam uma lástima. Lembrou a amiga de lá. Quase escutou a voz dela com o sotaque lento. Diria em explícito tom dramático – você está uma lástima. Falaria isso colocando com delicadeza os cabelos por trás da orelha. Até riu. Não tinha como discutir. Estava mesmo uma lástima. Ainda bem que era só a lembrança – a amiga estava bem longe. Dispensava àquela altura qualquer comentário de fundo negativo. Mesmo que compatível com a realidade.

Cansada – dormiu mais cedo. Dia seguinte era o tal dia mal falado como inútil.

Acrescentou um novo aprendizado. Começou a acreditar numa determinada força – sempre citada. A Força do Hábito. Assim. Merecidamente com destaque em maiúscula. A tal Força a fez levantar cedo – bem diferente do planejado.

O sono se foi de um golpe só. Nem acreditou quando viu o mostrador do relógio. Sacudiu. Olhou de novo. Quase se revoltou. Mas – obediente – levantou.

Abriu a porta do quarto com especial sensação saudosista. Vai ver sonhara com mar e navios. Ou com janelas e vidraças. Vai lá saber. Estava sem o registro exato do que se passara com uma parte dela – enquanto a outra parte dela dormia.

Abriu a porta.

O passo seguinte – não foi um passo. Foi uma espécie de parada. E um gritinho. Mão na boca. Olhar de criança. Sorriso feliz – disfarçado pelos dedinhos.

Na varandinha da sala estava uma flor. Uma flor. Nascera na noite. Uma linda flor brilhava toda sedutora num galhinho verde. Até o vasinho parecia exibido. Falou alto – a primeira flor da Primavera. Aqui na minha varanda.

Dispensou janelas. Desprezou paredes. Saudosismos. Tocou os navios Porto a fora. Abandonou o Colírio. Já foi respondendo à amiga – de lá totalmente inocente – estou muito bem obrigada. Olhou para a ladeira em frente à varanda e viu – surpresa – as árvores pesadas de tantas folhinhas verdes.

É Setembro. Nem lembrava.

Jogou um beijo em direção ao relógio. Regou a plantinha. Elogiou a florzinha. Agradeceu à Força do Hábito. Arrumou-se. Saiu.

O Parque estava cheio – mesmo tão cedo. As pessoas caminhavam de todo jeito. Crianças corriam livres. Vozes e risinhos davam uma sonoridade de prazer por onde se passasse.

Não resistiu. Dirigiu-se para um espaço ainda vazio – sob uma árvore. Sentou-se. Sentou-se com vagar. Como que pedindo licença. Primeiro olhou. Depois foi descendo a mão com suavidade. Expôs a  palma das mãos. Assim. Como um toque assintótico. Sentiu a proximidade. Depois repetiu o mesmo com a pontinha dos dedos. E com a mesma suavidade – acariciou o verde da grama ainda úmida da noite. Sentiu as gotinhas nas folhinhas já mornas pelo sol – que aquecia e iluminava com generosa cumplicidade.

Sentiu a beleza. Sorriu para o calendário. Sim. Setembro. Primavera. Parecia a primeira Primavera que assistia. Lembrou do compositor das Estações do Ano. Sentiu-se tão universalmente pequena. Ele sim. Um sábio. Festejava com acordes de violinos. Perfeito. Perfeito.

Acima os galhos das árvores balançavam com as folhas frescas e juvenis. Havia flores para todo lado que virasse. Havia cheiro de festa. Havia cor de alegria. Uma emoção só.

Em torno do lago o verde – fortalecido – o emoldurava. O gramado e as árvores pareciam se utilizar da água como um espelho. Fosse feita aquela perguntinha do existir alguém mais belo – a resposta seria fácil desta vez. E plural. Não. Existe nada mais belo do que vocês.

Em mil formas a água – ondulando com o vento – desenhava galhos e cores. Um ballet no ar e um ballet na água. Alguns gansos deslizavam com total intimidade – compondo mais imagens com as ondinhas provocadas pela passagem deles. Todos branquinhos. Pareciam tão altaneiros. Vaidosos. Dava gosto olhar para eles.

Sentiu o cheiro. Desta vez nem respirou forte. Com toda a delicadeza deixou aquele aroma bom de terra e árvores entrar pelo corpo. Escolheu fechar os olhos por um instante. Não como se numa economia de sentidos – mas para que se multiplicassem numa ordenação espontânea. Sentiu até um festejar nas veias e artérias.

Passou o dia assim. Pelo verde. Com o verde. Através do verde.

Voltou para casa já no final da tarde. E foi óbvia. Correu para colocar a música dos tais violinos do sábio compositor. Assim regou a flor. Sob os lindos acordes. A primeira flor da Primavera. Assim falou para ela enquanto molhava com respeitosa alegria as pétalas – e as folhas do pequeno galhinho onde ela se amparava. Você é a mais linda e a primeira flor desta Primavera.

Lembrou por um momento da sala sem janelas. Deu de ombros. Já não importava tanto. Tudo tem o valor que cada um gradua. Enxergou – sem o colírio. Riu. Havia mais do que paredes brancas dentro dela – e no mundo lá fora. Estivesse onde estivesse. Há um eterno que não se pode interferir – como a beleza de um Setembro verde.

Organizou a rotina do dia seguinte.

Quarto Lugar: Gabriela Cherubini

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Objetos numa estante de um quarto. Dona Mãozinha vai dar uma esverdeada no molho de setembro!
Roteiro, direção e fotografia: Gabriela Cherubini e Marcelo Moraes
Música: André Vac