Do Androids Dream of Open-Source? O Futuro da IA entre GPT e DeepSeek

A disputa entre modelos de inteligência artificial nunca foi tão intensa, mas essa não é apenas uma batalha técnica, é uma disputa por influência global

25/03/2025 12:45

Deepseek vs GPT
Deepseek vs GPT - Imagem: Ioannis Eleftheriou | Divulgação

A disputa entre modelos de inteligência artificial nunca foi tão intensa. De um lado, temos o GPT-4o, um modelo fechado, altamente eficiente e operado por uma das maiores empresas de IA do mundo, a OpenAI. Do outro, o DeepSeek, um modelo open-source que aposta na transparência e no acesso democrático à IA. Mas essa não é apenas uma batalha técnica, trata-se de uma disputa por influência global e pelo domínio sobre a infraestrutura da inteligência artificial e do conhecimento.

A ascensão desses modelos redefine o que entendemos como inteligência artificial e quem terá acesso a seus benefícios, intensificando a tensão entre centralização e descentralização do conhecimento. Para entender as implicações disso, é essencial olhar além da capacidade bruta dos modelos e analisar como eles moldam nossa relação com a tecnologia e o futuro da inovação.

O que é Real e o que é Máquina?

Teste Voight Kampff realizado pelo caçador de replicantes Rick Deckard na androide Rachel ("Blade Runner " - 1982)
Teste Voight Kampff realizado pelo caçador de replicantes Rick Deckard na androide Rachel (“Blade Runner ” – 1982) - Divulgação

Sempre fui fascinado pelas obras de Philip K. Dick e pela estética cyberpunk, que exploram os limites entre humanidade e tecnologia.  Durante minha formação em Game Design, estudei como essas narrativas constroem mundos imersivos e levantam questões sobre identidade, controle e o impacto das grandes corporações. Hoje, atuando no campo da engenharia de machine learning e IA, percebo como essas reflexões se tornaram ainda mais relevantes com o avanço da inteligência artificial.

Suas histórias frequentemente desafiam o status quo, questionando o controle dessas grandes corporações e, principalmente, a maneira como a tecnologia redefine nossa realidade. Dois exemplos marcantes disso são os universos de “Blade Runner” e A Scanner Darkly, que ilustram como a inteligência artificial reconfigura nossa percepção de identidade e controle.

Em “Blade Runner” (1982), um futuro dominado por megacorporações vê a criação dos replicantes, androides indistinguíveis dos humanos, projetados para trabalho forçado e servidão. Rick Deckard, um blade runner, tem a função de “aposentar” aqueles replicantes que se tornam uma ameaça. Para identificá-los, ele utiliza o teste Voight-Kampff, que mede empatia, supostamente o traço que separa humanos de máquinas. No entanto, ao perseguir replicantes, Deckard começa a questionar se essa distinção realmente existe.

Já “A Scanner Darkly” (2006) retrata um futuro onde a vigilância é onipresente e drogas como a “Substância D” corroem a percepção da realidade. Bob Arctor, um policial infiltrado, usa um scramble suit — um traje que altera constantemente sua aparência para ocultar sua identidade. Conforme a investigação avança, a vigilância e a droga começam a fragmentar sua mente, tornando impossível diferenciar sua persona policial de seu verdadeiro eu.

Philip K. Dick escrevia sobre futuros onde as fronteiras entre o real e o artificial eram turvas, e hoje em 2025, não somos todos replicantes digitais? Nossas interações com chatbots, sistemas de reconhecimento facial e algoritmos de recomendação nos transformam em entidades híbridas, parte carne, parte código. A questão já não é “passar por humano”, mas definir o que resta de humano em um mundo onde até nossa empatia é simulada por LLMs.

A inteligência artificial nos obriga a revisitar esses dilemas: como distinguir o real do sintético? A disputa entre GPT (EUA) e DeepSeek(China) reflete essa dualidade. De um lado, a busca por desempenho absoluto e controle corporativo. Do outro, um modelo aberto e descentralizado, que se apresenta como alternativa à hegemonia tecnológica, mas que também levanta questionamentos sobre quem realmente detém o poder na era da IA.

A Nova Guerra Fria da Inteligência Artificial

Poder e Controle
Poder e Controle - Imagem: Ioannis Eleftheriou | Divulgação

Se no século XX a corrida espacial dividiu o mundo entre EUA e URSS, determinando a hegemonia global durante a Guerra Fria, hoje a supremacia em inteligência artificial definirá o equilíbrio de poder nas próximas décadas. As estratégias adotadas por cada lado são reflexo direto de suas prioridades e limitações.

  • EUA | OpenAI e Big Techs: Modelos fechados, com desempenho superior em tarefas multimodais e acesso restrito via API paga. A segurança e previsibilidade são priorizadas, mas ao custo da transparência;
  • China | Deepseek e o ecossistema de IA: Modelos open-source, priorizando custo baixo, acessibilidade e colaboração global. No entanto, a descentralização é limitada, pois Pequim mantém um controle rígido sobre sua infraestrutura digital.

Por trás dessa disputa tecnológica, há uma luta por domínio econômico. Os EUA, percebendo o avanço chinês, impuseram restrições severas à exportação de semicondutores avançados. Chips de ponta como o da Nvidia são essenciais para treinar modelos como o GPT, e as sanções visam conter o progresso da China. Em resposta, Pequim investe agressivamente no desenvolvimento de sua própria tecnologia, apostando em eficiência algorítima para driblar sua desvantagem de hardware.

Mas essa guerra não acontece apenas entre essas duas superpotências. Outras regiões também tentam se posicionar na disputa: a Europa avança com regulações como o AI Act, priorizando responsabilidade e transparência sobre inovação desenfreada; Oriente Médio e Índia investem em soberania digital, buscando independência tanto dos EUA quanto da China; Empresas privadas e coletivos open-source por todo o mundo desafiam o monopólio das big techs, propondo modelos comunitários como alternativa.

A corrida da IA, é , portanto, um jogo de poder distribuído, onde diferentes atores tentam moldar o futuro da inteligência artificial segundo seus próprios interesses. A questão central não é apenas quem lidera, mas quem consegue sustentar sua influência diante da velocidade da inovação. Como em Blade Runner, não é uma batalha de força, mas de sobrevivência: quem consegue se adaptar em um mundo onde a IA se tornou um campo de disputa entre corporações e governos?

Na minha análise, é geopolítica com DNA cyberpunk: futuros desiguais dissolvendo-se em algoritmos, como antecipou Philip K. Dick em suas distopias.

GPT vs DeepSeek: Replicante e Humanos Digitais

Se GPT-4o fosse um personagem de Blade Runner, seria um replicante: projetado para ser eficiente, mas restrito por seus criadores. Seu custo de treinamento ultrapassa US$ 1 bilhão, exigindo supercomputadores e energia massiva para sua execução. Sua abordagem lembra os modelos fechados de corporações, onde a IA responde, mas nunca explica seu pensamento.

Imagem Captura de Tela da ferramenta Deepseek
Imagem Captura de Tela da ferramenta Deepseek - Reprodução DeepSeek

Por outro lado, DeepSeek com o Deepthink (R1) se assemelha à luta humana por autenticidade em um mundo digitalizado. Utilizando arquiteturas Mixture of Experts (MoE), ativa apenas os neurônios necessários, reduzindo seu custo para US$ 557 milhões e permitindo acesso mais amplo. Seu modelo de código aberto possibilita auditoria e personalização, uma tentativa de aproximar a IA da transparência e da colaboração. Mas transparência sob quais condições? A China controla sua infraestrutura digital com punho de ferro, censurando informações e regulando o que pode ser acessado. Uma descentralização que ainda responde a um centro de poder.

ChatGPT O3-Mini-High
ChatGPT O3-Mini-High - Reprodução ChatGPT

Diante desse cenário, poucos dias depois a OpenAI reagiu com o lançamento do O3-mini, um contra-ataque estratégico dos EUA à ascensão chinesa no setor de IA. Mais acessível e otimizado para eficiência, o O3-mini não apenas reforça a competitividade da OpenAI, mas também marca um ponto relevante em uma nova fase onde a velocidade de lançamentos ofusca as novidades anteriores.

Assim como testemunhamos com os ciclos incessantes de inovação nas big techs, a era dos grandes modelos de IA está se tornando uma guerra de iteração constante, onde cada novo anúncio pode rapidamente perder relevância diante da próxima evolução. Nesse ritmo, a questão não é mais qual modelo lidera, mas quem consegue manter sua influência em meio ao turbilhão de novas inteligências surgindo no horizonte.

Corrida dos modelos
Corrida dos modelos - Imagem: Ioannis Eleftheriou | Divulgação

Vigilância e Identidade na Era da IA

Em “A Scanner Darkly”, Bob Arctor perde a capacidade de diferenciar sua identidade real de sua persona infiltrada. O mesmo ocorre hoje: estamos sendo vigiados por sistemas de IA que processam nossos dados para prever comportamentos. A IA assume um papel que vai muito além de apenas uma ferramenta de automação. Ela se torna um meio de vigilância ativa e preditiva. Governos e empresas utilizam seus modelos para controle social, monitoramento e previsão de riscos, muitas vezes sem transparência sobre seus critérios e limitações.

O ponto aqui é refletir tanto sobre o controle invisível dos algoritmos de recomendação como a contradição no discurso de descentralização da DeepSeek, que por exemplo, se apresenta como uma alternativa aberta, mas sua independência em relação as diretrizes estatais chinesas continua sendo uma questão central. O que chamamos de liberdade digital pode ser apenas um reflexo do controle que não enxergamos, pois, no fim, se todos os modelos de IA são construídos dentro de infraestruturas reguladas, quem realmente detém o poder sobre a inteligência artificial?

Qual o preço da identidade Humana?
Qual o preço da identidade Humana? - Imagem: Ioannis Eleftheriou | Divulgação

“Afinal, o que um scanner enxerga? No fundo da mente? No coração? Ele vê claramente ou de forma obscura?”

Como em Dick, a realidade é sempre filtrada por camadas de percepção e controle, mas isso não significa necessariamente um destino distópico. Se por um lado vivemos sob influência de algoritmos que moldam o que vemos e sabemos, por outro, temos a oportunidade de entender esses sistemas e usá-los para fortalecer a transparência e a autonomia humana. O desafio não é apenas evitar que a IA se torne uma ferramenta de vigilância, mas também garantir que ela seja um instrumento de compreensão e progresso coletivo. O que enxergamos pode ser uma ilusão, mas isso não nos impede de tentar construir uma verdade mais justa.

Por isso é extremamente importante refletir sobre o papel das políticas públicas e dos marcos regulatórios nesse cenário. No Brasil, por exemplo, debates recentes em torno do PL 2338/2023 que dispõe sobre o uso da Inteligência Artificial, sinalizam um esforço para equilibrar inovação e a proteção dos direitos dos cidadãos. Nos EUA, frameworks exigem transparência, ética e responsabilidade no uso da IA, na União Europeia, os países avançam com uma abordagem normativa robusta que busca harmonizar a inovação com valores fundamentais.

Enquanto isso, a China adota uma abordagem centralizada, onde o controle estatal permeia cada etapa do desenvolvimento tecnológico. Essa disparidade não apenas influencia o ritmo e a direção das inovações, mas também redefine o acesso e o uso da IA globalmente, configurando um tabuleiro geopolítico onde a tecnologia se torna tanto um instrumento de progresso como um mecanismo de poder.

Para quem deseja ir além e compreender as nuances das legislações internacionais sobre inteligência artificial, recomendo a consulta ao AI Watch Global Regulatory Tracker da White & Case. Essa ferramenta oferece análises detalhadas e atualizadas sobre as tendências regulatórias em diversas jurisdições, inclusive no Brasil, proporcionando uma visão abrangente que complementa o debate sobre o futuro e o controle da IA no cenário global.

O Futuro: Máquinas que Sonham ou apenas Cálculo Frio?

A inteligência artificial pode desenvolver empatia ? Se um modelo pode justificar suas respostas e aprender de forma transparente, isso o torna mais “humano”? A verdade é que não se trata apenas de uma escolha entre “Modelo fechado vs aberto”. A grande questão é: a IA está sendo projetada para servir a humanidade ou para ser uma extensão do poder político e corporativo?

O Sonho Elétrico
O Sonho Elétrico - Imagem: Ioannis Eleftheriou | Divulgação

Se a disputa entre GPT, DeepSeek ou qualquer outro modelo fosse um teste Voight-Kampff, o que definiria qual modelo realmente avança a humanidade? Não há uma resposta simples. A OpenAI oferece um modelo avançado, eficiente e seguro, mas fechado em suas decisões e acessível apenas a quem pode pagar. DeepSeek, surge com a proposta de democratizar a tecnologia, mas levanta preocupações sobre o controle e a confiabilidade de modelos abertos.

Estamos criando inteligências artificiais que nos ajudarão a evoluir ou estamos apenas replicando nossos próprios sistemas de exclusão? Talvez a resposta não esteja em escolher entre um ou outro, mas em compreender que a inteligência artificial é um reflexo das escolhas humanas. A humanidade não avança apenas pela superioridade técnica, mas pela capacidade de integrar inovação com valores éticos e sociais.

Se a IA continuar evoluindo sob os paradigmas que vemos hoje, podemos estar diante de um futuro onde existam tanto replicantes hiper competentes quanto seres que sonham com o entendimento coletivo. Não é sobre qual IA será dominante, mas se estamos nos preparando para um mundo onde a inteligência artificial ampliará nossa humanidade ou apenas a replicará dentro de novas formas de controle econômico e político.

No fim, a verdadeira humanidade está na nossa capacidade de questionar, adaptar-se e cooperar. Que a era das máquinas que sonham nos inspire a construir não apenas algoritmos melhores, mas um mundo mais justo e empático.